Edital selecionará dez organizações, grupos, coletivos, redes ou movimentos em todo o país; cada iniciativa receberá R$ 300 mil, com foco no desenvolvimento institucional
O Fundo Baobá abre, no dia 14 de setembro, as inscrições para a segunda edição do edital de apoio coletivo do Programa Marielle Franco. Serão selecionadas dez organizações, grupos, coletivos, redes ou movimentos de mulheres negras (pretas e pardas) cis, trans ou travestis de todo o país. As iniciativas podem ser formalizadas ou não, ou seja, com ou sem CNPJ, e cada uma receberá R$ 300 mil ao longo de 20 meses, com foco no desenvolvimento institucional, totalizando um investimento direto de R$ 3 milhões. As inscrições são gratuitas e vão até 19 de outubro de 2026.
A nova chamada dá continuidade ao Programa Marielle Franco, criado em 2019 pelo Fundo Baobá para ampliar e consolidar a participação de mulheres negras em espaços de poder e influência. Desde então, o programa combina investimento financeiro, formação e fortalecimento institucional de organizações e lideranças negras. A iniciativa é realizada com o apoio da Fundação Kellogg, Fundação Ford, Open Society Foundations e Instituto Ibirapitanga.

O Edital de Apoio Coletivo foi concebido para fortalecer organizações de mulheres negras, ampliando suas condições de atuação por meio do desenvolvimento institucional e do investimento em suas lideranças. Na primeira edição, o Programa apoiou organizações já enraizadas em seus territórios a fortalecer sua gestão, ampliar parcerias e ocupar novos espaços políticos, comunitários e institucionais.
Quem pode participar e como será a seleção
Podem se inscrever organizações, grupos, coletivos, redes ou movimentos com ou sem CNPJ e com atuação iniciada em 2024 ou antes. A composição deve ter pelo menos 85% de mulheres negras tanto na diretoria quanto entre as integrantes. O processo seletivo terá quatro etapas: análise dos pré-requisitos; avaliação das informações apresentadas no formulário de inscrição; entrevistas e análise final por um Comitê de Seleção. A seleção considera a proposta apresentada e as condições para sua realização, respeitando as diferentes formas de organização e os contextos territoriais de cada iniciativa.
Redes, movimentos, grupos e coletivos que acumulam conhecimento sobre suas comunidades e desenvolvem soluções a partir de suas próprias experiências nem sempre encontram as mesmas condições de acesso aos recursos da filantropia. O apoio financeiro busca ampliar a autonomia dessas iniciativas e as condições para que desenvolvam plenamente sua missão de transformação social.
Em caso de empate, terão prioridade organizações com perfis que historicamente encontram mais obstáculos no campo do financiamento, entre elas:
- Iniciativas das regiões Norte e Nordeste;
- Iniciativas formadas por mulheres negras quilombolas, ribeirinhas e de comunidades tradicionais; Iniciativas que atuam em territórios periféricos, rurais e do interior;
- Iniciativas que promovem a participação de diferentes gerações, presença de mulheres com deficiência e protagonismo de mulheres negras LGBTQIAPN+;
- Iniciativas com menor número de financiadores Iniciativas que nunca receberam apoio do Fundo Baobá anteriormente.
- Iniciativas que nunca receberam apoio do Fundo Baobá anteriormente.
“A segunda edição do edital de apoio coletivo do Programa Marielle Franco reforça o compromisso do Fundo Baobá com o fortalecimento de organizações de mulheres negras em nosso país. A partir dos aprendizados e resultados da primeira edição e da escuta do campo, lançamos uma segunda edição com uma oferta redesenhada, reafirmando nossa visão sobre a importância do desenvolvimento e fortalecimento institucional das organizações. O objetivo do edital é apoiar um processo factível de ampliação das capacidades das organizações e de suas lideranças, entendido por nós como condição central para a sustentabilidade de sua atuação. Acreditamos que esse processo é essencial para que elas possam, por seus próprios caminhos e objetivos, manter-se atuando em condições estruturadas, de modo a seguirem capazes de enfrentar os desafios de suas lutas e cumprirem suas missões”, afirma Tainá Medeiros, Gerente de Programas do Fundo Baobá.
