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A Malandragem na Arte de Anitta.

Written by Max Mu

Na Favela tudo se mistura quer queiram, quer não; ausência de Estado com intervenções militares. Alegria e tristeza, cultura pop, e arte popular.

É na favela que um Brasil acontece; invisível ou visível, audível ou inaudível.

E é por causa da Favela que escreverei também sobre “Vai Malandra”.

Nos primórdios da humanidade, dançávamos para os deuses e deusas, dançávamos para sedução e acasalamento. Na atualidade continuamos dançando religiosamente e também para a sedução e acasalamento. Parece que ao dançar nossos DNA´s  e instintos continuam firmes e fortes; com a exceção que nem sempre acasalamos quando dançamos.

Quais danças não são sensuais? O Tango, o Samba, a Lambada, o Forró, a Dança do Ventre, o Axé? Será que a publicidade de chocolate também não usa corpos sensuais para vender produtos “obesidantes”? Estamos chocados com a sexualização ou com a Favela?

Dançar sem sensualidade, sem mimetizar o jogo da sedução ancestral raramente tem graça. Quase sempre a dança é prazer pessoal com fins de alguém nos admirar concomitantemente.

Ninguém dança sem bunda, e a bunda que dança hipnotiza desde os primórdios. Chacrinha não foi o primeiro, nem a Xuxa, nem a Tiazinha, nem a Carla Perez e a Anitta não será a ultima e nem acabará com a tradição das antecessoras formadoras das futuras gerações. Vamos lidar com a realidade, independente do nosso gosto.

 

ANITTA X MICHAEL JACKSON e CIDINHO E DOCA.

Acho que foi em 1996 que Michael Jackson, olhou para um policial, no clipe “Eles realmente não ligam para gente”; e apontou o dedo do meio com muita raiva, denunciado que os moradores do Morro da Santa Marta eram “comida para cachorro” de policiais, e que isso era um absurdo.

 

Protestava então Michael: “Diga-me o que aconteceu com os meus direitos
Eu sou invisível? Porque você me ignora
Sua proclamação me prometeu liberdade
Estou cansado de ser vítima da vergonha
Eles estão acabando com minha reputação”

michael

 

Ao som de Reggae do Olodum, Samba-Reggae, Hip Hop. Michael escolheu os gravíssimos índices de mortalidade do Brasil para palco de sua letra. No inicio do vídeo uma criança lamenta e berra: “Michael, eles não ligam para gente”.

Quase dez anos depois desse dedo do meio catártico para muitos brasileiros vem Anitta, para orgulho de Cidinho e Doca, que desejavam muito:

“Ser feliz e andar tranquilamente na favela onde eu nasci…,
E poder me orgulhar
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar….”

Michael é importante para eu pensar Anitta hoje. Ele deu ao vídeo-clipe um papel tão importante quanto a letra, a coreografia e o ritmo. Associou imagem e musica de uma forma tão intrínseca, inclusive para o seu marketing que mudou a forma de se fazer um hit no mundo, ninguém faz um hit sem um clipe.

Anitta é um potencial brasileiro importante para o cenário internacional, e também usa as imagens com impacto fulminante. Traz na tela a favela feliz, inclusiva, respeitosa e bonita. Transforma a favela num importante cartão postal do Brasil e não para por aí. Faz mais, muito mais.

Eu não sou o público de Anitta, não construí em meus hábitos e referencias esse repertório para dialogar com esse movimento artístico, porém, aqui estou dialogando também.

IMAGEM É TUDO…

Ela traz em imagens uma chuva de informações. Enquanto rebola, seduz, as imagens trazem muitas outras questões que não poderemos se esquivar nunca mais na produção cultural brasileira quiçá mundial.

Nessa geração @ do Instagram, tudo é imagem, e imagem diz tudo, a cada dia se lê menos, as dublagens aumentam e as legendas diminuem.

