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Teatro Oficina abre ciclo de debates com artistas, pensadores e pensadoras negras e apresentação única de BORI

Programação gratuita reúne Salloma Salomão, Coletivo Legítima Defesa, Denise Ferreira da Silva, Eduardo Neves, Luciana Araújo, William Santana Santos, castilho e artistas da companhia, para refletir sobre racismo, teatralidades negras, arqueologia, memória e resistência no Bixiga

Companhia mais longeva em atividade no Brasil, o Teatro Oficina recebe, entre março e abril de 2026, uma programação especial que articula arte, pensamento crítico e luta política. Serão seis encontros gratuitos na sede do teatro, no Bixiga, em São Paulo, tendo como fio condutor o espetáculo-rito BORI, que esteve em cartaz entre 2023 e 2024 e ganha apresentação única no dia 12 de abril.

Com o título BORI: Luz Negra no Terreiro Eletrônico, inspirado no conceito da filósofa e artista Denise Ferreira da Silva de “pôr luz negra no mundo, fazer brilhar o que é opaco”, a série de conversas, leituras e ritos propõe uma reflexão sobre racismo, luta urbana, teatralidades pretas e culturas afrodiaspóricas em diálogo crítico com a biografia da própria companhia. “O Oficina tem 67 anos, é patrimônio da cultura brasileira, é fundamental que a gente olhe para o racismo estrutural que nos atravessa e atravessa as relações entre teatro e território”, defende Marília Piraju, idealizadora e co-diretora do espetáculo e uma das organizadoras do ciclo de debates.

Idealizado como um rito de oferenda à cabeça, o Ori, BORI estreou em 2023 e, desde então, vem sendo apresentado em datas simbólicas para a companhia. O espetáculo investiga as criações fundamentais de artistas pretos e nordestinos na construção da linguagem coral e ritual do Oficina, sobretudo a partir dos anos 1970, quando a volta do exílio de José Celso Martinez Corrêa e a chegada de migrantes do Nordeste radicalizaram ainda mais a pesquisa estética e política da Uzyna Uzona.

A montagem não entra em temporada, mas opera como catalisadora de discussões mais amplas. “Desta vez, tiramos o espetáculo como centro da iniciativa e colocamos o trabalho como disparador de diálogos com outras/os pensadoras/es, artistas e intelectuais que temos acompanhado desde os primeiros movimentos deste time em torno de BORI”, explica Marília Piraju.

A abertura da programação, no dia 14 de março, fica por conta do multiartista e historiador Salloma Salomão, que conduz a conversa “Teatralidades negras, interpretações corais”. Doutor em História pela PUC-SP, com mais de 40 anos de carreira e 10 álbuns lançados, Salloma é uma das referências nos estudos da cultura afro-brasileira e diaspórica.

No dia 25, o Coletivo Legítima Defesa apresenta uma leitura encenada de O Poder Negro, peça do poeta e ativista norte-americano Amiri Baraka montada pelo Oficina em 1968, com direção de Fernando Peixoto e elenco formado por Antônio Pitanga e  Ítala Nandi. A atividade, que celebra a potência daquela temporada histórica – fortemente perseguida e censurada pela ditadura –, será seguida de conversa com o pesquisador William Santana Santos, curador e especialista na memória do Teatro Experimental do Negro (TEN), companhia fundada em 1944 por Abdias do Nascimento.

No dia 28 de março, o arqueólogo Eduardo Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), e a jornalista e ativista Luciana Araújo, liderança do movimento Mobiliza Saracura/Vai-Vai, se encontram para a conversa “A Terra Quer: arqueologia em territórios pretos e indígenas – rotas de luta e imaginação”.

O debate articula o trabalho de Neves na Amazônia, pesquisas que desmistificam a ideia de floresta intocada ao revelar a presença de sociedades indígenas complexas, com a luta de Luciana pela memória do Quilombo Saracura, sítio arqueológico negro ameaçado por obras do metrô no Bixiga.

