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Redpill e a onda crescente de feminicídios: quando o ódio gera views

Imagem com zoom de uma mão segurando uma pílula de cor vermelha

Recorde histórico de feminicídios no Brasil acompanha aumento de misoginia e discurso de ódio contra mulheres nas redes sociais Foto: Geoffrey Fairchild/Flickr

Em 2025, o Brasil registrou 1.518 vítimas de feminicídio. O número recorde — equivalente à média de quatro mulheres assassinadas por dia — foi contabilizado justamente no ano em que a Lei do Feminicídio completou 10 anos de vigência.

Nas últimas semanas, casos de violência extrema contra mulheres voltaram a ganhar destaque em todo o país. Entre os episódios noticiados estão feminicídios marcados por alto grau de violência, estupros coletivos contra menores de idade e até a repercussão de um projeto de jogo eletrônico baseado no caso Epstein.

No ambiente digital, manifestações de violência simbólica também têm chamado atenção. Nesta semana, uma trend (formato de vídeo reproduzido em larga escala nas redes sociais) importada dos Estados Unidos ganhou repercussão e alcançou milhares de usuários online. Nos vídeos, homens se filmam “treinando caso ela diga não”: diante de uma suposta recusa a um pedido de namoro ou casamento, a reação encenada é de agressividade, com chutes e socos em objetos ou sacos de pancada que simbolizam uma mulher.

A circulação e popularização desse tipo de conteúdo nas redes sociais levantam questionamentos sobre a normalização da violência de gênero no ambiente digital. Como isso foi normalizado? Quando a violência de gênero passou a gerar engajamento e visualização?

O que é o movimento “Redpill”?

Originado nos Estados Unidos, o nome do movimento faz uma metáfora com a cena do longa Matrix (1999), em que o personagem Morpheus (Laurence Fishburne) começa a explicar para Neo (Keanu Reeves) o que é a Matrix e lhe oferece duas pílulas: uma azul, que o fará acordar na sua cama no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido; e a vermelha, que o levaria a descobrir a verdade sobre o sistema no qual ele está inserido.

Influencers e usuários de fóruns como o Reddit e o 4chan começaram a utilizar o termo “redpill” para designar algo considerado por essa comunidade como a “verdade fora do sistema”. O problema é que essa verdade é somente um reforço da hierarquia do patriarcado, direcionada principalmente a jovens com problemas de socialização e autoestima, que se sentem isolados da sociedade atual e, quando têm contato com esse discurso, responsabilizam a cultura woke, o feminismo e até políticas de esquerda pelos seus problemas pessoais.

Utilizando argumentos fundamentados na “tradição ocidental” e na religiosidade judaico-cristã, esses influencers garantem à sua audiência que, se seguirem seu discurso, se tornarão homens desejados, terão mulheres a seus pés, constituirão família e serão bem-sucedidos. Os seus obstáculos nesse caminho de sucesso são os “blue pill”, pessoas que não conhecem a sua verdade e agem de acordo com o “sistema”; isto é, apoiando a igualdade de gênero, pautas antirracistas, feministas, de diversidade, entre outras.

Quem são os Redpill no Brasil?

Também apelidada de “machosfera”, são os influencers que divulgam a ideologia Red Pill no Brasil, sendo os principais Raiam Santos, Thiago Schutz, Breno Faria (Café com Teu Pai), Gabriel Breier, Renato “Trezoitão”, Ruyter Poubel, Junior Masters e Alexandre Paiva.

Dentre estes, Thiago Schutz, conhecido também como “Calvo do Campari”, já foi preso por agressão física e tentativa de relação sexual forçada, mostrando que, além do discurso de violência, os coaches Red Pill também partem para ações violentas.

Nos últimos dias, surgiu nas redes um movimento orgânico de influencers progressistas para deixar de seguir esses coaches de masculinidade e deixar de seguir também os seguidores em comum, ou seja, os conhecidos que consomem aquele tipo de conteúdo, numa iniciativa de isolar os propagadores da violência e quem concorda com ela.

O contraponto

Desde o fim do ano passado, o economista e pré-candidato a deputado federal pelo PCdoB-RJ Elias Jabbour tem trazido, em aparições públicas, a ideia de um projeto de lei para criminalizar o movimento Red Pill no Brasil, sendo essa uma de suas principais plataformas políticas.

No dia 2 de dezembro do último ano, a deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP) apresentou à Câmara o PL 6075/2025, que acrescenta ao texto do Decreto-Lei 2.848/1940 a tipificação de crime para a promoção, incitação e divulgação de conteúdo misógino que possa estimular hostilidade, discriminação ou violência contra a mulher.

Na sexta-feira passada, dia 6, a deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) apresentou um projeto de lei similar, mas focado no problema Red Pill.

O PL 998/2026 consiste em:

Criação do crime de incitação à misoginia

“Promover, organizar, coordenar ou participar de ação coletiva estruturada destinada a incitar, estimular ou legitimar violência, discriminação ou desumanização contra mulheres, em razão de sua condição de ser mulher.”

Punir organização e redes de ódio contra mulheres

“Fundar, estruturar ou coordenar organização estável e permanente destinada à promoção sistemática de violência, discriminação ou desumanização contra mulheres, em razão de sua condição de ser mulher.”

Com isso, as bases do que consiste o movimento Red Pill seriam criminalizadas no país e aqueles que produzem e divulgam conteúdo com base nisso seriam devidamente responsabilizados.

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