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Entrevistamos o deputado Orlando Silva: da infância na periferia de Salvador à luta no Congresso

A partir da infância no bairro do Lobato, em Salvador, até sua atuação no Congresso Nacional, Orlando Silva compartilha sua trajetória, as conquistas da luta antirracista e os desafios de ser um homem negro em espaços dominados pela elite branca

Filho de Dona Vanda, orgulho de quatro filhos e companheiro de Fernanda, Orlando Silva faz questão de se apresentar antes de tudo como um homem negro que carrega no corpo e na memória a força de sua família. “Um pai feliz e orgulhoso de quatro filhos, Maria, Pedro, João e Dandara. Filho de Dona Vanda, minha fortaleza e exemplo de vida. Um homem negro, nascido na periferia de Salvador, que pôde conquistar oportunidades graças à força da família, aos estudos e à política, que me trouxe novas lentes para compreender o mundo, me indignar contra as injustiças e lutar por uma sociedade mais justa.”

Criado no bairro do Lobato, em Salvador, Orlando lembra que a realidade da periferia deixou marcas profundas na sua trajetória. “Muitos dos meus amigos de infância não tiveram as oportunidades que tive, muitos sofreram violências que, infelizmente, são comuns num país de racismo estrutural como o nosso. Muitos não estão aqui para contar suas histórias.” Ele nunca esquece que foi a educação e a base sólida de sua mãe que lhe deram “régua e compasso”, como diz o ditado baiano.

O despertar para a militância

Seu despertar para a militância aconteceu ainda na escola. “Sempre fui muito sensível às desigualdades. Por que alguns tinham tanto e muitos não tinham quase nada?”, relembra. No movimento estudantil, percebeu que problemas cotidianos, como a falta de professores ou de quadras esportivas, eram reflexo da ausência de investimento público e precisavam ser enfrentados politicamente. A militância se tornou um caminho sem volta quando assumiu a diretoria da UNE, em São Paulo, no calor das manifestações dos caras-pintadas. “Aquilo foi mágico.”

Hoje deputado federal, Orlando carrega alguns marcos que considera essenciais na sua trajetória: ter sido o primeiro negro presidente da UNE, ter assumido o Ministério do Esporte como o mais jovem ministro da história, e, mais recentemente, ter colocado em pauta conquistas antirracistas fundamentais.

“Tenho muito orgulho de ter sido o primeiro negro a presidir a União Nacional dos Estudantes. Hoje, fruto de décadas de lutas, a universidade é mais democrática, mas até pouco tempo atrás era um espaço quase exclusivo das elites. Também fui o ministro de Estado mais jovem da história, quando assumi o Ministério do Esporte – e um dos únicos negros, pois o primeiro foi o rei Pelé, depois eu.”

A luta antirracista no Congresso

Mas é sua atuação pela igualdade racial que ele destaca como central. “Acho que é importante o que tenho procurado fazer para dar visibilidade à luta antirracista, como, por exemplo, ter aprovado a lei que inscreveu Luiz Gama no panteão dos heróis da pátria, ter presidido a sessão da Câmara que aprovou a adesão do Brasil à Convenção Interamericana contra o Racismo e a Discriminação Racial. São alguns momentos que levarei para sempre na memória.”

Avanços e desafios

Ao olhar para os últimos anos, Orlando avalia que houve avanços importantes, mas insuficientes diante do tamanho da dívida histórica do Brasil. “Talvez o mais emblemático seja a lei de cotas nas universidades públicas, que completou uma década e recentemente aprovamos a renovação por mais uma. Nos últimos anos aprovamos a equiparação da injúria racial ao crime de racismo, há também a lei de cotas para concursos públicos, outro avanço significativo. Visando maior representatividade negra no parlamento, conquistamos cota mínima de financiamento dos recursos do fundo de campanha eleitoral para as candidaturas negras. E temos a possibilidade de aprovar a PEC 27, a PEC da Reparação, que pretende criar um fundo para sustentar iniciativas de reparação e de igualdade racial. Isso terá um papel central na nossa luta.”

Ele não esconde os desafios de ser um homem negro em espaços majoritariamente brancos e elitizados como o Congresso. “A gente enfrenta todos os dias num Congresso majoritariamente branco e comprometido com as elites.” Por isso, insiste na importância da formação política da juventude negra: “É preciso ter consciência de que o racismo é uma técnica de dominação social. Ele opera às vezes de maneira imperceptível, porque está entranhado na sociedade. Ou seja, é preciso dedicação e lutar para se impor e conquistar seu lugar.”

As urgências do presente

Sobre as urgências atuais, Orlando é direto: “Primeiro de tudo, impedir a aprovação desse escandaloso projeto de anistia apresentado pela bancada bolsonarista. Essa proposta é um retrocesso inimaginável, porque premia aqueles que tentaram golpear a democracia em nosso país. E, claro, a aprovação da isenção de imposto de renda até 5 mil reais, que vai ser fundamental na vida de milhões de brasileiros, grande parte deles negros e negras. Que a compensação seja a taxação dos milionários, porque é preciso fazer justiça tributária.”

Também vê na regulação das plataformas digitais uma batalha decisiva. “A internet não pode ser terra sem lei e território livre para o cometimento de crimes, inclusive crimes de racismo, ódio político e contra a democracia.”

Quando fala do futuro, o tom é de esperança e ação. “Sou otimista, porque sou um homem de ação. Creio que temos que lutar e nos empenhar cotidianamente, no Congresso e nas ruas, por mais conquistas. Só assim conseguiremos construir uma sociedade mais justa, democrática e livre do racismo.”

NOTA

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