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Personagens Pretas no RPG ou fugindo do perigo da história única

Written by Luciano de Jesus

Quando li o livro da Ursula K. Le Guin “a mão esquerda da escuridão” cheguei a ler cerca de 50 páginas sem notar que o protagonista, Genly Ai, um Emissário do Ekumen (uma espécie de Confederação Planetária), era um homem negro. Não sei se isso ocorreu por pura desatenção, mas confesso que aprendi algo que tenho tentado mudar na minha bússola:

A normalidade é branca.

Estraven e Genly Ai, personagens do livro de Ursula K. Le Guin (fonte: devilevn)

Mas, o que estou propondo com essa formulação? Aprendemos desde sempre, que heróis são sempre brancos. Que protagonistas são sempre homens brancos. Ou seja, em algum momento de nossas formações, cristalizamos a ideia que personagens não brancos, só podem ocupar alguns lugares específicos: o da violência gratuita, do exotismo, da bestialização. Parece que não possuímos outras formas de existência, mas Ursula K. puxa o tapete.

Mas e no RPG? Como ficamos? Não há muita diferença. Aprendemos logo cedo a sempre escolher personagens diferentes do que somos. Mas, isso é um problema? afinal, o RPG não é a possibilidade de vivermos personagens diferentes? Sim, mas, onde estava escrito que o jovem vampiro do Clã Toreador não pode ser um moço de pele de ébano, usando um corte ousado? Onde aprendemos que o vodoo é algo maligno? Quem disse que não posso jogar aquela campanha de D&D com uma clériga de pele escura e longas tranças? Quem disse que a fantasia “medieval” possui somente uma expressão?

Faltam boas reflexões sobre os desdobramentos raciais em histórias de RPG. Balogun Ojetade, um dos autores do cenário Ki Khanga fala sobre a forma como ele foi introduzido ao RPG e até mesmo como algumas raças das primeiras edições de D&D refletiam um olhar racista em relação a diferentes povos. Não me parece gratuita, por exemplo, as variações raciais de vantagens e desvantagens de orcs, assim como o modo como a cultura orc é tratada como algo “atrasado”. Ou seja, as construções raciais, que dizem que religiões de matriz africanas são colocada num lugar subalterno, observações que colocam a as tradições orais num lugar menos importante, mostram que as observações sobre a trama canônica de um livro possuem suas inspirações que não são gratuitas. Hierarquizam práticas, criminalizam costumes, tomam observações diferentes sob uma mesma perceptiva: logo, a normalidade é branca.

Mas qual a saída? propor novas perspectivas! Mulheres não são somente a princesa indefesa que deve ser salva. E mulheres negras precisam ser vista sob a mesma ótica. Em Wakanda, por exemplo, no arco “uma nação sob os nossos pés”, notamos que elas ocupam diferentes lugares: conselheiras, lideres da resistência, ferozes combatentes… E todas as participações estão em um prisma nada monocromático! Isso contribui para a construção de boas histórias, de cenários mais cativantes!

 

Dora Milaje. Guarda a serviço da realeza de Wakanda

 

Rainha Ramonda. Rainha de Wakanda

 

E os vilões? Ora, podemos ter vilões de pele preta. Afinal, somos diversos. O problema está nas motivações, no modo como suas histórias são contadas. Um exemplo muito interessante é o personagem de Samuel L. Jackson no filme “Corpo Fechado” (2000).  Elijah Prince sofre com uma doença rara, mas sua trama não se limita a sua doença. Ele é um artista, apaixonado por quadrinhos, além de não ser o personagem motivado pela violência gratuita, lugar sempre reservado para pretos. Ele é complexo, possui motivações e a trama o coloca no lugar de vilão, mas sua humanidade nos aproxima desse personagem… Ou seja, fugimos do maniqueísmo clichê para enriquecer a história que estamos construindo, ou presenciando. Outro exemplo, vejam, pode ser o personagem vivido por Mahershala Ali no maravilhoso “Moonlight” (2016). Juan é um traficante, contudo, a trama não o coloca no lugar objetificado. Ele é parecido com cada um de nós, homens pretos: possui sonhos, se preocupa com o caminho trilhado por pelo personagem principal, diferente da bestialização construída nas novelas brasileiras, por exemplo. Aliás, esse filme precisa ser assistido por homens pretos, como muito bem fala o querido Fabio Kabral nesse texto aqui.

Elijah Price, personagem de Samuel L. Jackson em “corpo Fechado”

 

Juan e Pequeno em “Moonlight”

Em nossas aventuras de RPG a construção de bons personagens, longas campanhas, aventuras em eventos, aventuras curtas, pensando em homens e mulheres pretas em uma noção mais ampla, precisa romper com o perigo da história única. Contudo, ao construirmos personagens com essa perspectiva, seremos incentivados a pensar e consumir cenários afro-centrados. Ou seja, Wakanda, o Recôncavo Baiano, o quilombo de Palmares, ou a Nova Orleans da década de 30 do século passado apresentariam novas (e riquíssimas) questões. Mas isso é papo para outro momento.

 

Desejo que vocês sigam rolando dados e contando (boas) histórias.

 

ps: Para seguir pensando no tema vejam esse vídeo. Minha contribuição ao Canal Ordem do Dado.

ps2: A imagem que está no título da postagem foi pensado por mim e a minha querida Bruna Nora e é um dos personagens que mais gostei de construir. Estamos jogando A Campanha do sistema Numenera no canal do RPG Notícias. Dá uma conferida lá!

ps3: Outro texto super legal sobre esse tema foi escrito pelo meu amigo querido, Rafael Cruz do RPG Notícias. O texto com o título “Ah, então seu personagem é negro?“.

Sobre o Autor

Luciano de Jesus

Um professor indeciso (Não sou "Educador Físico", muito menos "profissional de educação física"), atleticano (Galo Doido!), rpgista nerd preto de esquerda (Seja lá o que isso significa...). Sou legal. As vezes.

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