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‘Precisamos transformar visibilidade em políticas públicas, diz Yemojazz’, ialorixá e ícone do Hip-Hop

Iarorixá Ominade fala de política e fé (foto: Jaque Teodoro)

Aos 46 anos, a ialorixá Omilade, conhecida nas redes sociais como Yemojazz, está perto de completar quatro décadas de iniciação no candomblé, sendo fundadora do Ilê Oloroke Omibainà, comunidade tradicional de terreiro localizada na Zona Sul de São Paulo, com 110 membros. 

Ao jornal Empoderado, Yemojazz analisa o cenário político atual e as perspectivas de mudança para as religiões de matriz africana no Brasil. A luta e o engajamento das pessoas abriram novos fóruns de reflexão e troca de ideias.

“Não podemos descobrir a importância da coletividade só quando nossos direitos estão ameaçados”, disse Yemojazz.

No instagram, as suas reflexões sobre fé, política e filosofia focadas no compromisso com a transformação social e formação intelectual são acompanhadas de perto por 45 mil seguidores.

Voz ativa na luta contra o racismo religioso e engajamento nos movimentos sociais progressistas, Yemojazz está fazendo uma campanha na internet de arrecadação de fundos para um novo local para o Ilê.

Em seus escritos, investiga as relações humanas, a memória ancestral, as estruturas de poder e os desafios da existência contemporânea. Sua atuação afirma os saberes africanos como produção de conhecimento, pensamento crítico e contribuição fundamental ao debate público.

No começo dos anos 90, ela participou do mutirão de fundação da Casa do Hip Hop de Diadema, fortalecendo a cultura periférica, onde atuava cantando rap, compondo e dançando black music.

Após ter dançado no palco com a lenda James Brown, durante a sua turnê no Brasil em 1999, ela ficou conhecida como Nina Brown.

Confira a entrevista na íntegra e o link para a campanha colaborativa

https://benfeitoria.com/projeto/acontinuidadeprecisadechao?ref=search

O espaço sagrado  Oloroke Omibainà  existe há seis anos. Qual a história do início do Ilê? Como ele surgiu?

O Ilé Oloroke Omibainà não nasceu de um projeto pessoal. Nasceu de uma responsabilidade ancestral atribuída a mim, de um caminho que foi se revelando aos poucos e da compreensão de que o Àṣẹ que recebemos não nos pertence. Somos seus guardiões e temos a responsabilidade de cuidar para que ele siga adiante. Essa história começou há seis anos, muito antes de termos um endereço.

As primeiras pessoas chegaram e, logo em seguida, veio a pandemia. Mesmo diante das incertezas daquele período, fomos construindo relações sustentadas pelo mesmo desejo de viver a ancestralidade em comunidade.

Em 2022, abrimos oficialmente as portas do Ilé, na Zona Sul de São Paulo. O tempo entre o começo e a abertura me ensinou algo essencial: fundar uma casa de Òrìṣà é aprender a respeitar o tempo. Nem tudo acontece quando desejamos.

Há processos que precisam amadurecer, relações que pedem cuidado e ensinamentos que só a vivência entrega.

Compreendo o terreiro como território de vida, uma casa de saber, uma casa de Àṣẹ. O sagrado se manifesta nos ritos, mas também na comida repartida, na escuta, no cuidado, na educação e nas responsabilidades que assumimos uns com os outros. O Àṣẹ não está separado da forma como vivemos.

Por isso, não estamos construindo apenas um espaço para cerimônias. Estamos cultivando um território onde a memória ancestral siga produzindo conhecimento, dignidade e pertencimento.

Também não penso essa casa somente a partir de mim. Penso em quem caminha comigo e, sobretudo, em quem ainda vai chegar. O sentido de uma comunidade de Àṣẹ está naquilo que somos capazes de cuidar e transmitir para além de nós mesmos.

Qual a sua história de fé? 

Minha história de fé começa com um adoecimento. Renasci para o Òrìṣà em 1989, aos nove anos de idade. Minha saúde estava tão comprometida que um médico chegou a dizer ao meu pai que eu não tinha nada e que ele deveria me levar a um centro espírita.

Meu pai já tinha uma relação de cuidado com o Candomblé, uma história que atravessava nossa família. Ele conta que chegou ao terreiro com uma esteira em um braço e, no outro, me segurando no colo, porque eu já não conseguia andar direito. O sacerdote fez minha iniciação sem muitas explicações, atendendo ao que o oráculo indicava e à necessidade daquela criança.

