Por Simony dos Anjos
Estamos no meio da campanha eleitoral do segundo turno. A polarização, embora mais tímida que em 2018, ainda está muito presente em nosso cotidiano. Em grupos de aplicativo de mensagens ou em comentários de redes sociais, a convivência entre os diferentes parece impossível. Contudo, com o resultado do primeiro turno, há uma comoção dos setores progressistas em conquistar votos para o Presidente Lula.
Bom, como temos visto na maioria das análises a respeito dos votos, temos basicamente quatro grupos: os convictos de extrema-direita, os convictos progressistas, os que não votaram e os que votaram numa possível terceira via. Muitos tentam entender em qual desses grupos os evangélicos se encaixariam, se valeria tentar dialogar com esse segmento, ou não.
Em primeiro lugar, é necessário que entendamos que os evangélicos são tão diversos quanto o povo brasileiro. Temos que considerar território, gênero, raça, classe social etc. para avaliar esse grupo. Não dá para essencializar esse grupo apenas a partir de sua identidade religiosa. Evidentemente, a fé é fundamental para as pessoas evangélicas, assim como para a maioria da população brasileira que professa uma fé, mas devemos considerar outros fatores que podem influenciar no voto da pessoa evangélica.
Se eu fosse estabelecer uma estratégia para conversar com o público evangélico eu dividiria esse grupo em subgrupos: mulheres, negros, jovens e periféricos. Mulheres tendem a ser mais progressistas em seus votos, porque entendem a importância do estado na manutenção de suas famílias. Assim, propostas que se baseiam na vida real, tendem a ser melhor acolhidas por esse grupo.
As pessoas negras são o grupo que tende a ser o grupo mais pobre, por conta de todo o histórico brasileiro que empurra essas pessoas para a pobreza, então, são pessoas que por um lado entendem a importância das políticas públicas, mas por outro lado, há uma desconfiança de que políticos possam realmente se preocupar com suas vidas concretas.
Os jovens são o grupo que menos experiência tem e por isso, tende a votar mais por projetos de futuro, do que por feitos passados que qualquer candidato tenha feito. Todos esses grupos, afetados pela questão da classe, vão tender a ouvir mais propostas concretas para a vida, do que discursos inflamados sobre justiça social ou moralidade.
Bom, pensando que cerca de 26% dos brasileiros são evangélicos, existem nestes quatro grupos que citei acima, pessoas evangélicas, assim, se direcionando à vida concreta dessas pessoas você tem 25% de chance de estar dialogando com um evangélico em cada dia de campanha.
Agora, se você perceber que para aquela pessoa a fé é muito importante, eu arriscaria dizer que se essa pessoa não foi votar, ou votou na terceira via, vale a pena focalizar a liberdade religiosa e o estado laico. Se essa pessoa demonstrar que é convicta de extrema-direita, eu diria que não vale a pena conversar, não por ela ser evangélica, mas porque ela já está decidida. Temos que lembrar que o maior grupo de eleitores do clã Bolsonaro é católico, e não evangélico. Então, essa decisão tem relação com preconceitos de classe e certezas que não podem ser debatidas em uma conversa do tipo vira-voto.
Em segundo lugar, eu diria que o trabalho começa conosco: o evangélico midiático estilo Silas Malafaia, não é a caricatura do evangélico comum. E, para mim, esse foi o maior erro que cometemos em 2018, achar que os evangélicos tinham a culpa da eleição de Bolsonaro, porque todos eram fundamentalistas lunáticos. Não são.
A pergunta que faço é: há disponibilidade de conversar com a pessoa evangélica? De entender a realidade dela e como a sociabilidade religiosa produz a sua noção de humanidade e de vida? A vida em comunidade é melhor, sobretudo em contextos de extrema vulnerabilidade. Então, resumir essas pessoas apenas a evangélicas, é desconsiderar toda a trajetória de vida dessas pessoas, inclusive considerando o porquê de terem se tornado evangélicas.
Quando achamos que os evangélicos votam em bloco, as nossas incoerências se mostram. Se os evangélicos votam em bloco, porque a região pesa no voto? Não existem evangélicos no nordeste ou, ainda, o sul é todo evangélico? Evidentemente, não podemos desconsiderar o discurso de líderes religiosos que querem direcionar os votos de suas bases, mas, também, não podemos desconsiderar a conjuntura de cada voto. O voto não é fixo, ele é reflexo de um momento histórico, e estamos vivendo um momento histórico em que movimentos extremistas de direita têm tomado as redes sociais com soluções simples para problemas complexos.
Por fim, se me perguntassem com qual evangélico vale a pena dialogar, eu diria que é com a pessoa que optou pela terceira via e não votou, e que seja de alguns dos grupos que apresentei: jovens, mulheres, pessoas negras e periféricas. São pessoas que querem uma melhoria de vida, uma possibilidade de futuro e dignidade. E, no limite, isso vale para todas as pessoas com quem podemos dialogar, não apenas para as pessoas evangélicas.
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