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Frantz Fanon Dançando em SP

Uma resistência dançante na História em cena no Espetáculo:
“DA VIOLÊNCIA: FANON”


Aprovada pela 36a Edição de Fomento à Dança. A Taanteatro Companhia, apresenta ao público sua nova criação, DA VIOLÊNCIA: FANON, espetáculo teatro-coreográfico inspirado na obra do pensador martinicano Frantz Fanon (1925-1961). Está no Centro Cultural Vila Itororó (10 a 25 de outubro), e depois circula pelo Teatro Arthur Azevedo (30 de outubro a 2 de novembro) e Teatro Alfredo Mesquita (27 a 30 de novembro).

Falar do pesquisador Fanon é um assunto inesgotável dada a profundidade e importância da sua pesquisa para o pensamento contemporâneo sobre o racismo. Pesquisou o racismo em múltiplas camadas políticas, subjetivas, colonizadoras e psicológicas.


O espetáculo celebra o centenário de nascimento do autor de clássicos como “Pele Negra, Máscaras Brancas” e “Os Condenados da Terra”, reconhecido mundialmente por sua crítica ao racismo, ao colonialismo e às formas de alienação social.


Frantz Fanon

Nasceu em 20 de julho de 1925, na capital da Martinica. Durante a Segunda Guerra Mundial, lutou na África do Norte como soldado do exército francês e, aos vinte anos, já havia sido condecorado como veterano de guerra. Em 1945, retornou à Martinica e colaborou na campanha de Aimé Césaire, seu amigo e mentor intelectual, para a prefeitura de Fort-de-France.
Formado em medicina na França, com especialização em psiquiatria, em 1951 voltou mais uma vez à sua Ilha. Em 1952 casou-se com uma francesa em Paris e seguiu para a Argélia, assumindo o posto de chefe do Departamento de Psiquiatria do hospital de Blida-Joinville. Passou a lutar contra o colonialismo, como membro da Frente de Libertação Nacional (FLN). morreu nos (EUA), 1961; em plena politica de segregação racial. Três anos após sua morte, Rosa Parks, lutou contra as leis de segregação racial, culminando na aprovação da Lei dos Direitos Civis em 1964, que proibiu a discriminação racial. Tornar o racismo ilegal nos EUA, não acabou com o racismo nos EUA e nem em qualquer outro lugar do mundo.




Assistir o espetáculo na Vila Itororó foi muito significativo. por volta de 2010, grupos de teatro como: Impulso Coletivo, Hangar de Elefantes e outros se uniram ao Movimento de Moradores para impedir o avanço da especulação imobiliária e a destruição desse território, apagando mais essa memória. Eu pude ver essa luta desde o início, na maioria das vezes perdemos. Mas neste caso, a classe artística venceu, a cidade mereceu e a memória se revigora.


Em uma reflexão sobre seu corpo nesse território o performer: Acauã Solí nos insere num tempo histórico: “ Aqui era um bairro praticamente preto. Na região da bela Vista, Bixiga, existia um grande Quilombo da Saracura, de onde surgiu a escola de Samba Vai-Vai. Toda essa parte da Bela Vista e da Liberdade teve a maior concentração de negros em um momento da história. E não é por acaso que a 1a Delegacia da cidade está na Liberdade. Depois esse terreno da Vila Itororó foi ocupado por pessoas italianas, e ao redor formaram-se muitos cortiços, de maioria de gente preta. Depois da Vila Itororó ser desocupada, ela sofre uma nova ocupação periférica no centro. Mesmo hoje querem pôr um metrô aqui, prédios. Ainda existe uma pressão econômica sobre esse espaço, querem tirar esse espaço da nossa comunidade. Eu que sou nascido aqui, cria do Bixiga e coloco aqui meu corpo em resistência, em movimento… É difícil, saber que ainda estamos resistindo. É triste”