Mas eu não permaneci no Candomblé. Minha mãe era católica e, atravessada pelo racismo religioso, ainda não reconhecia a própria ancestralidade.

Meu reencontro com os Òrìṣà veio pelo hip-hop. Em 1993, conheci essa cultura e encontrei pessoas com uma relação profunda com a ancestralidade africana. Havia uma orixalidade naquelas existências que despertou em mim o desejo de pertencer à religião dos Òrìṣà, dessa vez por escolha própria.

Mais uma vez, meu pai me levou ao oráculo. Foi o saudoso Miguel de Oyá quem revelou, nos búzios, que eu já era iniciada. Lembro da felicidade de descobrir que aquele começo tão turbulento já fazia parte da história da minha vida.

Segui minha caminhada no Ilé Àṣẹ Alagurê, junto ao saudoso Babalòrìṣà Jorge de Òṣàlá, até 2012, quando me afastei depois do nascimento da minha filha. Fui profundamente atravessada por uma depressão pós-parto. Adoeci a ponto de não conseguir compreender minha própria existência, muito menos o caminho espiritual que eu havia percorrido.

Foi numa consulta ao oráculo de Ifá que recebi a orientação para assumir meu sacerdócio, e também o anúncio de que aquele adoecimento teria fim. Mas compreender um destino não significa estar pronta para vivê-lo. Foram sete anos resistindo ao que me havia sido revelado, tentando dar sentido a uma existência que eu já não reconhecia.

Até que Yemọja me tirou daquela escuridão. Foi nas águas sagradas da minha mãe que reencontrei a possibilidade de reconstruir minha vida.

O sacerdócio não chegou para me dar uma posição. Chegou quando eu precisava recuperar minha própria existência. Aos poucos, retomei minha dignidade como mulher, minha força, minha capacidade de criar, de pensar e de me reconhecer. Tornei-me Ìyálòrìṣà de Yemọja, mas antes precisei reencontrar a mulher que havia se perdido no caminho.

Hoje, quando olho para aquela menina que chegou ao terreiro nos braços do pai, compreendo a dimensão dessa travessia: 37 anos de iniciação, atravessados por rupturas, reencontros e responsabilidades.

Minha fé não nasceu de uma vida sem sofrimento. Ela atravessou comigo o que parecia impossível de sobreviver, e foi por meio dela que encontrei o caminho de volta para mim mesma.

Qual a sua história com a política e com a luta por causas sociais em São Paulo?

Minha história com a política começa no hip-hop, nos anos 1990. Foi ali que compreendi que a realidade da população negra e periférica não era resultado de dificuldades individuais, mas de estruturas sociais que determinavam quem teria acesso a direitos, oportunidades e reconhecimento.

Venho de uma geração que encontrou no hip-hop uma forma de organização política. Fui uma das fundadoras da Casa do Hip-Hop de Diadema e da Zulu Nation Brasil. Naquela época, ainda conhecida como Nina Brown, entendi que nossa produção cultural também precisava disputar espaços de decisão. Não queríamos apenas ocupar os palcos.

Queríamos participar das discussões sobre a cidade, a educação, a juventude e as políticas públicas. Essa caminhada me levou à educação social e à construção de iniciativas institucionais.

Participei da criação do Centro de Referência de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em Diadema, e coordenei projetos de valorização das tradições afro-brasileiras. Minha formação em Pedagogia nasceu desse mesmo compromisso: reconhecer os saberes das nossas comunidades como conhecimento legítimo.

Mais tarde, levei essa atuação para o samba e passei a integrar a Ala de Compositores do Camisa Verde e Branco, um espaço historicamente masculino. A cultura negra sempre foi, para mim, território de formação política, de organização coletiva e de enfrentamento às desigualdades.

Na luta pela liberdade religiosa, participei da articulação da Marcha Nacional de Combate à Intolerância Religiosa em São Paulo. Em 2018, junto ao Coletivo Okan Dimó, organizamos na Avenida Paulista uma mobilização que reuniu 15 mil pessoas.

Essa experiência me fez entender que o racismo religioso não se enfrenta apenas como uma questão de respeito às crenças. Está em jogo o direito à cidade, à educação, à memória, aos territórios tradicionais e à continuidade das nossas comunidades.

