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Cultura do espetáculo e Mounjaro

Tramita na Câmara dos Deputados um projeto do deputado federal Mario Heringer (PDT-MG) que propõe encerrar a patente do Mounjaro, com vencimento em 2032. A febre nas redes sociais resulta no uso das canetas emagrecedoras dos três princípios ativos disponíveis no mercado (liraglutida, semaglutida e tirzepatida), como se fossem um suplemento fitness, cosmético, um shake detox na prateleira. Normalizam e banalizam. Em meio aos devotos, é importante frisar que o Mounjaro não é remédio para emagrecer com fins estéticos, e sim ferramenta moderna e eficaz no controle da obesidade e do diabetes tipo 2.

O corpo gordo e obeso persiste como pauta nas rodas de conversa, frente à arara de roupas, curtindo a piscina/praia, ou mesmo em uma consulta médica onde o resultado vai ser sempre o mesmo: “Você precisa perder peso”. E os comentários permanecem travestidos de “preocupação com a saúde”. O padrão magro ou fit tornou-se a “pedra de toque” e o Mounjaro, para muitos, é o atalho.

As picadas semanais são moedas de troca, e os futuros medicamentos orais, para quem tem aversão à injeção, são “balas de prata”, um prêmio de estilo de vida para um público endereçável. É neste momento que o corpo deixa de ser casa e vira prova, colocando em xeque o corpo magro, a cultura da lipofobia, o corpo gordo (acima do peso – IMC a partir de 25) e o obeso (IMC acima de 30).

Amo espelhos, mas não desses que apenas devolvem a imagem. E sim, dos que marcam encontros entre eu e ele, um corpo que pensa a partir de si e que existe sem pedir licença. No mês da mulher e da luta contra a obesidade e a gordofobia, leio Tornar-se juntas, gordas de Nélane Simioni, Fome de Roxane Gay, Preciosa de Sapphire, Porca Gorda de Jéssica Balbino e Permanecer bárbaro: não brancos contra o império de Louisa Yousfi. O ato de ler e poder escrever é uma travessia.

Inspirada por Roxane, faço uma autoanálise e exponho minhas camadas. O gatilho para a minha obesidade foi o luto profundo e silencioso pelas minhas filhas. A gestação já não existia, mas a manutenção da barriga saliente validava a existência delas, a Larissa e Raissa. Inúmeras foram as vezes que recorri a dietas, clínicas de estética e academias. Emagreci, engordei, sobrevivi. Presa num looping traumático a cada questionamento de como meu corpo se transformou. Nunca fui magra, mas tornei-me obesa.

“Todo corpo tem uma história e um histórico”, é assim que Roxane começa seu livro e encerra meu luto. 20 anos depois, sou uma mulher que ocupa espaço, presa num sufocamento inesperado, na “cultura do espetáculo” do “antes e depois” do Mounjaro. A solução mágica está sendo vendida e enfiada goela abaixo. Mas nem tudo o que está na rede é verdade, afinal, a felicidade não é magra.

Sem meios-termos, nem toda pessoa gorda é obesa; tratar a obesidade não é o mesmo que perseguir um corpo magro por razões estéticas. O livro Fome não é sobre uma disciplina cega, uma conquista rasa, uma fábula de superação. É o testemunho de uma mulher tentando ser exatamente aquilo que deseja ser. Somos mais do que volume corporal, somos territórios.

Entre um comentário aqui, um conceito errado ali, uma opinião esquisita acolá, o patrulhamento do consumo da comida persiste. Afinal, “só é gordo quem não tem dinheiro para comprar Mounjaro”, será? Os pensamentos repetitivos sobre o que comer, vontade de beliscar, lembranças de sabores e a dificuldade de desligar o cérebro da ideia de comer corroboram com a dificuldade de distinguir a fome real da emocional, dos traumas. No século XIX, definida pela palavra do vernáculo germânico kummerspeck, que queria dizer “gordo de tristeza”.

Os algoritmos impõem padrões inatingíveis ou atingíveis apenas com medicamentos, procedimentos e intervenções externas. No processo, ignoram as narrativas que dão holofote à comida como uma possibilidade, senão de defesa, pelo menos de resguardo. Se olharmos pelo retrovisor, não conheço mulheres satisfeitas plenamente com seus corpos, independentemente de quanto pesam. Pelo contrário, a magreza não é sinônimo de felicidade.

Estou tentada a fazer um trocadilho sobre a caneta que vos escreve este texto, não pelo impacto da frase “Ser gorda é uma escolha” ou pelo medo de ser a última mulher gorda do mundo, ou passar constantemente pelo crivo do olhar do outro, como se meu corpo fosse público e coubesse a qualquer pessoa o direito de opinar e regulá-lo. Mesmo quando não há qualquer pedido de análise, é exaustivo, ou de qualquer corpo gordo/obeso. Reitero o meu desejo de emagrecer, de morar em outro corpo diante das atuais limitações.

Enquanto os quilos somem das balanças alheias e os comentários questionam o “depois”, recorro a Yousfi. Ela insiste que o bárbaro, mesmo educado, disciplinado e polido, seguirá sendo tratado como paródia, animal domesticado, nunca igual. Balbino, por sua vez, afirma que o corpo gordo/obeso vive a mesma farsa. Podemos emagrecer, investir em dietas, injetar canetas milagrosas e, ainda assim, seremos lidos como fracasso moral, suspeitos de preguiça e gula.

A obesidade é vista ou “malvista” como epidemia ou pandemia do século XXI, uma bomba-relógio para a saúde pública. A nova edição da pesquisa Vigitel revela que 64% dos brasileiros estão acima do peso e mais de um quarto é clinicamente obeso. Segundo a atualização mais recente nas diretrizes internacionais de saúde para 2025/2026, o diagnóstico da obesidade vai além do valor do IMC; inclui a composição corporal, circunferência abdominal, distribuição de gordura corporal e presença de comorbidades associadas e possíveis limitações físicas.

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