O Julho das Pretas vai chegando ao fim no calendário, mas jamais deve sair das nossas práticas, das nossas lutas e da nossa consciência coletiva. Criado em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, o mês se tornou um marco para a visibilidade das mulheres negras em sua pluralidade, como força política, potência intelectual, expressão artística e espinha dorsal da resistência brasileira.
Mais do que uma data comemorativa, o Julho das Pretas é um grito ancestral que ecoa nos becos, universidades, palcos, plenários e quilombos. É um chamado à justiça, à memória e à construção de um país que reconheça o papel imprescindível das mulheres negras na sua formação e transformação.
Ao longo do mês, coletivos, movimentos sociais, organizações culturais e ativistas de todo o Brasil se reuniram em rodas de conversa, atos, oficinas, feiras e manifestações para discutir temas urgentes: racismo, feminismo negro, violências de Estado, direito à cidade, saúde mental, maternidade, religiosidade, economia, cultura, educação e afeto. Mas essa energia não pode ser encerrada com o mês. O Julho das Pretas é só o começo: é preciso fazer de cada dia uma trincheira de valorização e escuta das vozes negras femininas.
Celebrar o Julho das Pretas também é reverenciar quem abriu os caminhos. Mulheres como Lélia Gonzalez, intelectual quilombola das ideias, que cunhou o conceito de “amefricanidade” para falar da experiência negra em nossa América; como Conceição Evaristo, que com sua “escrevivência” tornou literatura o que antes era silenciado; e como Beatriz Nascimento, historiadora que nos ensinou que o quilombo não é passado, é presente de resistência e futuro possível.

É também levantar os nomes de quem hoje carrega essa tocha: Eryka Hilton, mulher trans negra ocupando espaços de poder que historicamente nos foram negados; Sueli Carneiro, filósofa e fundadora do Geledés, cuja trajetória é referência na luta contra o racismo e o sexismo; e Djamila Ribeiro, pensadora que popularizou conceitos fundamentais do feminismo negro para milhares de brasileiras e brasileiros, promovendo o letramento racial com coragem e didática.

As mulheres negras vivem uma realidade marcada por duas opressões: o racismo e o machismo. bell hooks fala sobre isso de forma muito potente no livro E eu não sou uma mulher?, mostrando como essas opressões se cruzam e afetam de maneira única a vida das mulheres negras. Muitas vezes, elas não se sentem acolhidas nem pelos movimentos feministas, nem pelas lutas antirracistas, como se tivessem que escolher entre ser mulher ou ser negra. hooks nos lembra que não dá pra separar uma coisa da outra e que reconhecer essa vivência é o primeiro passo para mudar essa história.
O Julho das Pretas não é uma campanha publicitária. É um processo político, afetivo e espiritual que clama por continuidade. É um lembrete de que toda mulher negra tem o direito de ser ouvida, respeitada e celebrada não apenas em julho, mas em todos os meses do ano.
Por isso, que o fim do mês não seja o fim do movimento. Que as sementes plantadas em julho floresçam o ano inteiro. Que cada espaço de decisão, de criação e de existência se lembre: sem as pretas, não há futuro.