Hoje, à frente do Ilé Oloroke Omibainà, na Zona Sul de São Paulo, vivo essas questões no cotidiano. O sacerdócio não substituiu minha militância. Ele ampliou minha responsabilidade diante das desigualdades que sempre enfrentei.

A luta pela permanência do nosso terreiro é um exemplo concreto. Quando uma comunidade tradicional precisa mobilizar recursos para garantir o território onde vai continuar existindo, a discussão ultrapassa a religião. Ela alcança o direito à terra, à cultura e à dignidade.

São mais de três décadas de atuação, e continuo entendendo a política como responsabilidade coletiva. Comecei como parte de uma juventude negra que reivindicava o direito de produzir cultura e decidir sobre o próprio território. Hoje, como escritora, educadora e sacerdotisa, sigo nas mesmas questões, agora com a responsabilidade de garantir que as próximas gerações tenham condições de permanecer e construir suas próprias histórias.

Quantas pessoas fazem parte da comunidade atualmente?

Atualmente, o Ilé Oloroke Omibainà reúne 110 membros em sua família de Àṣẹ. Mais do que um número, são 110 pessoas que compartilham responsabilidades com a vida, com a ancestralidade e com a continuidade da nossa tradição.

Na sua opinião, qual foi o engajamento das comunidades e religiões do axé no cenário político do Brasil em 2026?

Penso que as eleições de 2026 mostraram avanços importantes, mas também expuseram fragilidades que precisamos ter coragem de discutir dentro das nossas próprias comunidades.

Houve mobilização, articulação de lideranças, candidaturas comprometidas com nossas pautas e uma presença mais forte dos povos de Àṣẹ no debate público. Ainda assim, percebo uma distância entre reconhecer a importância da participação política e assumir a responsabilidade coletiva que ela exige.

Nossas comunidades são profundamente atravessadas pelas decisões políticas. O acesso à terra, à saúde, à educação, à cultura e à liberdade religiosa depende também das escolhas que fazemos como sociedade. Não existe espiritualidade apartada das condições concretas de existência.

O que mais me inquieta é a dificuldade que ainda temos de transformar pertencimento religioso em consciência política coletiva. Compartilhar uma tradição não significa, necessariamente, conhecer os compromissos históricos que garantiram sua sobrevivência.

Também é preciso reconhecer que os povos de Àṣẹ não formam um grupo politicamente homogêneo. Temos diferenças, contradições e visões distintas de mundo. Mas essas diferenças não deveriam nos impedir de construir compromissos mínimos em defesa dos nossos direitos e da continuidade das nossas comunidades.

O terreiro sempre foi espaço de organização social, muito antes de o Estado nos reconhecer como sujeitos de direitos. Nossos mais velhos criaram estratégias de sobrevivência, solidariedade e proteção coletiva em tempos em que professar nossa fé era arriscar a própria liberdade.

Por isso, acredito que nosso maior desafio não é apenas ampliar a presença nas eleições, mas construir uma participação política permanente, que vá além dos períodos eleitorais. Não podemos descobrir a importância da coletividade só quando nossos direitos estão ameaçados.

Se a ancestralidade nos ensina que ninguém existe sozinho, precisamos amadurecer nossa capacidade de cuidar uns dos outros. A continuidade dos povos de Àṣẹ não pode depender apenas do esforço de algumas lideranças. Ela é responsabilidade de todos nós.

Iarorixá Omilade fala de política e fé (foto: Jaque Teodoro)
Iarorixá Omilade fala de política e fé (foto: Jaque Teodoro)

Hoje acontece uma campanha colaborativa na internet com meta de arrecadação de R$ 200 mil para mudança do espaço para um local mais natural. Explica pra gente esse projeto? O que vai mudar?

A campanha “A Continuidade Precisa de Chão” nasceu de uma necessidade que muitas comunidades tradicionais de terreiro conhecem: a dificuldade de encontrar lugares adequados para exercer nossa religiosidade e, principalmente, de permanecer neles.

Depois de quatro anos no imóvel onde estamos, recebemos o pedido de devolução da casa. Para quem não conhece a nossa tradição, pode parecer apenas mais uma mudança.

