Coral das Quebradas é o futuro do funk?
Antes do gênero que conhecemos hoje, havia os bailes de música negra no Rio nos anos 70, que reuniam majoritariamente a juventude negra e periférica dançando soul e funk norte-americano. É ali que começa uma cultura de baile que depois seria fundamental. A palavra “funk”, naquele momento, ainda não se referia à música brasileira, mas sim às referências americanas que chegavam nesses bailes. Na década de 80, o Miami Bass entrou com força, e DJs como Marlboro começaram a traduzir aquelas batidas para a realidade das periferias brasileiras. Em 1989, Marlboro lançou o disco “Funk Brasil”, um marco que ajudou a transformar o gênero de algo importado em uma linguagem periférica brasileira. E o que é muito importante é que nunca existiu apenas um funk. Nos anos 90, havia o funk que falava de violência, desigualdade, cotidiano. E também o funk mais melódico e romântico, que é onde entram Claudinho e Buchecha, ajudando o funk a atravessar fronteiras sociais e chegar às rádios, à televisão e a um público que nunca havia pisado num baile de comunidade. Essa foi a primeira grande mudança, quando o funk começou a alcançar a Zona Sul e, ao mesmo tempo, ser enquadrado pela mídia como sinônimo de violência, criando uma contradição que persiste até hoje.
Claudinho e Bochecha
Ao mesmo tempo, outras vertentes seguiam retratando a realidade mais dura das comunidades, provando que o funk era, antes de tudo, um retrato de quem o produzia. E isso foi mudando de forma com o tempo. No final dos anos 90 e início dos anos 2000, o “Tamborzão” incorporou elementos percussivos e deu ao funk uma identidade rítmica cada vez mais brasileira. E veio também uma das fases mais controversas, a sexualização crescente. Ao mesmo tempo em que era acusado de vulgaridade, o funk também continuava sendo um espaço de expressão periférica, e isso levanta a pergunta de quem define o que é vulgar, quando o corpo em questão é periférico. Nos anos 2010, São Paulo assume um papel central com o funk ostentação, criando uma estética de consumo, marcas e produção própria. A periferia cria sua indústria, seus videoclipes, seus códigos.
Dj Malboro
Antes de falar do futuro do funk, é importante reconhecer tudo o que ele já construiu. E uma das transformações mais importantes é, sem dúvida, a presença e o protagonismo das mulheres. Por muito tempo, o funk foi lido sobretudo como um território masculino. Mas artistas mulheres foram ocupando esse espaço, criando suas próprias narrativas e transformando o funk em um território de autonomia, desejo, trabalho e afirmação. Cantoras como Ludmilla, que começou no funk como MC Beyoncé e depois ampliou sua carreira para o pop, hip-hop, R&B e até o samba e pagode, e Anitta, que saiu do funk carioca para palcos internacionais, ajudam a mostrar que a periferia não é só consumo, é produção de cultura, de mercado, de riqueza e de oportunidades. O funk já chegou ao asfalto, às grandes marcas, à televisão e às plataformas globais. E quando artistas como Anitta levam referências da favela pra fora do país, ou quando outras expandem sua linguagem para outros gêneros, elas reafirmam que o funk não é uma prisão estética, ele é ponto de partida. E é justamente nesse ponto que a próxima pergunta fica interessante: depois de provar que pode gerar sucesso, mercado e reconhecimento, o que mais o funk pode construir?
O futuro do funk esta mais proximo.
E afinal, qual pode ser o futuro do funk? Depois de conquistar espaço, talvez a pergunta já não seja mais sobre chegar ao asfalto, mas sobre… o que fazer com tudo o que já foi conquistado. O Coral das Quebradas aponta uma possibilidade interessante. Em vez de apostar só na batida ou na velocidade, eles trazem vozes, palmas, coro, canções também para crianças, entrando em escolas e mostrando que o funk pode dialogar com educação, convivência e outras dimensões sem deixar de ser funk. Talvez o futuro não seja um novo funk, mas um funk mais consciente de todas as identidades que pode assumir. Se já transformou a periferia em produtora de cultura, talvez o próximo salto seja ajudar a formar quem vai ouvir o Brasil de amanhã. Crianças cantando funk pode ser mais do que uma cena bonita. Pode ser um sinal. Um sinal de que aquilo que nasceu nas margens já não está apenas lutando para ser ouvido. Está começando a formar quem vai ouvir o Brasil de amanhã. É difícil pensar num futuro mais interessante que esse.
Notas do Pié
O funk nasce onde muitos não querem olhar. Nos becos, nos quintais, nas madrugadas onde a música vira forma de simplesmente existir. Ele foi chamado de barulho, de ameaça, de coisa vulgar. Mas também foi refúgio, invenção, caminho de autonomia. E, mesmo quando o mundo tentou mantê-lo do lado de fora, o funk atravessou ruas, telas, fronteiras, e virou trabalho, virou mercado, virou porta de entrada e também espelho do que o Brasil é. E se antes parecia quarto de despejo… Hoje ele olha para a sala de visitas e pergunta,
o que vamos fazer com o espaço que conquistamos? Talvez o futuro do funk não seja uma única forma, mas a possibilidade de continuar contando o presente e formando o amanhã. Se as crianças agora cantam funk em cor, isso pode não ser uma resposta… mas é, sem dúvida, um sinal. Um sinal de que aquilo que nasceu na margem já não tá mais apenas tentando ser ouvido, mas começando a formar quem vai ouvir o Brasil de amanhã.
Luiz Pié









