ENTRETENIMENTO SAÚDE

Despedida de um profissional de saúde à uma comunidade de pescadores

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Bom dia

 

Hoje faço um artigo inusitado, que foge aos moldes tradicionais. Trabalhei por pouco mais de três anos em uma comunidade humilde em Florianópolis, vila de pescadores e benzedeiras, de tradição manézinha (como são chamados aqueles que nasceram na ilha), enfim de gente simples e batalhadora. Não podia partir sem me despedir. Então fiz esta carta aos moradores…

 

Essa semana me despeço da Barra da Lagoa. Quase lembro quando, três anos atrás, visitava a comunidade pela primeira vez. Não estava a costumado com as estreitas ruas. Fazia sol. A vista da lagoa, de um lado, e o brilho do canal, de outro, impressionavam. É essa natureza da Barra quem primeiro cativa o desconhecido, hoje e sempre.

 

Por alguns meses cheguei a morar na Barra, em um albergue próximo ao canal. Me encantei com os pescadores, com a gente simples, com as muitas histórias da comunidade antiga. Não há como não se encantar pela Barra. Assim foi comigo e com os colegas que me precederam. Pensei em ficar ali por cinco, dez anos, o tempo que me deixassem.

 

A vida nos manda para outros cantos. Pouco decidimos do futuro. No entanto, vou levar comigo a memória de todos, para onde quer que eu vá. Não vou nominar ninguém. Citar nomes seria injusto, seria privilegiar a uns, esquecer a outros. Prefiro render essa homenagem à comunidade, indistintamente. Cuidando, nos aproximamos do outro, conhecemos pessoas, partilhamos objetivos comuns. A medicina, como tantas outras ocupações, é rica para quem gosta de gente.

 

Por estes anos tive a felicidade de trabalhar com uma equipe dedicada, competente. Desde que me formei conheci pessoas brilhantes. Algumas me inspiram até hoje. Entre todos os colegas que comigo partilharam parte do caminho, foi na Barra que, na assistência, trabalhei com a melhor equipe que conheci.

 

Na despedida, muitos calam. A emoção torna a gente mudo. Falo, no entanto, para expor minha gratidão. Já disseram outros: partimos, mas deixamos sempre, felizmente, um pouco de nós. Não sou o mesmo. Também levo comigo um pouco da Barra. Esse não é motivo de tristeza, mas de alegria. Na vida, tudo o que fica são memórias.

 

Muito obrigado.

 

 

Rodrigo de Novaes

Sobre o Autor

Rodrigo de Novaes

Escritor, ensaísta, médico de família e epidemiologista. Mestre em Epidemiologia pela UFSC. Escreve ao jornal Empoderado. Autor de " A última aldeia"

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