Hoje, o papo é com uma professora e pesquisadora que se dedica a estudar a realidade dos imigrantes africanos
Em um país marcado pela seletividade da empatia e pelo apagamento histórico de populações racializadas, a pesquisa também é uma forma de resistência. A professora Ana Sandra Leviz Cruz transforma suas vivências em combustível para questionar estruturas coloniais que seguem operando na vida de imigrantes africanos no Brasil. “O pesquisador faz justamente isso: pesquisa a sua dor”, afirma Ana, que viveu por sete anos na Espanha como imigrante e hoje se dedica a investigar as feridas abertas da diáspora africana. Nesta entrevista, ela compartilha sua trajetória, reflexões sobre racismo e a importância do intercâmbio acadêmico entre Brasil e Angola como prática concreta de enfrentamento às desigualdades.
JE – Qual curso e mestrado você faz e como escolheu essa carreira?
Sou formada em Letras, pós-graduada em Negócios e trabalho na Faria Lima. Escolhi pesquisar a situação dos imigrantes porque o pesquisador faz justamente isso: pesquisa a sua dor. Fui imigrante na Espanha de 2007 a 2014 e muitas dores dessa época não haviam sido tratadas devidamente.
Sou mestranda pelo programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Este programa adota política de ações afirmativas dirigidas exclusivamente a candidatos/as autodeclarados/as negros/as, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência, pessoas trans e pessoas em situação de refúgio, apátridas e portadoras de visto humanitário que desejarem optar por participar da política de ações afirmativas, alternando a cada ano entre 50% e 80% a reserva de vagas. Ainda em 2025 devo defender minha dissertação, que analisa tendências apontadas por imigrantes africanos que moram em São Paulo e no Rio de Janeiro, dentre os quais a maioria é de origem angolana.
JE – Como nasceu a pesquisa com imigrantes?
Submeti um pré-projeto para admissão no programa como cotista, meu texto falava sobre o assassinato a pauladas do congolês Moïse Kabagambe na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro ao tentar receber seu salário, e a atmosfera de impunidade em relação à violência brutal contra os imigrantes negros.Neste pré-projeto, demonstrei minha intenção em entrevistar africanos para compreender a visão que possuem da experiência no Brasil e traçar tendênciase fui admitida pelo meu orientador, o Prof. Dr. Paulo Daniel Elias Farah, da Universidade de São Paulo – DLO/FFLCH/USP.
Com décadas dedicadas à causa da migração na academia e prática social, o professor Paulo entre muitas áreas de atuação é Coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa Brasil África/USP e presidente da Bibli-ASPA: centro de pesquisa e cultura criado com o objetivo de promover a reflexão crítica por meio da pesquisa, produção e difusão sobre os povos árabes, africanos e sul-americanos. Sua trajetória sempre me inspirou, e ter a oportunidade de trabalhar diretamente com ele foi um dos meus maiores motivadores para aplicar ao programa.
Esta admissão representa para mim uma porta aberta para o desenvolvimento de um trabalho acadêmico sólido e relevante, que pretende contribuir para a compreensão das histórias e culturas africanas, bem como seus desdobramentos na diáspora atual. A forma como o professor nos orienta, promovendo trocas demonstra a inclusãona prática, multiplicando seu conhecimento e dando oportunidades a pessoas que como eu, que não havia tido oportunidades de me desenvolver como pesquisadora.

A primeira disciplina que cursei na pós-graduação USP foi com o Prof. Dr. Valdir Heitor Barzotto. Na aula deletive como colegas alguns africanosque cursam doutoradoe eles me acolheram, me apresentaram para outros estudantes que posteriormente passaram a responder às minhas entrevistas. Já nesta ocasião o professor Barzotto notou a relevância da minha pesquisa para uma participação em Angola.
JE – Como foi a experiência de ter ido para Angola, em Sumbe?
Estar na Angola pela primeira vez trouxe muito aprendizado, desejo essa experiência transformadora a todas as pessoas! Perceber como é diferente a luz do sol lá, junto aos aromas de lenha e dendê me fez sentir aconchego logo ao chegar. Desembarcamos em Luanda em 31/05/2025, uma equipe formada por docentes de diversas universidades públicas brasileiras, na foto abaixo só faltou a presidente deste seminário, a Prof. Dra. Anelize Queiroz Amaral, que estava a caminho.

Fomos recebidas pelo Prof. Dr. Augusto Fazenda, presidente do ISCED – Instituto Superior de Ciências da Educação do Cuanza Sul, que nos levou para conhecer algumas regiões de Angola, como Kilamba e o Museu da Escravatura. Por onde passávamos, as pessoas demonstravam simpatia e interesse em saber o motivo da nossa presença por ali, e, ao saberem da missão educacional, nos parabenizavam e incentivavam.



