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Sesc faz Seminário sobre Educação

O SESC (Serviço Social do Comércio) realizou em Santos (SP), nos dias 22 e 23 de outubro, o “Seminário Conversas sobre Educar“. A atividade reuniu educadores da Baixada Santista para discutir novas possibilidades de educação, propondo, através de mesas temáticas e apresentações artísticas, novos modos de aprender e ensinar coletivamente. O objetivo foi ampliar os horizontes de educadoras e educadores para lidar com os desafios contemporâneos da educação.

O seminário teve início no dia 22 com uma conversa entre Geni Núñes e Érica Malunguinho, que abordaram vivências pretas e indígenas. Em seguida, houve a apresentação do Coral Indígena Nhandetsy Nhanmandu Mirim. O primeiro dia contou ainda com a mesa sobre “O papel dos adultos na infância”, com Lenira Djatsy e Luiz Marcos (Luiz Ketu), e encerrou com o debate “Tecnologia nas infâncias e juventudes em perspectivas plurais”, com o coletivo Sítio do Astronauta e a Safernet.

A importância da educação antirracista

Em conversa com o Jornal Empoderado, Lucilene Costa, chefe da Seção de Projetos Educacionais Especiais (Seproje), destacou a relevância do evento: “Dentro da nossa sessão, nós tínhamos o Núcleo de Educação para as Relações Étnicas e Raciais, o Nerep. E a importância desse evento é a disseminação de conhecimento. Lugares e espaços como esse nos fazem oxigenar a nossa mente em relação ao que é educar.”

O NERER (Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais) é um órgão municipal presente em cidades como Santo André e Santos, criado para combater a discriminação racial e fortalecer a educação antirracista. O núcleo elabora políticas educacionais, oferece formação continuada para professores, promove ações práticas e acompanha a aplicação das leis que tratam do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena (10.639/03 e 11.645/08).

Mesa 3 – Epistemologia e relações étnicos-raciais: desafios contemporâneos.

A mesa “Epistemologia e relações étnico-raciais” trouxe reflexões sobre as intersecções entre raça, gênero, sexualidade e os discursos hegemônicos na educação.

A Profa. Dra. Ellen de Lima Souza, coordenadora do grupo de pesquisa LAROYÊ, apresentou uma palestra marcante, questionando a romantização de narrativas da escravidão, como o mito de que tranças eram usadas como “mapas” nas fugas de pessoas escravizadas. Ela também relembrou que as bonecas Abayomi são criação de Lena Martins, e abordou temas como infâncias negras, necropolítica, territórios negros, racismo religioso, filosofia da infância e educação antirracista. Ellen encerrou sua fala apresentando o livro infantil Anaesia e a Origem das Pessoas.

A psicóloga Elânia Francisca, especialista em Gênero e Sexualidade (UERJ), mestra em Educação Sexual (Unesp) e doutoranda em Humanidades (USP), destacou a dificuldade de diálogo com conselhos tutelares devido à influência de grupos fundamentalistas religiosos. “Eles possuem um posicionamento de que criança não tem querer, de que criança não pensa.”

Ela relatou uma experiência em que usa modelos anatômicos para discutir sexualidade com adultos: “Pego um modelo de vulva e falo assim, qual é o nome disso aqui pros adultos? Aí eles falam, vagina. Aí eu falo, então, gente, não chama vagina, chama vulva, né? Vagina fica lá dentro, vulva é a parte de fora. E a partir daí a gente conversa… olha o quanto que nós, pessoas adultas, tanto família quanto escola, precisamos conversar sobre sexualidade entre nós também, porque não recebemos isso quando éramos mais novas. Falar de sexualidade é promover saúde.”

Sobre métodos contraceptivos, Elânia pontou: “Enquanto a gente vai falando também do modo como os métodos contraceptivos estão sendo apresentados para as meninas. E esses métodos contraceptivos apresentados para as meninas como algo para regular a menstruação, algo para essa menina ficar despreocupada com a gravidez, mas a gente não fala das infecções sexualmente transmissíveis, que nenhum método contraceptivo apenas vai ajudar nesse sentido. E aí a gente vai pensar, tá bom, mas quem são essas meninas que os métodos contraceptivos (Chips) estão sendo colocados? São meninas moradoras de regiões periféricas de todas as cidades do estado de São Paulo e majoritariamente negras. Então a maioria das meninas que estão hoje com implante contraceptivo são meninas negras, né?”

A psicóloga comentou ainda sobre a atuação dos Conselhos Tutelares: “Algumas vezes, algumas pessoas mais interessadas, engajadas, estão dentro do Conselho, mas muitas vezes são engolidas por pessoas que têm um posicionamento extremamente fundamentalista, religioso, um posicionamento como é? Radical. Então, antes fosse radical de raiz, né, mas radical no sentido de ter um posicionamento de que criança não tem querer, de que criança não pensa. Então, são poucos os conselheiros e as conselheiras que são bacanas e que chamam a gente, que estão com a gente no debate.”

Jéssica Borges, à esquerda, e Sara Wagner York, à direita

A tarde foi marcada por um intercâmbio de experiências educacionais que repensaram práticas tradicionais, destacando a educação como um meio de transformação social.

A educadora e pesquisadora Jéssica Borges, presidente da Associação Brasileira por Direitos das Pessoas Autistas e integrante do Ministério da Educação, compartilhou sua trajetória de mais de 10 anos na inclusão de crianças e jovens autistas, trazendo estratégias para o acolhimento e o ensino de estudantes neurodivergentes.

Sara Wagner York, jornalista, doutora em Educação e a primeira mulher trans a ancorar o jornalismo brasileiro (TV 247), trouxe uma fala vibrante sobre desinformação e apagamento histórico. York lembrou que conceitos como “racismo estrutural” e “capacitismo” são antigos, mas só ganharam visibilidade recentemente. “Famílias ricas, no passado, enviavam filhos para o exterior para ‘reparação’ de gênero, e, ao voltarem, eram vistas como mulheres”, contou. A palestrante destacou ainda sua contribuição para o termo “gramática do capacitismo” e defendeu a educação como ferramenta de libertação e justiça social.

Douglas Marcelo Bianchi Ramachotte (SESC)

Nota do Jornal Empoderado: Acreditamos que Paulo Freire teria gostado muito do evento. Agradecemos à equipe do Sesc Santos, que nos recebeu com generosidade e sensibilidade.

Texto: Anderson Moraes.
Revisão e edição: Brenda Evaristo.

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