“Vai Malandra”, desonra com beleza a indústria da beleza; sem nenhuma palavra, ou texto político. Como o dedo do meio do Michael para a polícia, a celulite de Anitta traz paz ao sono de milhões de mulheres, creio do mundo. Catarse global.

Abre-se assim um vermelho num rebolado, que senta sobre uma placa, que ficou famosa por ser o número da lei contra o Funk. Não encontrei essa lei com esse número, mas muitas leis que tentam censurar e criminalizar o funk. A única simetria dos projetos de lei é que todos são de parlamentares adversários de qualquer coisa que lembre uma bandeira vermelha. E nasce uma duvida, a opção da cor vermelha no clipe é casual ou proposital. Para provocar excitação apenas, ou também provocar conservadores contra o funk?

Sensualizando com respeito e dançando nas lajes da favela entre mulheres maravilhosas do Vidigal, onde não nasceu Larissa. Larissa de Macedo nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro. Classe média baixa. Anitta nasceu nos morros, no Funk.

Existindo ou não uma lei 1279, verificamos mais uma vez que não é a sensualidade que incomoda, mas o preconceito e o racismo das produções que nascem nas favelas e periferias.

Conhecendo e reconhecendo esse universo discriminatório; dos dois lados, por Anitta e Larissa; faz algum sentido pensar que ante as divisões de opiniões tão fortes, preconceitos tão arraigados a direção de fotografia optou pelo vermelho para abrir os planos e guiar a câmera; e o verde e amarelo num segundo plano SEMPRE.

COINCIDÊNCIA DAS IMAGENS, MENSAGENS SUBLIMINARES OU UMA DIRETA

NO QUEIXO DE QUEM QUER PROIBIR O FUNK?

Uma pomba branca cruza o céu, uma bandeira evangélica esteada na janela, e uma galinha anda pela laje. Três elementos marcantes para o debate da tolerância religiosa e pela paz. É atoa que estão ali, alinhados?

anitta ecumenica

Numa mesa de sinuca a bola vermelha, a bola branca  bate em outra vermelha, sobre o pano verde outras bolas amarelas estão espalhadas. Unhas, jaquetas, brincos, bonés e sunga vermelha deixam a curiosidade no ar. Porquê todo corte é no vermelho, por excitação ou mensagem subliminar?.

anitta cortes em vermelho

 

Como sempre a tecnologia criativa resolve a piscina, como fazer a marquinha perfeita do bronzeamento na laje, por um preço mais módico do que nas clinicas de bronzeamento artificial do asfalto. Sol, fita isolante e a caçamba de um caminhão, e ninguém precisa descer para Copacabana, ou será que precisa? São bem recentes as tentativas de impedir a comunidade de ir até a praia.

Anitta faz algo incomum, usa o capacete no “moto-táxi”. Sabemos que muita gente na comunidade não faz uso do capacete. Educativo?

Anitta faz algo que nem Michael, nem Cidinho e Doca fizeram. Não fala de favela, nem da violência, não fala de tristeza. O clipe não tem armas, nem crianças tristes, nem top model, nem efeitos especiais; é só funk, com Rap, Pop e muita gente conectada. Com gente bela e bonita andando pela favela em que nasceram e só querem ser feliz. Em imagem diz o não dito; grita o inaudível, e o que era só funk e  bunda põe algumas cabeças para pensar. Se é que algum dia foi só bunda o funk.

LUTA DE CLASSES:

A favela que por séculos não era vista nas novelas, a favela alvo da caridade e misericórdia, símbolo só de violência que jamais se igualaria a ´nobreza´ dos asfaltos, agora,  já não é bem assim, passa a ser muito mais interessante e protagonista nessa história de 100 milhões de visualizações.

As classes média e alta pela primeira vez serão obrigadas a serem vistas internacionalmente com essa imagem, um belo cartão postal, a favela. Que para alguns deles constitui um arquétipo repulsivo ou repugnante identitário. Lutaram a vida toda para se constituir como um “não favelado” mesmo hora fazendo caridades, os mais corajosos.

