Entre pausas, travessias e a decisão cotidiana de permanecer
Primeiro de janeiro é uma divisão temporal fictícia, um desejo de recomeço, o verdadeiro dia da mentira. Palco de falsas promessas que culminam na epidemia de amnésia e na fantasia coletiva de que a mudança do calendário reorganiza a vida. O botão de reset nunca foi apertado. Ainda estou, ainda estamos aqui, num looping que salta de uma decisão questionável a outra.
Ainda sob o efeito da hibernação festiva, libero o grito “ainda estou aqui”, prenhe na garganta. Chamo de grito, mas o que cabe aqui é o berro. O refrão da música “Quem Te Protege Não Dorme”, de Marquinho Sensação, inaugura minha resposta, ainda acanhada. Busco proteção das línguas ferinas, das energias tortas. Dos falsos sorrisos, das mentes maldosas. Dos amores bandidos, das falsas propostas. Dos beijos de Judas e dos tapinhas nas costas.
Entre aplausos, lágrimas e aclamações, o início de qualquer travessia costuma ser o momento mais inquietante. Nos primeiros dias, deparei-me com o convite à desistência. Os pessimistas questionaram minha pausa em novembro, mês do tokenismo, quando nos querem como mariposas hipnotizadas. Sejamos otimistas. Vivi experiências desconfortáveis e necessárias de janeiro a novembro. Não falhei. Mesmo diante dos dias derradeiros que falsificaram minha realidade e contradisseram Josué 1:3: “Todo lugar em que a sola dos vossos pés pisar será vosso território”.
A priori, escolho o que contar, como contar e por que contar. Talvez não haja meio-termo, mas conhecer os fatos é diferente de conhecer a versão sobre os fatos. Nas brechas abertas, meu inconsciente debochou de mim: “E tu queres desistir?”. Com essa pergunta, vieram outras. Uma caminhada que não tem bala de prata. Escrevo sobre tudo o que vejo e também sobre aquilo que já não consigo ver.
O enredo gira em torno do espetáculo Brasilidade – Muito Prazer, Às Iyálódes (@brasilidade_iyalodes), que busca garantir que a mulher negra seja o centro do debate e das soluções. Nesse mergulho, resgato as frases “Nada sobre nós, sem nós” e “Quem fala de noiz, é noiz”, e aceito o convite para romper a política do avestruz presente em O Avesso da Pele: saber quem somos nós e quem são eles, os outros. Do lado de cá, meu máximo respeito às vozes que aprenderam a falar com, e não sobre.
Curo-me diariamente e reexisto ao som de “Me Curar de Mim”, de Áurea Martins. Sem ensaios, exponho minhas carências e anseio descansar. Quero crer que o descanso é possível, afinal, não sou a única jogadora. A poesia “Descansa, Militante”, de Jéssica Campos, escancara minhas dores e, pela centésima vez, deparo-me com o aviso de despejo. Fui embora muitas vezes.
Assim como no origami, crio personagens que pedem nomes. Já não brigo por discordâncias triviais, como a previsão de chuva, mas me armo diante das “mentiras sinceras”, como cantava Cazuza. Não vejo vantagem em abraçar ilusões. Encaro a realidade e questiono como mudar algo que parece imutável.
É assustador constatar que todos os dias são 20 de novembro. Seja da forma que for, seja quando for, não negligenciarei a importância das pausas. Preciso continuar em frente, sem esmorecer, e permanecer aqui. Mesmo com tudo o que aconteceu, acontece e ainda pode acontecer.
Texto: Fabiana Silva.
Revisão e edição: Brenda Evaristo.










