Uma jornada pela fotografia negra baiana
SÃO PAULO – O Instituto Moreira Salles (IMS Paulista) abriu suas portas nesta sexta-feira (27/03) para celebrar a trajetória de Lázaro Roberto dos Santos, expoente fotógrafo e arte-educador, conhecido como “LENTE NEGRA”. Nascido em 1958, em Salvador, o fotógrafo traz à capital paulista um recorte potente de sua obra, que documenta há décadas a pulsação da cultura afro-baiana. O evento contou com a cobertura fotográfica de Ina Henrique.
Raízes e Resistência do “Lente Negra“
A história de Lázaro é um reflexo da luta de tantos brasileiros. Filho de uma lavadeira e de um estivador, e vindo de uma família de doze irmãos, o artista mantém o vínculo com suas origens: até hoje, vive na mesma casa onde nasceu, no bairro de Fazenda Grande do Retiro, em Salvador.
A Fotografia como Ativismo
No final dos anos 70, a trajetória de Lázaro cruzou-se com o Movimento Negro Unificado (MNU). Imerso em um efervescente cenário de militância e cultura ao lado de nomes como Jônatas Conceição, Lino de Almeida, Jorge Conceição e Jorge Watusi, ele encontrou na intersecção entre o teatro, a fotografia e o movimento social a sua verdadeira vocação.
Dessa fusão, nasceu o fotógrafo-atleta da memória, dedicado a registrar a estética e a resistência do povo negro.
O Acervo Zumví e o Legado Digital
Hoje, Lázaro Roberto é o guardião de um tesouro histórico da memória negra. Ao lado dos amigos Ademar Marques e Raimundo Monteiro, fundou o coletivo de fotógrafos negros que deu origem ao Zumví Arquivo Fotográfico, cujo acervo analógico conta com mais de 30 mil imagens que catalogam as diversas faces do universo afro-brasileiro. Através do Zumví, o fotógrafo compartilha conhecimento em cursos e oficinas, garantindo que novas gerações acessem essa memória visual.
A trajetória de Lázaro é marcada por registros fundamentais, como o cotidiano do trabalhador negro nas feiras de Água de Meninos e São Joaquim — série que circulou em Recife (PE) ainda em 1995. Ao longo dos anos, ele consolidou seu papel como documentarista das marchas contra a intolerância religiosa em Salvador e das resistências pretas, culminando na exposição Memórias de Resistências Negras (Mafro-BA, 2018), que ganhou versão digital em 2021.
Sua arte rompeu fronteiras regionais, participando de grandes festivais como o Valongo (SP, 2018), o Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre (2019) e o Festival Transatlântico de Fotografia (Salvador, 2019). Em 2021, celebrou as três décadas do Zumví com um catálogo comemorativo e um impactante video mapping com fotos da visita histórica de Nelson Mandela a Salvador.
Recentemente, Lázaro marcou presença em exposições de relevância nacional, como a dedicada a Carolina Maria de Jesus (IMS, 2021), Um Defeito de Cor (MAR, 2022) e Dos Brasis (Sesc Belenzinho, 2023). O reconhecimento de seu trabalho com o Acervo Zumví alcançou o ápice com a seleção para a 35ª Bienal de Arte de São Paulo, reafirmando seu lugar como um dos maiores cronistas visuais do Brasil.
Temáticas em Exposição
Após décadas documentando o território baiano, Lázaro Roberto consolida sua importância na fotografia nacional, ocupando um dos principais espaços culturais de São Paulo para mostrar que seu talento é, acima de tudo, um ato de preservação histórica.
A exposição, que abriu as portas ao público às 10h, destaca registros marcantes, como a cestaria no Quilombo da Maré, o cotidiano dos cordeiros no Carnaval de Salvador e a vivacidade da Feira de São Joaquim.
Para aprofundar a reflexão sobre as obras, o evento contou com uma roda de conversa às 11h, reunindo Lázaro Roberto e José Carlos Ferreira. O debate teve a mediação de Hélio Menezes, proporcionando ao público um mergulho detalhado no processo criativo e na importância histórica do acervo Zumví para a fotografia nacional.
Fotos: Ina Henrique

