É comum batermos no peito e dizer somos um país miscigenado, de três ou quatro raças e etc. Mas é incomodo ir fazer compras em Miami e receber olhares de “Vai Malandra”. Ela poderia ficar cantando em espanhol no Chile… Agora que já é… Mas… Se…

É aí que mora o racismo velado, e fala mais alto o preconceito, a indigestão de tal representação e a negação da construção do distanciamento dessas pessoas começa a gritar. Revelando o racismo indizível e toda nossa estrutura de segregação.

Tá suave se divertir na favela, “Não vamos parar, você vai aguentar!” Na favela as pessoas vão se divertir e brincar com o bumbum sim!

E em homenagem a Cidinho e Doca, acabou a era em que:

“…Diversão hoje em dia, nem pensar
Pois até lá nos bailes, eles vem nos humilhar
Fica lá na praça que era tudo tão normal
Agora virou moda a violência no local
Pessoas inocentes que não tem nada a ver
Estão perdendo hoje o seu direito de viver
Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela…”

Não, não acabou toda essa era, só em parte. Os bailes ainda incomodam e muito, muita gente, mas o clipe é alvissareiro em marcar os valores culturais, sociais, inclusivos e monetários. E por essa manifestação artística com foco internacional, agora virou Cartão Postal em 2018 não há como voltar atrás, logo serão 200 milhões de visualizações e Anitta número 1 nas paradas de sucesso.

É uma felicidade quando as pessoas ascendem socialmente, seja pela medicina, pelo direito, pela engenharia, pela arte ou futebol. Mas uma tristeza quando essas pessoas raramente reconhecem o patrimônio imaterial que lhe forjou e não fazem uma devolução a sua comunidade de origem. Muitas vezes mudam de lado, e nem se manifestam política, ou economicamente a favor da comunidade. E ficam no exterior, ou virado para o exterior latindo o complexo de vira-lata.

Foi uma boa estratégia se tornar mainstream contra o vira-latismo mediano, e assinar o desfecho ‘favelando’.

Agora o Brasil terá cada dia menos efeito na discriminação do Funk, ao despir-se do monstro da celulite, Anitta que não esqueceu Anitta, temos um novo olhar para a favela e sua música. O respeito aos poucos poderá ir aumentando.

Anitta, driblou o vira-latismo da classe média e outros segmentos sociais. Com inteligência, se respaldou internacionalmente, mostrou que faz musica sim, que dança, canta em três línguas e é eclética na arte.

“Vai Malandra”, diz ao encerrar uma estratégia de marketing transparente que: ‘ eu não sou só uma favelada rebolando; sou favelada (mesmo não sendo), e tudo bem. Que pena que você não entendeu. Eu vou brincar com meu bumbum; não porque sou limitada, mas porque eu quero. Sou artista e canto o que eu escolher dançar’. Com parcerias de inúmeros artistas nacionais e internacionais, Check Mate dá um “pum” nos preconceitos que poderiam limitar como mais uma funkeira em território nacional. A favela e a celulite saem desse clipe de alma lavada. O preconceito, a hipocrisia, e o recalque saem com a consciência rachada.

Anitta; deixa a favela sozinha, vestida e no salto alto.

salto de anitta

 

Para nunca mais voltar? Ou foi só um beijinho no ombro das recatadas?

Foi mais branca no inicio e mais negra no final. Se fez como Rainha Esther; não sabemos. Negra ou branca, “afro-conveniência” ou pura alienação ela  andou em todos os espaços.

 

anitta vestida

Ela deu uma aula a todo povo Brasileiro. Planejar, ter estratégia e objetivo com transparência é necessário.

A maioria dos nossos artistas globais são uma mistura de esforço, talento e vocação com fatos e circunstanciais favoráveis que foram os levando até o topo. Raramente se vê uma artista, ou empreendedor desenhar publicamente sua carreira para o top 10.

