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Vereadora luta por lei pró-religiões de matriz africana

Najara Costa enfrenta sozinha o convservadorismo em Taboão da Serra. Desde o dia 9 de setembro, a parlamentar do PCdoB tenta aprovar norma contra à intolerância religiosa ao Candomblé e a Umbanda

O projeto de Lei elaborado pela vereadora Professora Najara Costa tramita dentro da Câmara Municipal de Taboão da Serra, cidade localizada na região metropolitana de São Paulo, desde o dia 9 de setembro. A norma autorizaria o Poder Executivo incluir no Calendário Oficial do município a Semana de Combate à Intolerância Religiosa. Dentro dessa especial semana aconteceria diversas atividades educacionais contra o racismo religioso, a discriminação de crenças de matriz africana, fundamentalmente, o Candomblé e a Umbanda. Mais: a Semana de Combate à Intolerância Religiosa contaria com ações que promoveriam a valorização e o respeito à essas religiões. Haveria a promoção cultural dessas crenças por meio de apresentações de suas indumentárias, dança, músicas e culinária.

Muito bem. Nada disso será possível como previsto. A Câmara Municipal de Taboão da Serra conta com treze vereadores, somente três mulheres e apenas a Professora Najara Costa é conhecedora, estudiosa e defensora das religiões de matriz africana na Casa. Apesar de todo o empenho de Najara pela aprovação, houve uma manobra política a partir da união dos políticos de direita e extrema direita e o projeto acabou desmantelado.

Outras religiões foram anexadas no projeto para dar impressão de que o racismo religioso e a intolerância religiosa ocorrem contra todas as crenças e com a mesma intensidade. O que não acontece de forma alguma. Havia direcionamento proposital no documento original, pois o racismo e a violência religiosa são direcionados às religiões de matriz africana. Pode-se afirmar que tal entendimento é de conhecimento público e geral, a imprensa brasileira já fala sobre isso há muito tempo, certo?  Resposta: não. Essa compreensão não existe dentro da Câmara Municipal de Taboão da Serra. Após quase um mês de tramitação e articulação política dentro e fora da Casa, o projeto acabou deturpado. “Eles acabaram com o direcionamento que colocamos. Da forma que ficou, a situação das religiões de matriz africana continuará comprometida, o racismo religioso e a violência irão continuar”, afirma Najara Costa.

“A distorção em nosso projeto tem a intenção de acabar com o protagonismo de nosso mandato”, diz a vereadora. É verdade, para além das mudanças que alteraram a especificidade da Lei, o nome de Najara Costa não estava no documento final. Em todas as ocasiões em que o projeto teve de ser defendido em plenário, diversas lideranças de Candomblé e Umbanda fizeram questão de estar presentes na Câmara Municipal de Taboão da Serra para apoiar Najara Costa.

Após a manobra, mesmo com pesar, a vereadora Professora Najara Costa considerou, em público, tratar-se de um avanço a aprovação da Lei  dentro de uma tão “conservadora” Câmara. Na ocasião, o vereador Sandro Ayres (Republicanos) foi ao púlpito do auditório da Câmara Municipal para tentar distorcer a história. Ele disse, aos berros, apesar do microfone, que o projeto de Lei contra à intolerância religiosa às religiões de matriz africana, especialmente, o Candomblé e a Umbanda, tratava-se de “mi mimi” da esquerda.

O entendimento geral das lideranças religiosas que estiveram presentes foi o de que, no mínimo, falta conhecimento histórico ao parlamentar. É fundamental repetir: o racismo religioso e a violência contra as religiões de matriz africana matam, são históricos e estão em destaque na mídia e em todas as redes sociais. O direcionamento era proposital e necessário.

Quem é Najara Costa?

A Professora Najara Costa foi eleita em 2024 para seu primeiro mandato que vai de 2025 a 2028. Najara é taboanense, mãe, periférica e doutoranda em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades pela Universidade de São Paulo (USP).

Formada em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Mestra em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), é autora do livro “Quem é Negra/o no Brasil?”, publicado pela editora Dandara. Sua pesquisa acadêmica se concentra nas relações raciais, com destaque para os métodos de heteroidentificação que fundamentam políticas afirmativas e seus impactos.

Najara construiu uma trajetória política baseada na convicção de que a transformação social nasce da participação ativa. Em 2020, foi a única mulher entre nove candidatos à prefeitura de Taboão da Serra, conquistando quase 9 mil votos e alcançando o quarto lugar.

Em 2022, foi eleita co-Deputada Estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) em um movimento coletivo que obteve mais de 100 mil votos. No entanto, abdicou dessa posição para concorrer à Câmara Municipal de Taboão da Serra pelo PCdoB, com o objetivo de qualificar e renovar a política local. Eleita em 2024 como a mulher mais votada da legislatura, reforçou seu compromisso com uma cidade mais justa e inclusiva.

Criada no bairro Freitas Júnior, Najara conhece de perto os desafios das periferias, marcados pelo descaso nos serviços públicos, pela falta de oportunidades e pelas violências cotidianas. Essas vivências moldaram sua atuação em movimentos sociais e seu compromisso com pautas como educação, igualdade racial, justiça social, políticas socioambientais e respeito às diversidades.

Como vereadora, tem o objetivo de estabelecer um mandato propositivo, com fiscalização da administração pública e ampliação das políticas de educação, saúde, cultura e cidadania, entre outras. Seu mandato incentiva a representação de mulheres, jovens e negros, promovendo o sentimento de pertencimento.

Defensora da educação como ferramenta de transformação social, Najara Costa acredita que a política só faz sentido se for capaz de efetivamente melhorar a vida das pessoas. Seu mandato convida a população à participação ativa, com o objetivo de transformar as dores das pessoas, especialmente nas periferias, em soluções concretas e de construir uma cidade mais justa e representativa.

Texto: Fernando Luiz.

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