Por Thalyta Silva | Enviada especial a Belém
“Precisamos pisar chão para ler mundo”
Sob um calor de 30 graus, cheguei a Belém no dia 08 de novembro, com a expectativa de passar os sete dias seguintes em articulações e vivenciar Belém na perspectiva da COP30. Eu sou Thalyta, tenho 29 anos, sou jornalista socioambiental e tive a oportunidade de participar da minha primeira Conferência das Partes no Brasil, na Amazônia. Para quem trabalha com emergências climáticas, socioambientalismo no Brasil, participar de um evento desse porte é um marco e uma forma de me munir de conhecimentos simbólicos e técnicos.
Estive, na maior parte do tempo, na Zona Azul, e a partir dela tive alguns sentimentos conflitantes. Por não conseguir conhecer e me relacionar tanto com outros espaços, contei com a ajuda de colegas da casa coletiva onde estive hospedada e outros que encontrei nas festas, nos atos, nas ruas e nos caminhos para digerir e decantar esses dias.
Um mês após esse evento, o que fica? O que continua reverberando? Para finalizar 2025 e iniciar 2026 mais organizada, te convido para ler na íntegra alguns dos relatos dessa grande caminhada.
Antes, só queria exaltar algumas conquistas:
- Lançamento da NDC Quilombola
- Lançamento do estudo sobre Amazônia Quilombola
- Inclusão do termo “afrodescendentes” nos textos oficiais da UNFCCC
- Reconhecimento dos territórios quilombolas pelo governo federal
- Lançamento do Fórum Global de Comunidades Locais sobre Mudança Climática
Olhar a partir da perspectiva de que as soluções estão nos territórios indígenas, quilombolas e de outras comunidades tradicionais me move. Por isso, é do lado deles que eu quero caminhar.
Francisco Chagas, assessor técnico da Conaq:
“Veja, o que a gente pode destacar do avanço que essa COP pode produzir, tanto no âmbito interno, quanto no âmbito externo foi uma mobilização social que causou impactos jamais vistos em outras COPs. Teve o lançamento da pesquisa que o ISA e a Conaq realizaram e provocou impactos visíveis e também influenciaram debates sobre a presença de povos quilombolas no território amazônico. Quando o ISA e a Conaq apresentam ali os dados da pesquisa no painel, teve presente com a gente algumas pessoas que, até então, não compreendiam esse ambiente de uma comunidade quilombola. E ali para mim, o que destacou foi quando eu vi alguém dizer assim: ‘Essa apresentação mudou a minha forma de ver o que é os povos quilombolas’.
Como é que uma população que até então era invisível pelo Estado, mas de repente se senta à mesa para apresentar resultados como o mapeamento de 3.675.523 hectares aproximadamente, né? E, deste volume, 2.950.180 aproximadamente hectares são de floresta conservada. Então, isso foi um dos impactos que foi perceptível no âmbito do debate ali dentro da Zona Azul.
A pesquisa apresentada expôs a algumas mazelas, né? Isso traz o que ficou da COP para dentro do Brasil. Expôs a mazela do racismo do Estado brasileiro, que até então, com todas as forças do poder e do racismo estrutural, manteve um povo, ou tentou manter um povo, na invisibilidade. Mas também expôs também como essas populações, a população de quilombo, ela se prepara e contribui para o enfrentamento dos efeitos climáticos no Brasil.
E para fora, podemos destacar que pode-se perceber, e que foi destacado no relatório final, o termo afrodescendente como comunidades que estão vulneráveis a esses efeitos climáticos. Então ali entraram comunidades tradicionais, comunidades locais e povos afrodescendentes. Foi um avanço. Pela primeira vez em uma COP se falou, se tratou e se debateu e a sociedade civil mostrou a capacidade de mobilização para que uma COP se pudesse citar no relatório, ainda que não da forma que os povos quilombola queria, mas já foi um avanço.”
Daniel Rocha, internacionalista do Instituto E+ Transição Energética:
“Como essas questões do cenário internacional afetam o âmbito doméstico? Primeiro, acho que é bom dar uma ressalva que é: as convenções e as conferências internacionais, elas não são vinculantes. Ou seja, os países parte dessas convenções não têm a obrigação de fazer as coisas que elas comprometem, tá? Não existe uma punição. E aí, no caso, toda e qualquer atitude tomada nesse espaço de fórum é meramente diplomacia, boa vontade e boa prática internacional.

O Brasil, por exemplo, internalizou o Acordo de Paris, que é equivalente a uma ‘lei’… Mas assim, em outros lugares onde não teve essa internalização, ainda assim esses tratados têm grande influência.
Por isso tudo, a gente entende que com uma menção do termo ‘afrodescendente’ nos documentos oficiais da UNFCCC, nos dão uma salvaguarda importante e reconhece que esses povos têm ou podem ter espaço nessas políticas nacionais e internacionais do clima também. E a gente consegue também, enquanto sociedade civil, cobrar com respaldo, e com jurisprudência.
Outro ponto é a solicitação de litigância climática, né? Normalmente existe essa consideração, a sociedade civil e pessoas de comunidades tradicionais conseguem requerer para algumas cortes, tanto nacionais, quanto internacionais… a gente consegue, mencionar um precedente para esse tipo de ação.
Agora, sobre a minha participação na COP como pessoa negra, nesses campos internacionais, é diferente quando a gente olha para o Brasil, né? Tipo, são pessoas negras de diferentes contextos, diferentes realidades… Mas a coisa que mais gosto é ver pessoas negras em diferentes abordagens dentro da linguagem de clima. Então, economistas, meteorologistas, engenheiros… Eu acho que sair da linguagem para além do que é esperado de nós também é importante e necessário.”
(A cobertura continua na próxima matéria, com as críticas e contradições vistas de dentro dos territórios.)
Texto: Thalyta Silva.
Revisão e edição: Brenda Evaristo.