 

 

VALE A PENA REFLETIR SOBRE ESSE CLIPE?

Quanta intelectualidade sobre o clipe. Ele não diz nada disso é só baixaria. Talvez, talvez diga, talvez não; talvez diga ainda mais coisas, que os “coxinhas” por lá só valem R$ 3,50 se vier com o refresco! E será que sabem ou estão preocupados com o que seria um “coxinha”?

coxinha 3

A livre interpretação de uma expressão artística e a possibilidade das múltiplas interpretações é requisito primordial da arte. A malandra fez arte, uma bela arte. E eu que não sou fã, já quero ver o que virá depois. Agradou e incomodou, mexeu com certos símbolos e aspectos culturais tectônicos, tirando os brasileiros da zona de conforto e lançando-se ao seu objetivo pessoal.

Um clipe feminista dirigido por um abusador. Anitta casada com um agressor. Desnudando a celulite e mostrando a favela toda sem maquiagem, mas com cuidado. Toda contradição e confusão das celebridades in loco; útil para gerar mais assunto, views, polêmica e ficar mais famosa. Quer queiram, quer não é na favela onde tudo se mistura, paz, amor e violência brutal.

Politizar o clipe é tão exagerado quanto desprezar seus potenciais signos socioculturais em check. Independente da intenção dos artistas a retina capta e o corpo sente e a cabeça pensa mil coisas para cada informação impressa.

Há mais liberdade em ser; sem ser, do que ser obrigada a ser: feminista, revolucionária, militante, politizada e organizada politica e ideologicamente.

“Há mais liberdade em ser; sem ser.

Do que ser, sendo obrigada a ser.”

Tenho certeza que o Natal no Vidigal foi com seus milhões de visualizações pelo mundo além do Jingle Bel, e teve bastante Swing com alegria e uma nova autoestima na comunidade.

Agora Anitta é a primeira brasileira e a mais nova em diversas plataformas digitais, em algumas é a latina mais escutada. Virou indispensável, é esperada e desejada por muitos. Para onde ela irá agora? Será Preta ou branca. Apoiará mesmo o Funk e a Favela? Ou tudo isso era apenas a cereja de uma estratégia egoísta? Quem será Anitta? Será de fato o sucesso do Carnaval? Terá mais de 400 mi views?

Os fãs e os críticos com certeza lhe garantiram pelo menos 70 milhões de visualizações no próximo clipe.  Eu espero me surpreender com uma Anitta que ascenda em sua carreira e leve com ela,  eleve a comunidade da melhor forma possível. Nem só de MPB viverá o Brasil.

 

CONSOLANDO AS CLASSES CONSTRANGIDAS

PELA ALTERIDADE FERIDA.

Sim, o Brasil não é só Copacabana, Av. Paulista e Claudia Leite. Brasil sequer é tão branco como lhe convém, convinha. Brasil é Anitta, é favela, e você precisará lidar com isso.

Porém, não é só Anitta. É Luedji Luna; é Xênia, é Serena Assunção é Renato Gama, Salloma Sallomão entre outras dezenas de pérolas da música brasileira. Brasil é Nadia Ayad, cientista premiada em 2018 internacionalmente pelo projeto de dessalinização da água com grafeno, para matar a sede de quem não tem água nem para beber.  Você reconhece esse Brasil com jornadas de décadas na arte e na ciência?

Por qual Brasil você anda? Aquele que revela o racismo ou o que vela? Será que você só pensa em outro Brasil quando Anitta´s, viram POPSTAR e te constrange.   Para sua alteridade melhorar tem muito Brasil além de Anitta mas é preciso sair do espelho bolha; ou, fazer algo para findar as favelas no Brasil sem ser matando-as de bala e de fome por decisão ou omissão.

beijos no ombro…

 

 

Sobre o Autor

Max Mu

Max Mu, Produtor Cultural, Pedagogo e Escritor.

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