» Post

A favela é mulher, soberana e não pede licença

A voz das mulheres das periferias não ecoa sob permissão, mas por urgência. É um movimento real, pulsante e político que propõe um novo Brasil

Por Dani Lopes

O feminismo que pulsa nas periferias — vivo, ancestral e insurgente — rompe, incomoda, se infiltra e enfrenta a emergência climática, a fome, a falta de moradia e tantas outras pautas fundamentais. É conduzido por vozes como a de Marcele Oliveira, jovem de Realengo (RJ), campeã climática da presidência para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em novembro em Belém (PA), com projeção internacional a partir da perspectiva territorial dos biomas brasileiros. Ou como a de Yalorixá Roberta Costa, coordenadora do Instituto Águas do Amanhã, na Zona Oeste do Rio, referência no combate à fome e ao racismo religioso. Ou ainda Camila Moradia, que carrega no nome a luta por dignidade no CPX do Alemão; as Mães de Manguinhos, que clamam por justiça pelo assassinato de seus filhos; e Mani, Mariane dos Anjos Neves, marisqueira de Maragogipinho, distrito de Aratuípe, no Recôncavo Sul da Bahia, que representa a resistência das mulheres dos manguezais.

Através dessas e de tantas outras lideranças, com acúmulo de vida e luta, o novo feminismo — orientado por batalhas antigas e novas ferramentas de garantia de diversidade e inclusão — pode ser chamado de coletivismo feminino periférico. Um amplificador artesanal, construído por e para mulheres pretas, pardas, mães solo, que lideram movimentos, articulam a política e inspiram meninas que sonham, mesmo quando tudo ao redor insiste em dizer que elas não vão chegar lá.

Nascer mulher nas favelas e periferias é nascer em uma trincheira que convoca cedo para a luta. A luta que começa na fila do posto de saúde, no acesso à educação, no julgamento e criminalização dos direitos sexuais e reprodutivos, na audiência de custódia do filho, na ameaça de despejo, na medida protetiva que não chega. É um acúmulo de dores que, às vezes, vira tema de seminário, mas que para nós é o cotidiano. Cotidiano que não nos paralisa nem nos reduz. Nossa voz, quando se ergue, não é apenas denúncia: é revolução e movimento. É o parto de um mundo novo, já que o velho sequer nos enxerga.

Esse coletivismo feminino periférico gesta um saber que nasce das relações e do afeto, impossível de caber em livro. Falamos com a voz de quem já perdeu muito — inclusive o medo. Não pedimos licença para existir ou resistir. É justamente por isso que nossa fala tem vida e potência quase sobrenaturais, vindas de um lugar ancestral que transforma ausências em caminhos reais, nunca solitários, sempre coletivos.

O que propomos é mais que inclusão: é reconfiguração. Não queremos apenas sentar à mesa; estamos repensando e recriando o formato da mesa. Na estrutura que nos é imposta, não há espaço para nós. Não vamos mais lutar ou agradecer por entrar em “lugares” que sempre nos foram negados. Há séculos criamos nossas próprias tecnologias sociais, que transformam e constroem espaços potentes sob nosso protagonismo.

Movimentos que não enfrentam a fome, o racismo e o genocídio de nossas crias não nos representam. Nossa luta é pela dignidade integral. Pelo direito de viver sem medo. De criar futuro para nossos filhos, e não enterrá-los aos 17. É por isso que o nosso coletivismo feminino transcende o político, o cotidiano e o radical: carrega um sentido ancestral e espiritual, que nos nutre e amplia.

A favela é mulher. Eu mesma sou uma favela inteira — e o contrário também se aplica com êxito. Toda vez que uma de nós ocupa um espaço de diálogo com o poder, uma rachadura se abre na muralha que nos segrega e criminaliza. Nossa presença é insurgente. Nossa fala é ferramenta. E nosso corpo, tantas vezes alvo, agora é manifesto de soberania.

Seguiremos avançando com beleza, ousadia e consciência de quem somos. Sem culpa. Sem abaixar os olhos. Sem pedir licença.

Daniela da Silva Lopes, a Dani Lopes, é cria do Complexo de Favelas da Mangueirinha, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Assistente social, articuladora política e social, é liderança popular e referência na luta por justiça social, equidade de gênero e combate à fome a partir dos territórios periféricos.

“Minha voz não pede licença — ela ocupa, rompe e refaz caminhos.”

Imagem: Produzida em I.A (Gemini)

Revisão e edição de texto: Brenda Evaristo.

NOTA

Não deixe de curtir nossas mídias sociais. Fortaleça a mídia negra e periférica

Esta gostando do conteúdo? Compartilhe!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

» Posts Recentes

Categorias

Você também pode gostar

Utilizamos seus dados para analisar e personalizar nossos conteúdos e anúncios durante a sua navegação em nossos sites, em serviços de terceiros e parceiros. Ao navegar pelo site, você autoriza o Jornal Empoderado a coletar tais informações e utiliza-las para estas finalidades. Em caso de dúvidas, acesse nossa Política de Privacidade