“Juntar saberes e perspectivas, em aliança, para criar novos paradigmas, é a base de atuação desta luta, que atualmente tem como desafio enfrentar o racismo ambiental e a lógica neoliberal que expulsa grupos de teatro, apaga memórias e gentrifica o Bixiga. Luciana Araújo tem sido fundamental nesse sentido, trazendo uma perspectiva necessária sobre como a implantação do Parque do Rio Bixiga pode acabar expulsando a população preta que criou esse patrimônio”.

A fala de Marília encontra eco em um histórico recente de ataques à cultura paulistana: nos últimos anos, espaços como o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, o Teatro Vento Forte e o Teatro do Contêiner foram expulsos de suas sedes, vítimas de uma política urbana que sistematicamente apaga iniciativas culturais e expulsa artistas de seus territórios. O ciclo de debates no Oficina se inscreve justamente na contramão desse processo, afirmando o teatro como trincheira de resistência e memória coletivas.


No sábado, 11 de abril, a filósofa e artista Denise Ferreira da Silva encerra o ciclo com a conferência “Luz Negra no Mundo – a epifania do corpo infinito”. Professora na New York University (NYU), Denise é referência mundial em estudos de raça, ética e feminismo negro anticolonial.

No dia 12 de abril, o Oficina será palco da apresentação única de BORI, às 18h. O espetáculo reúne um coro de artistas pretos, nordestinos e caboclos que encarnam e presentificam as caravanas migratórias dos anos 1970 e 1980, ao mesmo tempo em que atualizam as perspectivas pretas no aqui e agora da companhia. A dramaturgia coral entrelaça tragédias coloniais com cantos de trabalho, partilha da comida, festa e a tecnologia política que o Oficina chama de “alegria como arma de desmassacre”.

A programação acontece em um momento simbólico para o Oficina e para o Bixiga: a luta de mais de quatro décadas pelo Parque do Rio Bixiga acaba de conquistar uma etapa importante, com a abertura de concurso nacional para o projeto de implantação do espaço público. O território, que abriga o sítio arqueológico do Quilombo Saracura, segue no centro do debate sobre memória, pertencimento e direito à cidade.

SERVIÇO

BORI: Luz Negra no Terreiro Eletrônico

Ciclo de debates + apresentação única do espetáculo BORI

Local: Teat(r)o Oficina – Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo/SP

Todas as atividades são gratuitas

Classificação indicativa: espetáculo BORI, 16 anos; demais atividades, livre

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

14/03 (sábado), 11h

Abertura com Salloma Salomão

Tema: Teatralidades negras, interpretações corais

21/03 (sábado), 11h

Aulão com castilho

r.ebó.lar – corpo como arquivo vivo

25/03 (quarta), 20h

Leitura encenada de O Poder Negro

Com Coletivo Legítima Defesa, seguida de conversa com William Santana Santos

28/03 (sábado), 11h

Conversa com Eduardo Neves e Luciana Araújo

Tema: A Terra Quer: arqueologia em territórios pretos e indígenas – rotas de luta e imaginação

11/04 (sábado), 11h

Conversa com Denise Ferreira da Silva

Tema: conferência Luz Negra no Mundo – a epifania do corpo infinito

12/04 (quinta), 18h

BORI – apresentação única do espetáculo-rito

SOBRE OS CONVIDADOS DO CICLO DE DEBATES

Salloma Salomão é multiartista, historiador, pesquisador e educador, com atuação central na cultura afro-brasileira e diaspórica. Cantor, compositor (10 álbuns lançados), doutor em História pela PUC-SP e pensador influente do movimento negro.

Coletivo Legítima Defesa é um grupo artístico de ação poético-política, formado em 2015 por atores, músicos e DJs, com foco na reflexão e representação da negritude e seus desdobramentos sociais. O grupo utiliza a “guerrilha estética” para ocupar espaços como museus e centros culturais e defender a existência e a vida através da arte.

William Santana Santos é pesquisador, curador e produtor cultural, com formação em Ciências Sociais e Sociologia pela USP. Atua na preservação da memória do Teatro Experimental do Negro e de manifestações culturais negras no Brasil.

