Para os povos Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, o som nunca foi apenas música: é tecnologia ancestral, é reza, é conhecimento vivo. É Mba’ekuaa: um conhecimento vivo, espiritual e prático ao mesmo tempo.
Os sons sagrados dos povos Guarani e Kaiowá atravessam o corpo, reorganizam o espírito e abrem caminhos entre mundos. É uma experiência sensorial única que recentemente se transformou em álbum musical “Shamans in Space”, com oito faixas, que está disponível nas plataformas de música e em cinco mil lojas de discos ao redor do mundo.
No centro desse processo estão as lideranças espirituais Guarani e Kaiowá, que assumem não apenas a participação, mas a direção do projeto. São eles e elas que definem os limites, orientam os caminhos e preservam a integridade dos cantos: rezas que não podem ser remixadas, nem alteradas, porque carregam em si a força de um conhecimento ancestral que sustenta a vida, a terra e as relações entre diferentes dimensões da existência.
Esse cuidado também atravessa toda a metodologia do projeto, construída ao longo de anos em diálogo com as comunidades. Segundo uma das pesquisadoras e coordenadora do projeto, Fabi Fernandes, o processo rompe com práticas comuns de exploração cultural.
“A gente fez questão de que tudo fosse construído com os anciãos, etapa por etapa. Eles são os diretores de tudo. Não é só colocar o nome deles como coautores, é garantir que a decisão final seja sempre deles. Isso muda completamente a forma de produzir arte e conhecimento”, diz Fabi Fernandes.
“Shamans in Space” é fruto do projeto internacional de pesquisa Sounding Futures, desenvolvido em parceria entre o UCL Multimedia Anthropology Lab (UCL MAL) sediado na University College London, o Instituto para o Desenvolvimento da Arte e da Cultura (IDAC) e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), reunindo arte, ciência e saberes ancestrais em um mesmo território de criação.
Ao lado dessas vozes, surge o rap indígena de Kelvin Mbaretê, membro fundador do Brô MC’s (primeiro grupo de rap indígena do Brasil) e embaixador do Prêmio Sim à Igualdade Racial – Multishow, que transforma a palavra em flecha, memória e futuro. Para ele, esse encontro não é apenas musical, é espiritual.
“A música deixa de ser só música. Ela vira reza, vira mensagem, vira cura. O rap sempre foi minha arma de luta, mas os cantos sagrados são a voz dos nossos ancestrais. Quando essas duas forças se encontram, tudo muda”,diz o rapper.
Ao Jornal Empoderado, o rapper Kelvin Mbaretê revelou que o projeto todo foi muito impactante e tem uma relevância dentro da arte musical.
“Espero que tenhamos mais oportunidades de deixar registrado nossas culturas para o mundo através desses projetos em formato de álbum musical e de formato audiovisuais. Acredito que mais oportunidades para mais um convite de algum projeto musical com algum artista gringo ou nacional. O processo foi de muita conversas e diálogos com as Nhandesy e Nhanderu, as nossas rezadeiras e rezadores, que acharam muito importante esse registro em áudio, porque preservariam as rezas no álbum. Foi inédito e excepcional’, contou Kelvin, que é neto de rezadeira.
Ao cantar em guarani, Kelvin reforça que a língua também é território. “A nossa língua é o nosso DNA. Mesmo quem não entende as palavras sente a energia. Ela vira ponte entre culturas. E mostra que a nossa língua pode viajar o mundo sem perder a raiz”, pontua.
Entre beats e maracás, sintetizadores e takuapus, o álbum constrói uma travessia. Cada faixa carrega uma cosmologia, um tempo próprio, uma relação com o invisível. Não se trata apenas de escutar, mas de sentir, de atravessar, de se deixar afetar.
O álbum conta com o trabalho do produtor britânico Martin “Youth” Glover, nome fundamental da música contemporânea que atualmente integra a banda de Paul McCartney, com uma trajetória que inclui a produção musical do último álbum do Pink Floyd e colaborações com Guns N’ Roses U2, The Verve, entre outros grandes nomes da música mundial. Ao longo de décadas, Youth vem explorando o som como experiência sensorial e transformadora, mas encontra, neste projeto, um aprofundamento.
“Sempre senti que o som tem um efeito de cura e regeneração. O que me interessa é criar uma espécie de alquimia xamânica entre todos os envolvidos. A música pode nos reconectar com nós mesmos, com a Terra e com o cosmos”, reflete o produtor Martin “Youth” Glover.
Para Youth, trabalhar com os rezadores Guarani e Kaiowá desloca completamente o processo criativo. “A ideia de transformar o estúdio em um espaço mais próximo de um ritual ou de uma cerimônia, onde tocamos juntos, guiados por essas tradições, é algo profundamente inspirador”, revela Glover.
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