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Religião e política nas periferias: entre a falta de confiança e a fé como esperança

Levantamento aponta maior confiança nas igrejas do que nos partidos, enquanto ausência do Estado nas periferias fortalece a fé como rede de apoio — e também como influência política

Por Guilherme Hofer, Hugo Boff e Lívia Falbo

O Instituto Quaest publicou, em setembro de 2025, uma pesquisa na qual os indivíduos afirmavam confiar mais em suas igrejas do que em partidos políticos. De acordo com os dados, 73% e 65% dos entrevistados acreditavam, respectivamente, nas igrejas católica e evangélica. Quando questionados sobre a crença nos partidos políticos, o número caiu para 36%. Isso indica que a fé religiosa pode preencher o vazio deixado pela falta de esperança em relação ao futuro político do país. 

Nas periferias, é comum que os candidatos para cargos políticos apareçam apenas nos períodos eleitorais. Ao longo do mandato, no momento de colocar as promessas na prática, as necessidades da comunidade são frequentemente ignoradas. Tal desrespeito estimula a desistência de participação ativa em assuntos políticos por parte da população, que passa a depositar a fé e a esperança na religiosidade. Em entrevista ao Central Periférica, o historiador e professor Jonathan Portela afirma que existe uma “crise de representação política na periferia”, motivo pelo qual “a igreja recompõe os lugares nos quais o Estado fica ausente”.

Esse cenário pode ser percebido em meio aos discursos apontados por Gustavo Dantas, morador da comunidade São Remo, zona oeste de São Paulo: “Nunca vejo eles aqui fora da época de eleição”, e por Albert Moura, pastor da Igreja Metodista Livre da São Remo, que afirma: “Eu nunca vi. Nem de esquerda, nem direita alguém que aparecesse e desse as caras fora do período de eleição”. Diante dessa ausência de figuras ligadas ao Estado nas comunidades, a confiança dos moradores na política encontra-se abalada.

Assim, a religião, ao se fazer mais presente do que os políticos nas situações de maior precariedade, conquista diversos fiéis. Jonathan Portela, em sua fala, revela essa organização: “A religião ocupa certa política de proximidade, porque é ela que vai escutar, na prática, as dores dessas pessoas”, o que mostra a união entre presença e credibilidade. Entretanto, essa aproximação apresenta-se como perigosa em diversas ocasiões. Segundo o historiador, quando a mediação religiosa se converte em capital eleitoral, essa dor da periferia transforma-se em uma base conservadora. Vivendo sob tais lacunas deixadas pelo Estado, Gustavo afirma: “Por aqui muitas vezes é nós por nós mesmos”, ressaltando o apoio nos arranjos locais em situações de esgotamento da crença no poder público.

Contudo, diante desse relato, certo risco também é apontado pelo professor. Ele afirma que problemas estruturais, como as desigualdades, muitas vezes são vistos de modo individual por certas vertentes religiosas. Tal interpretação, ao organizar moralmente as problemáticas sociais, foca no mérito próprio, de modo que os indivíduos deixem de reivindicar seus direitos e passem a trabalhar em busca da vitória pessoal.

O padre Kelder Brandão, que atua no bairro Itararé, em Vitória, ressaltou, em entrevista realizada pela Central Periférica, que a Igreja não pode se vincular a nenhuma ideologia político-partidária. Porém, na prática, conclui-se que em momentos de decisões políticas os indivíduos levam em consideração a igreja e os valores por ela disseminados. Isso pode ser percebido, por exemplo, nas ocasiões em que candidatos políticos utilizam títulos eclesiásticos, como “padre” ou “pastor”, para aumentar a quantidade de votos a seu favor.

Para o pastor Albert Moura, o uso desses rótulos eclesiásticos como estratégia para atrair mais apoiadores rompe a separação que ele acredita que deve ser feita entre o papel do cidadão e a sua crença religiosa. No entanto, em um país no qual a política e a religião nasceram e cresceram juntas, desde a Constituição de 1824, que declarava o catolicismo religião oficial, até a expansão evangélica, representada pela criação da Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2003, a separação definitiva desses campos deve ser entendida como uma missão, no mínimo, complicada.

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