Mas como se muda uma casa de Òrìṣà? Como se retiram os assentamentos, os fundamentos e toda uma história espiritual construída naquele chão? É um processo delicado, que exige cuidados que ultrapassam qualquer mudança convencional.

Existe um racismo imobiliário que precisa ser enfrentado. Quem vive a realidade dos terreiros sabe como é difícil encontrar uma propriedade para alugar quando se declara que ali funcionará uma comunidade de Candomblé. Muitas vezes, antes mesmo de conhecerem nossas necessidades, já encontramos resistência. E isso nos coloca numa condição permanente de insegurança. Também precisamos discutir o que significa um espaço adequado para nossas tradições.

Não podemos praticar nossa religiosidade em qualquer lugar. Precisamos de árvores, folhas, terra, água, privacidade e condições para realizar nossos ritos. Nossa relação com a natureza é parte dos fundamentos religiosos que recebemos. Não estamos procurando uma propriedade com uma paisagem bonita. Estamos buscando condições para viver plenamente nossa tradição.

Foi por isso que decidimos nos organizar para conquistar nosso território próprio. A campanha tem a meta de arrecadar R$ 200 mil, valor que contribuirá para a aquisição desse espaço. É um desafio enorme para uma comunidade formada por pessoas que também enfrentam suas próprias dificuldades econômicas.

Eu sou uma mulher preta, periférica, não herdeira. Sei o que significa desejar construir alguma coisa e encontrar tantas barreiras pelo caminho. Mas também sei que nossa história foi sustentada por pessoas que compreenderam a importância de reunir esforços para que outras pudessem continuar.

Hoje somos 110 membros. Não estamos pensando apenas nas necessidades de quem está aqui agora. Queremos que nossas crianças cresçam tendo contato com a natureza, que nossos mais velhos encontrem condições dignas para viver a espiritualidade e que as próximas gerações recebam uma casa que não esteja permanentemente ameaçada pela possibilidade de perder seu endereço.

E faço questão de dizer: nosso território ancestral já existe. Ele está na nossa comunidade, nos nossos fundamentos, nas relações que estabelecemos com os Òrìṣà e na memória que carregamos. O que precisamos conquistar é o direito de estabelecê-lo definitivamente em um espaço físico adequado.

Não quero passar os próximos anos procurando outra casa para alugar, sabendo que, depois de todo o trabalho espiritual realizado, podemos ser obrigados a sair novamente.

Quero poder envelhecer sabendo que fiz a minha parte para que essa comunidade permaneça. A continuidade precisa de chão porque a nossa ancestralidade também precisa ter onde permanecer.

Também é uma forma de unir as pessoas por um propósito?

A ideia da campanha nasceu quando começamos a olhar para a nossa própria história. A população negra brasileira tem uma longa experiência de organização coletiva para enfrentar aquilo que individualmente parecia impossível.

Durante o século XIX, as sociedades protetoras, as associações de auxílio mútuo, as irmandades negras e as sociedades abolicionistas reuniam recursos para comprar alforrias, amparar famílias, garantir sepultamentos dignos e criar condições de liberdade para outras pessoas. Muitas dessas iniciativas foram construídas por homens e mulheres negros que possuíam muito pouco, mas compreendiam que a liberdade de um também dependia da mobilização de muitos.

Quando começamos a pensar em como conquistar nosso território, foi a essa memória que recorremos. Se nossos ancestrais se organizaram para comprar a liberdade de pessoas escravizadas, por que não podemos nos organizar para libertar nossos territórios sagrados da dependência do aluguel? É dessa compreensão que nasce a nossa campanha na Benfeitoria. 

As doações são a partir de R$ 20 com diversos tipos de recompensas de agradecimento, como foi que surgiu a ideia de fazer uma vaquinha virtual?

As contribuiçõescomeçam em R$ 20 justamente para permitir que mais pessoas participem. As recompensas são formas de agradecimento, mas o que sustenta essa proposta é a possibilidade de cada pessoa reconhecer sua participação numa conquista coletiva.

Não estamos inventando uma nova maneira de nos organizar. Estamos recuperando uma prática histórica de solidariedade e responsabilidade com a continuidade da vida.

O Ilé Oloroke Omibainà já possui seu território ancestral, construído nas relações, nos fundamentos e na memória da nossa comunidade. O que ainda precisamos conquistar é a segurança de um espaço físico que não dependa da decisão de um proprietário para continuar existindo.