Eduardo Neves é arqueólogo, professor e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP). Especialista na Amazônia, com mais de 30 anos de pesquisa, é referência nos estudos sobre sociedades indígenas complexas antes de 1500.

Luciana Araújo é jornalista, moradora do Bixiga e uma das principais lideranças do movimento Mobiliza Saracura/Vai-Vai, que defende a memória negra e o sítio arqueológico do Quilombo Saracura, ameaçado por obras do metrô paulista. Integra o Movimento Negro Unificado (MNU) e a Marcha das Mulheres Negras.

Denise Ferreira da Silva é filósofa, artista e acadêmica, referência mundial em estudos de raça, poder, ética e feminismo negro anticolonial. Professora na New York University, ex-diretora do Social Justice Institute (University of British Columbia), investiga a racialidade no pensamento pós-Iluminista e produz arte relacional e filmes.

castilho é artista brasileira transdisciplinar, graduada pela Escola de Arte Dramática – EAD/ECA/USP, pesquisa as multiplicidades e potencialidades da arte periférica afroindígena, através de confluências latinas em diáspora. Atua também como atriz no cinema e na tv, atualmente integrando o elenco principal da série Santo, da Netflix.

FICHA TÉCNICA – PROGRAMAÇÃO

Organização: Marília Piraju e Fernanda Taddei

Produção: Bruli, Victor Rosa e Brenda Amaral

Núcleo de estratégia: Lucas Andrade, Odá Silva, Joel Carlos e Ana Cantanhede

FICHA TÉCNICA – ESPETÁCULO BORI

Idealização: Marília Piraju

Codireção: Marília Piraju, Rodrigo Andreolli, Fernanda Taddei

Dramaturgia: Marília Piraju, Rodrigo Andreolli, Fernanda Taddei, Joel Carlos, Odá Silva, Vick Nefertiti

Banda: Letícia Coura, Maria Bitarello, Fefê Camilo, André Santana Laga, Tetê Purezempla, Renato Pascoal, Chicão, Moita Mattos

Time da criação coral: Alexandre Paz, Alex Augusto, Ayomi Domenica, Akikànjú Robson da Silva, Ana Clara Cantanhede, Cyro Morais, Corisco Amaré Yndio do Brasil, Davi, Danielle Rosa, Jhonatha Ferreira, Jennifer Glass, Joel Carlos, Gii Lisboa, Kelly Campello, Flora Sandyá, Letícia Coura, Lucas Andrade, Luzia Rosa, Marcio Telles, Marcelo Dalourzi, Mombira Mathunsi, Nduduzo Siba, Odá Silva, Samurai Cria, Selma Paiva, Tetê Purezempla, Victor Rosa, Viviane Clara, Yannick Delass

Concepção direção de arte: Abmael Henrique, Anita Braga, Dan Salas, Gii Lisboa, Marcelo X e Pedro Levorin

Figurino e adereços: Abmael Henrique e Dan Salas

Direção de cena: Gii Lisboa e Dan Salas

Concepção de vídeo: KlausYuka, Renato Pascoal e Corisco Amaré Yndio do Brasil

Câmera ao vivo: Corisco Amaré Yndio do Brasil, Victor Rosa e Luz Barbosa

Operação de vídeo ao vivo: Renato Pascoal

Fotografia: Jennifer Glass

Desenho de luz e operação: Victoria Pedrosa

Operação de foco móvel: Angel Taize

Sonorização e operação de som: Clevinho Ferreira e Júlia Ávila

Preparação coral: Letícia Coura e Tetê Purezempla

Artes gráficas e videográficas: Pedro Martins e Cafira Zoé

Coordenação acervo: Elisete Jeremias

Guardiã dos figurinos: Cida Melo

Direção de produção: Bruli

Produção executiva: Victor Rosa

Administração Teat(r)o Oficina: Anderson Puchetti

Assessoria de imprensa: Baobá Comunicação

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