A performer Angela Mendes conta como é contemporâneo Fanon e que ele pode ser sentido diariamente:
“É bem pesado viver em cena o que vivemos no dia a dia. A gente vive isso até agora, né… Mexe muito nessa coisa dentro de nós. Isso revoluciona essa raiva que carregamos ainda por situações que acontecem todos os dias. Eu me sinto, quando passo por essas situações muito tensa, com muita raiva, e tudo isso vem na cena, vem no movimento. Essa tensão diária, ainda mais sendo mulher”

O diretor, Wolfgang Pannek, comenta que Fanon aborda em seus livros o conceito de que o corpo colonizado é HIPERTENSO, sempre com medo de ser abatido, não pode existir em sua essência, sempre precisa provar que tem o direito a estar lá e a viver.

A pesquisa da Taanteatro Companhia sobre Fanon durou um pouco mais de três anos.

O coreógrafo, Mabalane Jorge Ndlozy, veio de Moçambique em 2017 para integrar a Cia. E ele traz o Xigubo, dança guerreira de comemoração da expulsão dos Portugueses de lá. Ele nos conta que:
“Os portugueses vinham com exércitos, muitas armas e muito dinheiro para destruir tudo, e nós na mão, expulsamos os colonizadores de nossa terra com luta sem muitas armas, e depois de cada batalha tinha essa dança que está no espetáculo”.

A performer Thaíse Reis nos conta a importância desse encontro com uma pessoa de Moçambique e dessa memória possível de expulsar o colonizador, o grupo reflete o quanto o negro brasileiro em diáspora não tem para onde voltar e nem para onde mandar de volta o colonizador, e que o próprio colonizador aqui ainda se vê “ítalo”, “Basco”, “Árabe”, “Português”… Mesmo na vigésima geração.

Enquanto os povos nativos que expulsaram seus colonizadores se livraram dessa raiva e tensão, no Brasil, entretanto, essa situação, essa tensão ainda é mais complexa.

Wolfgang, aproveita para lembrar que taanteatro significa “teatro coreográfico das tensões”; e essas tensões estão no espetáculo.

Um grupo de performers valorosos, carismáticos e de movimentos precisos que se conectam com o público e nos mantém imersos a cada ação. Imperdível. Uma aula de espetáculo e um espetáculo-aula para a vida.


Para quem quiser assistir o espetáculo ficam as informações das próximas apresentações:

Fotos da matéria: Produção do Espetáculo

Temporadas:

Centro Cultural Vila Itororó – Rua Maestro Cardim, 60 – Bela Vista, São Paulo.

30 de outubro a 2 de novembro, quinta-feira a sábado, 21h e domingo, 19h.
Teatro Arthur Azevedo – Av. Paes de Barros, 955 – Alto da Mooca, São Paulo.

27 a 30 de novembro, quinta-feira a sábado, 20h e domingo, 19h.
Teatro Alfredo Mesquita – Av. Santos Dumont, 1770 – Santana, São Paulo.


Ficha Técnica:
Dramaturgia e direção: Wolfgang Pannek
Coreografia: Mabalane Jorge Ndlozy
Textos de Frantz Fanon e extratos do “Código Negro”, emitido pelo Rei Luís XIV, o Rei Sol.
Adaptação dos textos: Wolfgang Pannek.
Elenco: Mabalane Jorge Ndlozy, Maura Baiocchi, Mônica Bernardes, Gustavo Braunstein, Angela Mendes, Thaíse Reis e Acuã Solí
Música: Anderson Kaltner
Percussão: Otis Selimane Remane
Arte visual: Thiago Consp
Iluminação: Gabriele Souza
Cenografia: Wolfgang Pannek
Supervisão artística: Maura Baiocchi
Produção: Mônica Bernardes
Designer Gráfico: Hiro Okita
Duração: 90 minutos
Classificação Indicativa: 14 anos

Instagram: @taanteatro

www.taanteatro.com


Bom Espetáculo! Bon Spectacle!

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