Nossos ancestrais se reuniram para conquistar a liberdade. Nós estamos nos reunindo para garantir a permanência.

Qual a sua perspectiva política para as religiões de matriz africana para os próximos quatro anos no Brasil. É possível já respirar com alívio ou os desafios serão intensos?

Não acredito que seja hora de respirar com alívio. Nenhum resultado eleitoral, sozinho, desfaz uma violência estrutural. O racismo religioso não começou com um governo e não termina com outro.

Os próximos quatro anos vão exigir vigilância. Terreiros continuam sendo atacados e comunidades tradicionais seguem lutando pelos seus territórios. Ainda enfrentamos preconceito na escola, no trabalho, no sistema de justiça e até no direito de enterrar os nossos com dignidade, segundo os nossos ritos.

E há um desafio que precisa entrar de vez no centro do debate: o ambiental. Kò sí ewé, kòsí òrìṣà. Sem folha, não há Òrìṣà. Nossa fé depende das matas, dos rios, das cachoeiras e do mar. Quando uma nascente é soterrada, quando uma mata vira condomínio, quando um rio adoece, não perdemos só natureza. Perdemos o lugar onde o sagrado se manifesta.

Nas grandes cidades, muitas comunidades já não encontram espaços naturais para realizar seus ritos, e quando encontram, muitas vezes são tratadas como poluidoras. A crise climática, a especulação imobiliária e o avanço sobre áreas verdes atingem diretamente a continuidade das nossas tradições. Defender o território de terreiro é também defender o meio ambiente. Os terreiros sempre foram guardiões de folhas, de saberes sobre plantas e de uma relação de respeito com a terra que o mundo agora corre para reaprender.

Mas também há motivos para esperança. Nunca tivemos tantas lideranças de Àṣẹ no debate público, produzindo conhecimento e atuando no Direito, na educação, na cultura e na pauta ambiental. Essa presença não é concessão, é conquista.

Minha perspectiva, então, é de luta com mais preparo. Precisamos transformar visibilidade em políticas públicas concretas: regularização dos territórios de terreiro, preservação das áreas naturais de uso sagrado, reconhecimento dos terreiros nas políticas ambientais e climáticas, uma educação que cumpra de fato a Lei 10.639 e a responsabilização efetiva dos crimes de racismo religioso.

Não haverá alívio enquanto um terreiro precisar se esconder para existir, nem enquanto as águas e as matas que nos sustentam continuarem sendo destruídas. Mas também não haverá retrocesso capaz de apagar o que nossos mais velhos sustentaram por séculos. Seguimos.

Você dançou com o James Brown aqui no Brasil. Como foi isso? Parece uma cena de cinema.

Em 1999, eu tinha acabado de ter minha primeira filha, Lainy, quando James Brown veio fazer um show no antigo Olympia, em São Paulo. Fui sem nenhuma experiência e com pouquíssimo dinheiro: meus pais rasparam o cofrinho para que eu realizasse o grande sonho da minha vida.

Quando cheguei à porta, já não havia ingressos. Estavam todos nas mãos dos cambistas, e o show estava prestes a começar. Uma moça de Minas Gerais, que eu não conhecia, ficou sensibilizada com a minha situação. Tomou a minha história para si e negociou com os cambistas, passo a passo, até completar o dinheiro que eu tinha. A poltrona ficava muito longe do palco.

Durante a abertura, fui descendo pelas escadas de segurança até chegar perto do palco e fiquei parada junto a uma pilastra. Quando James Brown começou a cantar e a dançar, fechei os olhos e me deixei levar por aquela música viva que eu tanto amava. Alguém me cutucou. Quando abri os olhos, era ele, me chamando para subir ao palco.

Dancei ao lado do meu maior ídolo. Depois daquela noite, até o meu nome mudou: passei a ser Nina Brown, a Nina que dançou com o Brown. Anos depois, contei essa história numa revista. A moça de Minas era assinante, leu e confirmou o que eu tinha contado. Chama-se Vanessa Vendramini e vivia em Juiz de Fora. O gesto dela, de entender o quanto aquilo era importante para mim, mudou a minha vida dali para frente.

Iarorixá Ominade fala de política e fé (foto: Jaque Teodoro)
Iarorixá Yemojazz fala de política, ancestralidade e fé (foto: Jaque Teodoro)

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