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Macabéas latino americanas e Zumbi, já foram pra Bolívia

bolivianos

Por Heitor Antônio Paladim Junior, para o Jornal Empoderado:

 

bolivianos

“Novo tempo sempre se inaugura
A cada instante que você viver
O que foi já era, e não há era
Por mais nova que possa trazer de volta
O tempo que você perdeu, perdeu, não volta
Embora o mundo, o mundo, dê tanta volta
Embora olhar o mundo cause tanto medo
Ou talvez tanta revolta” (Gilberto Gil/ Era Nova).

 

       Conhecer e refletir sobre a migração de um modo geral e a imigração de maneira mais específica são maneiras importantes para desfazermos alguns entendimentos equivocados sobre a vida na sociedade hodierna. Temos muitos lugares comuns, que precisamos ampliar, para entendermos as complexidades dessas mobilizações de povos. Assim reconstruir, revelar e realçar é uma maneira interessante de troca entre culturas que a mobilidade dos povos propicia. São Paulo é um município que educa nesse sentido, desde que reneguemos o ódio de pessoas racistas e preconceituosas ou dos desavisados que abraçam estereótipos das mais variadas origens.  

 

      Esse foi um dos objetivos do Núcleo de Educação Étnico-racial/ da Secretaria Municipal de educação da Prefeitura de São Paulo entre 2010 a 2016, propiciar formação continuada aos/as profissionais da Rede Municipal de Educação em São Paulo nos termos das leis 10639/03 e 11645/08 que obrigava o ensino aprendizagem de cultura afrodescendente e indígena no currículo das escolas. Nesse tempo todo, a questão negra e indígena se reuniu a questão dos bolivianos, pois os/as adultos/as vieram e vem com famílias e as crianças e jovens estão e estarão nas escolas. Os educadores e as educadoras do município precisam aprender sobre os pais e mães e também sobre o País dessas crianças e jovens. Todo conhecimento é bem vindo no sentido de ampliar o repertório e propiciar relacionamentos mais adequados. A escola nunca será uma redoma. Em tempos de escola sem recursos precisamos de escolas culturalmente globalizadas de fato.

 

         Uma das aprendizagens oferecidas apresenta o Brasil enquanto um país migrante, um país de migrantes. Os povos indígenas já migravam no território nos tempos da Pindorama. Africanos foram arrancados de AFrica e de seus modos de vida e famílias e com esses raptos maquinados por um esquema mercantil cruzaram o oceano, esse foi o exemplo de imigração forçada mais nefasto de todos os tempos do nosso planeta. Construíram nosso país renegando a esses fatores, senão observemos o que são os vários quilombos que remanesceram, podemos apontar como mobilidades construídas na resistência: Aganju, Xangô,Alapalá, Alapalá, Alapalá, Xangô, Aganju.”

 

       No país e em São Paulo, atualmente os bolivianos e bolivianas são as pessoas que compartilham a cidade conosco. Vamos nos reportar a outras nacionalidades e povos  em outro texto. Cientificamente está comprovado que o que mobiliza e faz com que venham de sua nação ao Brasil, é como vão ganhar a vida. Trabalho é a categoria que explica a mobilidade, seja por guerras e/ou por perseguição politica, as pessoas não conseguem se reproduzir e por isso mudam “seu aqui”, como diz o Gilberto Gil, esse é um onde indefinido. Todas as decisões e sentimentos giram em torno disso, a categoria Trabalho. Uma praça, uma rua e duas feiras, reconhecidas pela política pública. Praça da Kantuta (perto do estádio do Canindé) e Rua Coimbra (próxima à estação do metro) e adjacências são hoje dois pontos onde a comunidade boliviana resiste e se locupletam em suas culturas, onde o Trabalho os mantem. Você conhece essas duas feiras? A da Rua Coimbra acontece aos sábados à tarde e a feira da Praça da Kantuta, que já existe há quase duas décadas, acontece aos domingos de manhã. Obviamente temos também as mazelas das oficinas de costuras. Mas quis falar da feira para não ficarmos no lugar comum.

 

          O que nos contam é que são muitos e muitas e por isso estão esvaziando a Bolívia: Isso é Falso. A Bolívia tem mais de 10 milhões de pessoas, estima-se que de 300 a 400 mil são emigrantes em várias partes do mundo. São Paulo tem de 100 a 200 mil aproximadamente. Saíram por causa da Guerra da Água? A Bolívia passou por um processo recente (menos de duas décadas) de mudanças desde o começo do século, deixou de ser um Estado Nação com base eurocêntrica (Essa figura sócio territorial foi criada na Europa) para ser uma Nação Pluriétnica. Esse movimento não foi construído de cima para baixo como o Golpe recente no Brasil, que contou com patos amarelos nas ruas para despistar e dar um ar de democracia. Os povos originários que compõe a Bolívia (em torno de 52 etnias) construíram uma mudança horizontalizada, uma constituição participativa e uma maneira de organizar o país que é inédita na humanidade. Muito disso tudo vem para cá com eles e elas. Você sabia que o dinheiro brasileiro vale muito mais que a unidade monetária na Bolívia? Esse poderia ser um fator de mudança?

 

           Nossos/as bisavós/ôs, avós/ôs, pai e mãe vieram de fora de São Paulo por qual motivo? Os migrantes que já fomos e somos, precisam entender e aceitar os imigrantes atuais como uma oportunidade para aprendizagens culturais entre outras possibilidades humanas. Guerra da Água e outros assuntos aprofundaremos em outros textos. Para encerrar esse artigo, que demarca nosso começo de conversa sobre os povos que migram para cá, podemos consagrar os 40 anos de Refavela, então cabe lembrar que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.

 

           Heitor Antônio Paladim Junior é pesquisador, mestre em Geografia e professor. Quinzenalmente escreverá no Jornal Empoderado. 

Sobre o Autor

Prof Diogo Dionizio

- Historiador
- Professor de História na Rede Pública de São Paulo (SEE e SME)
- Pedagogo
- Militante da UNEGRO Mogi das Cruzes
- Militante do Coletivo ORUN (Organização e Resistência União Negra)

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