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O xadrez do Senado: diálogo, poder e a realidade dos dois por cento

Foto que flagra abraço entre Davi Alcolumbre, presidente do Senado e o Senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, candidato da direita à presidência deste ano

Por Toni Reis

A política brasileira não é feita de absolutos, mas de correlação de forças. A rejeição do nome de Jorge Messias para o STF pelo Senado Federal do Brasil não foi um episódio isolado. Foi um sinal claro de como o poder se organiza no Brasil real.

O Executivo indica, mas o Senado decide.

Quando a articulação falha, a conta simplesmente não fecha.

Vivemos um momento em que a divisão do país não é abstrata, é matemática. Diferenças de 1% ou 2% nas urnas definem quem governa, e isso muda o jogo. Não há mais espaço para projetos que ignorem metade do eleitorado. Vai governar quem tiver capacidade de diálogo.

Isso não é uma escolha moral, é sobrevivência política. A regra é simples. Quando não se tem voto suficiente, negocia-se com quem tem. Isso vale para o movimento estudantil, para organismos internacionais e, principalmente, para o plenário do Senado.

É preciso reconhecer que a política é movida por interesses, emoções e causas. Spinoza já nos alertava que somos atravessados por afetos e desejos. Ignorar o fator humano e os interesses legítimos dos parlamentares é um erro estratégico. Ao mesmo tempo, esse jogo precisa ser orientado pela ética e pelo compromisso público.

A votação de Messias foi um marco histórico que nos convida à reflexão. É hora de deixar o orgulho de lado e assumir o pragmatismo necessário.

Platão idealizava um Estado conduzido por homens virtuosos, mas a prática política exige construção de maioria. Nicolau Maquiavel continua atual. O poder não aceita vazio. Onde falta articulação, sobra resistência.

Messias demonstrou preparo na Comissão de Constituição e Justiça, mas Brasília não decide apenas por currículo. Decide por voto. E, como ensinava Charles Sanders Peirce, o valor de uma ideia está em seus efeitos práticos.

Sem 41 votos, nenhuma proposta se sustenta, e causas urgentes, como a proteção dos povos indígenas e os direitos sociais, correm o risco de permanecer paralisadas.

É preciso dizer com clareza. Orgulho não governa país.

O Brasil de hoje exige sentar à mesa com quem pensa diferente, inclusive com quem representa o oposto do que defendemos. Dialogar com a direita democrática e com o centro não é sinal de fraqueza. É condição de governabilidade.

O próximo movimento do governo precisa ser orientado pela viabilidade. Os critérios constitucionais, saber jurídico e reputação ilibada, são o ponto de partida, mas não suficientes. Diversidade e pragmatismo precisam caminhar juntos.

Há uma eleição no horizonte, e o governo não pode se dar ao luxo de se perder em disputas simbólicas sem resultado. A busca por representatividade é legítima, mas o indicado precisa ter os 41 votos.

No Brasil dos dois por cento, vence quem constrói pontes. Não quem se fecha nas próprias certezas.

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