A peça-performance Arqueologias do Futuro, em cartaz até 30 de maio no Teatro Firjan SESI, no Centro do Rio, é mais que um espetáculo: é um exercício de memória, invenção e futuro a partir das experiências vividas no Complexo do Alemão, um dos maiores conjuntos de favelas da cidade. Aclamada pela crítica, a montagem recebeu o Prêmio Shell de Melhor Direção e também foi indicada nas categorias de Dramaturgia e Iluminação.
Dirigida por Dadado de Freitas e idealizada por Mauricio Lima, ator e performer nascido e criado no Alemão, a obra é um desdobramento do projeto Museu dos Meninos – museu virtual que reúne memórias e perspectivas de jovens negros das favelas cariocas, propondo uma arqueologia afetiva dos corpos e territórios periféricos.
No palco, Lima compartilha memórias — reais e inventadas — da sua trajetória no Alemão, em diálogo com 30 vozes de jovens negros, moradores da região, que compõem a coleção permanente do museu. A pergunta que ecoa é urgente: “O que o corpo fala? Quais corpos são vistos e ouvidos? Quem tem direito de narrar suas próprias histórias?”

A performance se articula como uma fábula poética e política, visualmente impactante, que manipula luz, som e imagem para tensionar o visível e o invisível. Entre os “artefatos” encenados, surgem figuras e símbolos do cotidiano das periferias, como o “homem-bola”, a navalha dos barbeiros, rotas de fuga e o chamado corpo-museu, compondo uma radiocoreografia — coreografia para ser ouvida — de forte carga simbólica.
“Trazemos para o palco uma subversão do imaginário social estigmatizante ligado a esses meninos e ao Complexo do Alemão. O que colocamos em cena é a vida e a delicadeza que transbordam do território e dos corpos que ali vivem, em um exercício poético de criação de outras perspectivas de futuro para esse território e essa juventude”, afirma Mauricio Lima.
A trilha sonora original, assinada por Novíssimo Edgar e Beà Ayòóla (também vencedora do Prêmio Shell 2025 com Amor de Baile), alia-se à direção de arte de Evee Ávila para compor uma experiência sensorial intensa. “A peça materializa, em cena, a tensão entre o visível e o invisível, radicalizando a relação entre luz, som e movimento em uma experiência sensorial única. Uma manipulação imagética para que ecoe uma pergunta fundamental: ‘Você consegue me ver?”, destaca Dadado de Freitas.
Originalmente prevista para estrear em 2020 no International Community Arts Festival (ICAF), na Holanda, Arqueologias do Futuro teve sua estreia adiada pela pandemia e ganhou novos contornos no ambiente virtual, com uma performance online que circulou por festivais como a Mostra CineBH e contou com encontros com intelectuais como Djamila Ribeiro e a luso-guineense Joacine Katar Moreira. A montagem presencial estreou no Festival de Curitiba em 2023 e passou por temporadas no Rio, São Paulo e festivais como o Mirada, promovido pelo SESC-SP. Em 2026, a expectativa é finalmente levá-la à cena internacional, em Rotterdam, cinco anos após a estreia planejada.
Museu dos Meninos: memória, arte e resistência
O Museu dos Meninos, projeto que deu origem à peça, foi criado por Mauricio Lima em 2019 e indicado ao 34º Prêmio Shell na categoria “Energia Que Vem da Gente”. Comissionado inicialmente pela Prince Claus Fund, o museu virtual reúne vídeos-depoimentos de jovens negros entre 15 e 29 anos, moradores do Complexo do Alemão e arredores. A proposta é preservar e inventar memórias negras e faveladas, em um exercício coletivo de futuridade.
A seleção dos participantes levou em conta jovens dentro do recorte estatístico de mortalidade da juventude negra, além da diversidade de experiências com a masculinidade, buscando subverter as narrativas de estigmatização.
Sinopse
Arqueologias do Futuro é uma performance-depoimento que parte das memórias do performer Mauricio Lima no Complexo do Alemão, em diálogo com 30 vozes da juventude negra local. A partir de objetos simbólicos como uma navalha, o Menino Amarelinho, o homem-bola e rotas de fuga, a peça constrói um mosaico poético e político que mistura ficção e documento. A pergunta central é sobre o futuro: não aquele que virá, mas o que já se realiza nos corpos vivos e em movimento.
Serviço
Arqueologias do Futuro
Duração: 50 minutos
Classificação: 14 anos
Teatro Firjan SESI – Centro
Av. Graça Aranha, 01 – Centro, Rio de Janeiro
Quando: até 30 de maio de 2025
Sessões: quintas e sextas, às 19h
Ingressos: R$ 40 (inteira) | R$ 20 (meia)
Venda: Sympla
Teaser da peça: Assista aqui
Fotos: Rodrigo Menezes.










