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João do Belmonte lança o livro ‘Coração de Geladeira’ sobre o projeto que levou 100 mil livros para as periferias

Foto: Sarah Avelina - escritor João do Belmonte do projeto Geloteca

Pernambuco está literalmente marcado, em forma de tatuagem,  de ponta a ponta no peito do escritor, educador, dançarino e artista plástico João do Belmonte, de 42 anos, radicado em Guaianazes, na zona leste da capital paulista.

O nome do estado nordestino onde nasceu e de onde vem toda a sua família é, em essência, um paralelo poético da vida e obra de João Belmonte. Pernambuco tem dez letras e nenhuma delas se repete, formando uma sonoridade harmoniosa, diversa e única. O nome Pernambuco tem a força de quem nunca desiste e segue sempre em frente.

João chegou em São Paulo no início dos anos 90 e passou por maus bocados na escola pública onde era chamado de ‘baianinho’ e zoado por conta do sotaque e da origem nordestina. 

“Cheguei em São Paulo com sete anos e já fui direto para o primeiro ano, em Pernambuco não tinha pré-escola em 90. Tenho até trauma dos primeiros anos pq eu sofria bullying por ser nordestino, me lembro de apanhar na escola”, relembra.

Agora em 2026, João está lançando o seu primeiro livro: ‘Coração de Geladeira – o projeto que aquece a leitura nas periferias’, sobre a história do seu principal projeto social e de incentivo à leitura chamado Geloteca SP, que completa 10 anos de existência.

A ideia é simples, genial e de grande impacto social e ambiental. João usa as suas habilidades e talentos artísticos para pintar e decorar carcaças de geladeiras que seriam jogadas fora, transformando-as em estantes para livros expostos em locais públicos e com trânsito de pessoas. 

“Cada livro compartilhado da geloteca se torna um ato de sabedoria de quem doa e de quem acessa, do povo para o povo! pode pegar de forma gratuita, e quem tem livro em casa é estimulado a doar. O livro que livra, conhecimento que liberta.  Uma reinvenção da pedagogia da autonomia de Paulo Freire”, diz.

Por conta de conexões e redes, o artista educador fez mais de 1.000 gelotecas que estão espalhadas pelo Brasil, a maior parte delas nas periferias da cidade de São Paulo e na região metropolitana.  “Em dez anos, foram cerca de 100 mil livros circulados em mais de 400 gelotecas espalhadas em São Paulo”, comemora.

Antes de começar as gelotecas, em 2016, inspirados em iniciativas semelhantes em outras quebradas do Brasil, João do Belmonte era o organizador de um sarau.

“Era sarau chamado Sarau da quebrada, que começou em um bar. E nesse bar eu deixei uns livros em uma prateleira.Um ano depois eu criei um ateliê biblioteca comunitária”, relembra.

A primeira geloteca foi em barbearia de um amigo, na frente da casa da merendeira Silmara de Moraes, que ficou famosa nacionalmente por salvar dezenas de alunos durante o massacre de 2019 na escola Raul Brasil, em Suzano. “Ela é minha vizinha e sempre curtiu meu trabalho de graffiti.A primeira foi na frente da casa dela”, diz.

Nem sempre a chegada da geloteca foi vista como um avanço social, muitas delas foram vandalizadas e destruídas, mas isso não fez o artista parar. “Tinha gente que tinha prazer em ir lá quebrar. Eram pessoas que nunca tinham feito nada pelo bairro e que não queriam que ninguém fizesse”, recorda.

Essas e outras histórias sobre o projeto estão no livro, lançado pela editora Kimtembo, com preço de R$ 30 na pré-venda. Informações pelo instagram @projetogelotecasp.

Um dos projetos futuros do João do Belmonte é criar um centro cultural, numa casinha de madeira, na cidade de São José do Belmonte, onde nasceu. 

Nessas três décadas de trabalho como incentivador da cultura hip-hop, do graffiti, da leitura e das artes, João do Belmonte formou milhares de alunos da rede pública durante oficinas e cursos em todos os cantos da cidade. 

“O Projeto geloteca é a práxis do quinto elemento do hip hop (o Conhecimento), sobre a minha visão de unir o graffiti e a educação. É como uma reinvenção de Paulo Freire nas periferias”, diz. 

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