A história de Maria Aline Soares é daquelas que desafiam as estruturas e renovam a nossa esperança na força da palavra. Ela, que um dia limpava chão, sonhava e escrevia nas horas vagas, agora cruza fronteiras para levar o nome do Brasil aos palcos do mundo. Pedagoga, especialista em Educação Antirracista e Inclusiva e escritora de literatura infantil negra, Aline se consagra como a primeira brasileira indicada ao prestigiado Prêmio NAME de Literatura Infantil Multicultural.
O reconhecimento coroa um trabalho sensível e transformador, que educa através do afeto, da representatividade e do resgate da ancestralidade.
Entre os dias 18 e 21 de novembro de 2026, a cidade de Las Vegas, nos Estados Unidos, sediará a 35ª Conferência Internacional Anual da Associação Nacional de Educação Multicultural (NAME). O evento reúne educadores, pesquisadores e lideranças globais de peso. O tema desta edição — “Ativar: Nossas Comunidades Importam” — parece ter sido escrito sob medida para a trajetória de Aline, que faz da sua comunidade a fonte primaz e a força motriz de sua arte.
Representatividade que atravessa oceanos e quebra barreiras
Autora de dez obras (contando os títulos traduzidos para o inglês), Aline coloca em suas páginas a nossa gente, a infância negra como protagonista, a diversidade e o respeito às diferenças.
O universo literário criado por ela é profundamente humano e lúdico. A personagem principal, Abayomi, tem como mãe a própria autora — moradora do bairro Parque Regina, na zona sul de São Paulo, e professora universitária e pesquisadora. Nas histórias, Abayomi convive com a amiga Marla, que vem dos Estados Unidos para aprender sobre a diáspora africana no Brasil, e com seu irmão Malik, que tem Síndrome de Down, naturalizando a inclusão de forma leve e sensível.
As obras indicadas ao prêmio internacional são A Amiga Estadunidense da Abayomi e Abayomi e Marla: Uma Aventura do Brasil aos Estados Unidos. Esta última foi escrita em parceria com a Dra. Marla Goins, educadora norte-americana e professora da University of Nevada, Las Vegas (UNLV). Com essa colaboração pioneira, Aline tornou-se a primeira brasileira a assinar uma obra em parceria internacional voltada para a Diáspora Africana. O projeto conjunto da dupla rendeu frutos acadêmicos expressivos, incluindo um artigo publicado no renomado periódico internacional Bookbird: A Journal of International Children’s Literature.
Durante a conferência, Aline e a Dra. Marla participarão de palestras e rodas de conversa. Na bagagem, a escritora leva a coragem de uma mulher que trabalhou como faxineira, retomou os estudos pela EJA, passou pelo Enem, formou-se via ProUni pela Universidade Zumbi dos Palmares e construiu uma carreira internacional sólida, sem jamais se esquecer de suas raízes periféricas.
A força da produção independente e autoral
Escrever literatura infantil negra no Brasil é, antes de tudo, um ato de justiça poética. Na infância de Aline, referências literárias pretas eram escassas ou inexistentes. Hoje, as histórias criadas por ela conquistam os Estados Unidos, traduzidas pela parceira Dra. Marla Goins, com títulos de sucesso como:
The Story of Abayomi’s Name
Abayomi’s American Friend
Abayomi and Marla: An Adventure from Brazil to the United States
Malik and Abayomi: The Fantastic Siblings
Toda essa engrenagem de sucesso é fruto de uma produção estritamente independente. Os livros ganham o mundo sob o selo da Academia Periférica de Letras, editora localizada na zona sul de São Paulo, contando com as ilustrações marcantes da artista gaúcha Veridiana Camelô. Uma união de talentos periféricos e regionais que demonstra a potência criativa do Brasil real.
Para Aline, a indicação da NAME representa muito mais do que uma conquista pessoal: é a validação de uma luta coletiva para que a literatura negra, periférica e inclusiva ocupe os espaços que historicamente lhe foram negados.
“Nós pertencemos aqui”, resume a autora. E agora, o mundo inteiro a escuta.
A consagração no palco do mundo
A cerimônia oficial de premiação ocorrerá no dia 21 de novembro, durante a Gala de Encerramento da conferência em Las Vegas. O momento será de celebração não apenas para Aline e Marla, mas para cada criança, família e leitor que se enxerga e se reconhece nessa trajetória de superação.
“Não é só um prêmio. É a nossa voz chegando onde sempre disseram que não devíamos estar. É a periferia brilhando no palco do mundo”, emociona-se a escritora, cuja missão de vida é transformar o futuro de toda uma geração por meio do poder das histórias.
Sobre a NAME
Fundada há 36 anos, a Associação Nacional de Educação Multicultural congrega educadores de todo o planeta em prol de uma educação inclusiva, equitativa e transformadora. Guiada pelo lema “Mobilizando Comunidades para Fomentar o Pertencimento, a Equidade e o Impacto Coletivo”, a entidade reafirma que a mudança social verdadeira começa quando cada voz encontra acolhimento, espaço e vez.
Anderson Moraes (42) É Jornalista, fundador do Jornal Empoderado, diretor do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, membro da COJIRA-SP – Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial de São Paulo, da Frente Nacional Antirracista, âncora do programa Domingo na Fórum da revista Fórum e conselheiro da EBC.
NOTA
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