Da negação à investida racista
Por Adriano Viaro
Quando se fala em racismo no Brasil, o problema já começa pela reação dos interlocutores. Grosso modo, os narizes torcidos remetem o início da conversa para um terreno de dificuldades. Independentemente de estarmos abordando o assunto para pessoas racistas ou não, a pauta incomoda, pois ninguém quer, por livre vontade, pisar em solo minado. Semblantes mudam, respirações denunciam o impacto e a inquietude dita o ritmo, sempre com tentativas de mudar de assunto. Essa postura, ou melhor, reação, revela apenas e tão somente o quão mal resolvida permanece a questão étnico-racial pós-escravidão.
Intelectuais, sobretudo marxistas, olham o 13 de maio de 1888 pela relevância da revolução em si. Ou seja, a abolição é inegavelmente a única revolução social efetivamente vencedora: não houve um processo legal de reescravização. Porém, quando saímos do hermetismo acadêmico e adentramos às dificuldades sociais de convivência, é possível observar que jamais se teve uma aceitação ou inclusão dos descendentes de escravizados em nosso tecido social. Sempre estiveram e continuam à margem do preconceito e da desconfiança.
São como pessoas miseráveis ou empobrecidas que, quando alcançam o direito de vestir, o fazem com doações de roupas usadas de parentes menos pobres ou ricos. Ou seja, é o resto. É a sobra. Evidente que a analogia aqui utilizada não possui dimensão adequada, mas é escolhida para chocar com didatismo de longo alcance. A sociedade brasileira não discute racismo porque não quer discuti-lo. Grosso modo, pessoas brancas sempre possuem algum tipo de vantagem em relação aos negros. Mesmo brancos pobres, em comparação com pretos de mesma condição econômica, ganham vantagens, tendo a cor da pele como critério de desempate. Ou seja, o racismo assola, macula e marca em todos os recortes da sociedade.
Outro ponto importante está na dificuldade, ou má vontade, de certos intelectuais acerca dos tipos de manifestação racista. Trata-se de uma movimentação de redução das tipologias e dos demarcadores de manifestações racistas. Ou seja, é mais confortável para racistas que o racismo seja reduzido apenas para casos em que a pessoa preta é ofendida ou agredida por conta da cor de sua pele.
Não é por acaso que a deputada Caroline De Toni apresentou, em 2025, proposta para não considerar racismo tudo o que tiver natureza humorística. A retirada do “racismo recreativo” é apenas a porta de entrada para que todas as manifestações racistas de ordem cultural, atávica e simbólica não sejam consideradas como racismo propriamente dito. É o que chamei no meu livro Complexo de Princesa Isabel de “anti-antirracismo”. Precisamos não só ficar atentos a tais movimentações como exigir que os retrocessos sejam impedidos imediatamente.