Já em Sumbe, aproveitamos os poucos momentos livres para conhecer um pouco da cidade e nos misturar com os locais, que identificavam nosso sotaque e perguntavam e qual região do Brasil éramos.
Na foto abaixo, o Mercado Matabicho – uma feira que vende desde comida a roupas de alfaiataria.


JE – Quem foi o professor que inspirou o nome do prêmio e do evento? Qual a importância dele na sua formação?
Valdir Heitor Barzotto é professor titular da Faculdade de Educação da USP-FEUSP, atua no Programa de Pós-Graduação em Educação da FEUSP e no de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa da FFLCH/USP. Entre outras atividades administrativas exercidas, foi presidente da Comissão de Cooperação Nacional e Internacional – CCInt da FEUSP de 2014 a 2018 e hoje é vice-diretor da FEUSP.
Em 2013, foi para Angola pela primeira vez, quando começou a incentivar projetos de cooperação entre universidades do Brasil e de Angola, iniciados em 2012. Dentre as atividades desenvolvidas, gostaríamos de destacar que o Prof. Barzotto integrou a equipe que colaborou com o mestrado em Educação na Universidade Luegi A’Nkonde, coordenado pelo saudoso Prof. Roberto da Silva, e a equipe que escreveu e implementou o doutorado em Educação no ISCED-Sumbe, financiado pela União Europeia.
Colaborou com diversas atividades na ESPBengo, entre as quais a III Conferência Internacional de Extensão Universitária, em Angola, com o tema “Extensão universitária face às catástrofes naturais e sociais do nosso tempo” e o lema “Por uma extensão universitária virada à mitigação dos impactos das catástrofes naturais e sociais”. Em 13 de maio de 2021, proferiu a conferência final com o título A cooperação internacional por meio da extensão universitária, ao cabo da qual houve entendimento entre as instituições representadas no evento para firmarem um acordo de cooperação, com vistas à criação da Rede Internacional de Extensão Universitária (RIEU), sob a coordenação da Profa. Suraya Novais Shimano, da UFTM.
A RIEU vem colaborando na organização do Seminário Socioambiental Angola – Brasil: Educação, Meio Ambiente, Saúde e Tecnologias, que se alterna anualmente entre os países (Angola e Brasil), sob a coordenação da Profa. Dra. Anelize Queiroz Amaral, da UTFPR.
Em 2025, realizou-se em paralelo o I Congresso da Rede Internacional de Extensão Universitária – I CRIEU, com o tema: Desafios e Perspectivas da Internacionalização na Extensão.
Em reconhecimento à trajetória do professor Barzotto, que tem longo histórico de colaboração com Angola, entre outros países da África, e é um aliado da causa antirracista em sua prática educacional, bem como por seu empenho na extensão internacional, foi criado o Prêmio Valdir Heitor Barzotto de Extensão Universitária.
Na I edição do congresso da RIEU, inscreveram-se trabalhos resultantes de projetos de extensão universitária, que foram apresentados a uma banca de docentes angolanos e brasileiros. Os três primeiros colocados serão publicados em revistas científicas. Jeremias Ernesto Panguila, estudante do ISCED-Sumbe, recebeu o prêmio de primeiro lugar com o artigo “Extensão Universitária no âmbito da Educação Ambiental para Escolas de Ensino Geral no Cuanza Sul – Angola”.

JE – Quais diferenças você percebe entre a experiência do povo negro no Brasil e em Angola, especialmente em relação ao racismo?
Uma das ações que tive no seminário foi apresentar uma oficina que mostrava uma linha do tempo do racismo no Brasil e propunha uma discussão entre os angolanos para construirmos uma análise da situação no país. Eles participaram muito e trouxeram exemplos de como a cor da pele mais clara implica em privilégios, mesmo quando 99% da população é retinta.
O imigrante africano, de forma geral, descobre, quando chega ao Brasil, que é indesejado, e isso é uma surpresa para eles, já que em seus países de origem costumam ser receptivos com os imigrantes. Essa é uma tendência apontada pelo estudo de estado da arte que realizei analisando mais de 100 dissertações e teses dos últimos 10 anos. Esse imigrante africano, incluindo o angolano – que é muito questionador –, se cala e, se necessário for, acaba abrindo mão de direitos para “evitar problemas”, já que não se sente seguro para denunciar crimes ou abusos.

Eles apontam que há brasileiros (até mesmo os negros) que tentam levar vantagem sobre eles, devido à consciência de que o imigrante é vulnerável, e isso os faz ficar mais reservados entre seus conterrâneos, apesar de relatarem ter alguns amigos brasileiros confiáveis.
Já o negro brasileiro tem sido atravessado por discussões sobre o racismo há muito tempo. Como resultado desses debates e reflexões, várias ações afirmativas – como, por exemplo, a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena no currículo escolar – foram implementadas durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por meio da Lei nº 10.639/2003 e da Lei nº 11.645/2008, o que traz mais confiança para que o negro nacional se posicione mais e tente se defender diante dos abusos.




Revisão e edição: Brenda Evaristo.










