A quadrinista May Solimar foi uma das vencedoras da 37ª edição do prêmio HQ Mix, na categoria homenagem especial, por conta do trabalho “G20 em quadrinhos”. O prêmio existe desde 1989 e é um dos mais relevantes do país.
O prêmio é um reconhecimento pela obra da artista que retrata de forma crítica e contundente o encontro do G20, comitê político e econômico entre líderes das maiores potências do mundo.
A entrega do prêmio será no dia 10 de dezembro, no teatro Raul Cortez, no Sesc 14Bis, no bairro da Bela Vista em São Paulo, reunindo grandes nomes dos quadrinhos, tirinhas e cartoons.
Confira trechos da entrevista exclusiva da artista para o jornal Empoderado:
Quando você começou a desenhar?
Eu sempre gostei de desenhar, desde pequena. Mas foi em meio a pandemia que a vontade de retomar esse, até então hobbie, veio à tona. Sempre vi a arte como um lugar de refúgio e desabafo, e enquanto o mundo estava triste, caótico, e estávamos em isolamento social, transformar minhas angústias e reflexões em arte, me trouxe um certo aconchego.
O que os quadrinhos representam para você?
Os quadrinhos pra mim são um modo de narrativa democrático, que tem o poder de transformar conteúdos e assuntos complexos, em algo de fácil entendimento. Através dos quadrinhos é possível demonstrar uma situação e trazer um olhar de empatia de quem lê. Da mesma forma que os textos grandes tem seu lugar de aprofundamento de questões, os quadrinhos podem introduzir assuntos, ou trazer um vislumbre rápido de algo, que posteriormente pode até ser estudado melhor através de textos mais elaborados.
Qual o principal desafio de uma quadrinista hoje?
Acho que o principal desafio do quadrinista é ter seu trabalho reconhecido como uma ferramenta importante e de valor. Existem muitas pessoas trabalhando com quadrinhos, mas poucas oportunidades de trabalhos bem remunerados.
Por que tem tão poucas mulheres quadrinistas?
Acho que tem muitas mulheres quadrinistas, menos mulheres negras eu diria. Mas acredito que isso vá de encontro a uma sociedade patriarcal que coloca o trabalho das mulheres sempre num lugar de desvalorização.
Acho que isso também tem a ver com a narrativa feminina. Mais mulheres quadrinistas ganhando espaço na mídia, nos meios de comunicação, nas redes sociais, é igual a mais vozes femininas levantando coro, e isso assusta alguns homens que estão acomodados em construir histórias muitas vezes machistas, que sexualizam a figura feminina em hqs, e que não traz uma representatividade adequada e real às mulheres.
Por que tem tão poucas mulheres negras quadrinistas?
Quando penso em quadrinistas negras especificamente, me vem à mente o fato do racismo que oprime ainda mais. Colocando a produção intelectual e criativa das mulheres negras num lugar de mais invisibilidade. Sem contar numa estrutura que coloca as mulheres negras em posições de trabalhos muitas vezes de subalternidade, com pouco acesso a estudos, sufocando as possibilidades de sonhar em viver através da arte.
Quem são as pessoas que você representa nos seus quadrinhos?
Costumo trazer em meus quadrinhos o protagonismo negro, e principalmente de mulheres negras, pois parto muito do meu lugar de fala e sentimentos. Sinto também a necessidade de ver pessoas negras sendo representadas, e nossas questões, nossas vivências.
Qual recado você daria para quem está começando?
Não ter medo de colocar a ideia em ação. A gente pensa demais e cria receios que não precisam existir. A arte é fluída e não tem formato ideal. Cada um tem sua forma de expressar, e é essa a beleza. Colocar no mundo. Extravasar.
Quantos prêmios você já ganhou?
Eu ganhei, em 2021, o Prêmio de Arte Afrofuturista, promovido pela New African Renaissance. Agora em 2025, tive a linda surpresa de ser vencedora do Prêmio Hq Mix, com homenagem especial pelo trabalho G20 em Quadrinhos, que fiz no ano de 2024, representando temas globais e prioridades do Brasil na presidência do G20. Este ano, na mesma premiação, tenho uma obra minha dentro do Almanaque Kitembo 2k24, que foi vencedor na categoria de publicação independente de grupo.
Quais são os seus planos para daqui a 10 anos nos quadrinhos?
Daqui a 10 anos quero estar desenhando ainda, aprendendo, ensinando o que puder dentro do universo da “arte protesto” e “arte vivência”. Quero poder continuar tocando as pessoas com minhas narrativas visuais.










