Lula e Flávio Bolsonaro: um raio-X das declarações e dos registros públicos sobre antissemitismo e memória do Holocausto
Em janeiro de 2020, quando o então Secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim, protagonizou um pronunciamento oficial emulando a estética sombria do antissemitismo e as palavras literais do ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels sob os acordes de Richard Wagner (a trilha sonora predileta de Adolf Hitler), alertei em artigo que “Hitler não sabia que era Hitler” — afinal, o tirano germânico não dispunha do próprio espelho histórico para medir sua infâmia, ao passo que os governantes contemporâneos conhecem a história e, deliberadamente, escolhem inspirar-se no terror do passado.

Naquela matéria, cruzei o nascimento de Hitler com a reação furiosa do baronato escravocrata brasileiro à Abolição de 1888 — que culminou no golpe militar contra o Império para fundar uma jovem República que logo trataria de fechar o Congresso e empurrar os libertos para as margens das sociedade —, denunciando como a pulsão autoritária da elite nacional sempre preferiu a barbárie à dignidade do povo negro, indígena e periférico, desaguando na naturalização de discursos higienistas, na violência estatal e no elogio explícito a torturadores (leia a matéria original de 2020 aqui e veja as finas semelhanças táticas).

Ao longo dos quatro anos do mandato de Jair Bolsonaro, esse projeto autoritário sequestrou o calendário cívico e o transformou em espetáculo contínuo de intimidação militarizada — compondo uma esplanada com mais ministros de farda do que nos próprios governos da Ditadura Militar — e convertendo o feriado nacional de 7 de setembro em um palanque golpista ininterrupto. O ciclo iniciou-se em 6 de setembro de 2018 com o triste episódio de Juiz de Fora, (o atentado a faca), catalisador de um messianismo armado que alavancou a campanha eleitoral no feriado do dia seguinte, e a tradição midiática, histriônica com ameaças as instituições estendeu-se até o vexame eleitoreiro do Bicentenário da Independência em 2022. Foram portanto cinco 7 de setembros sucessivos marcados por virulência, clamor por intervenção militar, ameaças frontais a ministros da Suprema Corte, motociatas e uma retórica belicista permanente que manteve as liberdades civis, individuais e constitucionais sob constante mira armada (relembre a análise em “Cinco 7 de Setembros em Quatro Anos”).
Essa afinidade ideológica com as páginas mais sombrias da história coleciona registros formais, encontros oficiais e conexões documentadas que atravessam a família Bolsonaro:
- Dezembro de 2004: Nos primórdios da internet comercial, o então deputado federal Jair Bolsonaro enviou mensagens formais de felicitações e agradecimento a portais neonazistas brasileiros, afirmando aos militantes que eles eram “a razão da existência” de seu mandato parlamentar.
- Julho de 2021: Bolsonaro e seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, receberam com honras em gabinetes de Brasília a deputada Beatrix von Storch, vice-líder do partido de extrema-direita alemão AfD (Alternative für Deutschland) e neta direta de Lutz Graf Schwerin von Krosigk, ministro das Finanças e amigo de confiança de Adolf Hitler no Terceiro Reich.
- Novembro de 2021: O delírio revisionista atingiu o ápice quando o ex-presidente inventou publicamente que seu próprio bisavô teria sido soldado no exército de Hitler (Wehrmacht) e perdido um braço no conflito europeu — uma farsa desmentida por historiadores e registros de imigração, que comprovam que a família materna já residia no interior de São Paulo décadas antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial.
- 2023–2024: O escudo de impunidade ruiu na esteira das investigações da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal, culminando na prisão de assessores diretos, ajudantes de ordens, ex-ministros e oficiais de alta patente envolvidos na falsificação de documentos públicos, na cooptação das forças de segurança e no planejamento do golpe de Estado.

A proximidade e a admiração por tantos homens violentos do passado e do presente, somada aos cinco 7 de setembros belicosos e ao 8 de Janeiro que culminou na depredação das sedes dos Três Poderes, alertam para o risco concreto de retomada da violência se a linhagem de Bolsonaro retornar ao poder.

Antes de me despedir, lembro, e evoco a memória de Evaldo Rosa, músico negro e desarmado, metralhado pelo Exército com 80 tiros dentro do próprio carro junto à sua família, em abril de 2019 — tragédia desdenhada pelo então mandatário com a frase cínica de que “o Exército não matou ninguém”, embora a vítima tivesse, inclusive, votado no capitão. Foi o prelúdio de um ciclo de truculência institucionalizada: dos aviões presidenciais usados para traficar pasta-base de cocaína na Espanha ao balcão de pastores que exigiam propina em barras de ouro no MEC; da blindagem ao vizinho de condomínio acusado de ter 117 fuzis, e parceiro do assassinato de Marielle Franco às operações ilegais da Polícia Rodoviária Federal no segundo turno de 2022.

A democracia carrega em si a virtude soberana de permitir que se fale mal dela e até que se discorde dela, desde que não se atente contra as suas próprias bases institucionais. Nos regimes autoritários cultuados por esses mesmos grupos, sequer o direito à palavra é tolerado, e matérias jornalísticas como esta jamais poderiam vir a público.
Neste contexto, é imperativo lembrar o forte vínculo histórico de Luiz Inácio Lula da Silva com a comunidade judaica e a sua atuação na preservação da cultura e da memória do Holocausto. A trajetória de Lula registra décadas de diálogo institucional pautado pela defesa contínua dessa memória. Desde o discurso no cinquentenário da Hebraica em 2003, passando pela participação em cerimônias da ONU, até a visita oficial ao Yad Vashem (Museu do Holocausto) em Jerusalém no ano de 2010, seus gestos concretos de respeito são fartamente documentados. Esse compromisso reafirmou-se em encontros recentes com a diretoria da CONIB (Confederação Israelita do Brasil) e na sanção do Dia Nacional da Lembrança do Holocausto em 2024.

Reconhecer essa sólida construção e as recentes e duras divergências diplomáticas envolvendo o conflito no Oriente Médio, confirma o apreço pela vida, dos Judeus, dos Palestinos, dos Brasileiros, Russos e Ucranianos. Confundir ao nazismo como ódio aos alemães, é igual confundir o repúdio do uso de força militar desproporcional por Israel na Palestina como falta de apreço aos judeus.
Leia tudo com atenção e faça uma boa eleição.
Fontes e Documentação:
- Invenção sobre o alistamento na Alemanha nazista: Documentação e apuração genealógica detalhada pelo podcast Retrato Narrado e pela agência de checagem Aos Fatos (Bolsonaro mente sobre alistamento obrigatório de suposto parente na Alemanha nazista).
- Cartas a sites neonazistas (2004): Pesquisa acadêmica e laudos periciais da antropóloga Adriana Dias revelando mensagens do então deputado: CartaCapital / The Intercept Brasil (Pesquisadora encontra carta de Bolsonaro em portais neonazistas).
- Militarização do Executivo: Levantamento documentado sobre a presença inédita de oficiais na Esplanada dos Ministérios: Revista Veja (Bolsonaro supera Geisel, Médici e Figueiredo em ministros militares).