Primeira edição combinou investimento, formação e desenvolvimento institucional
A primeira edição do Programa Marielle Franco foi lançada em setembro de 2019. Foram selecionadas 15 organizações no edital de Apoio Coletivo. Entre as organizações participantes do edital de Apoio Coletivo, o investimento direto variou de R$ 70 mil a R$ 170 mil. O apoio financeiro foi acompanhado por atividades voltadas ao desenvolvimento político, ao cuidado diante dos efeitos psicossociais do racismo e ao fortalecimento institucional.
Para as organizações, grupos e coletivos, o programa ofereceu ainda sessões de assessoria técnica para a revisão de planos de ação, indicadores e metas. A avaliação da primeira edição registrou avanços em áreas como gestão, articulação em rede, estabelecimento de parcerias e capacidade de atuação nos territórios. Organizações apoiadas relataram também maior presença em espaços políticos e institucionais e melhores condições para dedicar recursos a aspectos de sua estrutura que anteriormente não conseguiam priorizar.
A experiência extrapolou as participantes diretamente envolvidas: mais de 500 mil pessoas foram impactadas indiretamente e mais de mil atividades de compartilhamento de conhecimentos realizadas durante a primeira edição.
Para Diana Mendes, uma das diretoras do Mulheres Negras Decidem, organização que esteve entre as 14 selecionadas na primeira edição do Programa, em 2019, o apoio do Fundo Baobá foi fundamental para que o movimento ganhasse estrutura e autonomia naquele momento de sua trajetória.
“Quando fundamos o Mulheres Negras Decidem, nossa dedicação era voluntária e estávamos muito voltadas à construção e ao fortalecimento do movimento, inicialmente com as articuladoras da região Sudeste, antes de conseguirmos ampliar nossa atuação para todo o país. O apoio do Fundo Baobá nos deu a possibilidade de dedicar integralmente nosso tempo à construção política do movimento. Isso fez toda a diferença para estruturar o Mulheres Negras Decidem e consolidar nossa atuação nacional, que hoje está presente em 19 estados. Foi também o primeiro apoio que possibilitou a criação de uma equipe executiva do movimento, e isso foi fundamental para chegarmos onde estamos hoje”, afirma.
Ela também destaca a importância que o apoio teve em sua própria trajetória e na consolidação de um movimento político voltado à participação de mulheres negras. “Aquele momento foi muito importante e significativo na minha vida, porque consolidava a fundação de um movimento pensado por e para mulheres negras e nos fazia compreender ainda mais o quanto essa iniciativa era necessária e poderia mobilizar mulheres onde quer que elas estivessem. Pensar a existência e a atuação das mulheres negras é crucial para fortalecer a organizações, coletivos e a articulação entre mulheres negras.”
Mulheres negras no Brasil: presença demográfica e desigualdades de acesso
As mulheres negras formam uma parcela expressiva da população brasileira. Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher – Raseam 2026, elaborado pelo Ministério das Mulheres com dados da PNAD Contínua, 56,2% das mulheres se declararam pretas ou pardas. Isso corresponde, aproximadamente, a 61 milhões de mulheres ou 28,8% da população brasileira.
No Norte e Nordeste do Brasil, justamente duas das regiões priorizadas pela nova chamada, a proporção de mulheres pretas ou pardas chegava, respectivamente, a 77,3% e 73,9% da população feminina.
No mercado de trabalho, os recortes de raça e gênero continuam aparecendo tanto nas condições de inserção quanto no acesso a postos de decisão. Dados do quarto trimestre de 2025 da PNAD Contínua, analisados pelo DIEESE, mostram que 39,9% das mulheres negras ocupadas estavam na informalidade, ante 30,5% das mulheres não negras. Apenas 2,1% das mulheres negras ocupadas estavam em cargos de direção ou gerência.
Os dados afirmam que o principal desafio da transformação social das mulheres negras ainda inclui participação política, justiça reprodutiva, cuidado, direito à terra, à moradia e à justiça ambiental, educação, saúde, trabalho e cuidado. Segundo o Estudo da Marcha ao Bem Viver a reparação histórica só se concretiza com a transferência real de poder e investimentos. Quando as organizações e redes de mulheres negras acessam recursos financeiros, técnicos e institucionais, os efeitos multiplicadores incluem eficácia na incidência política, soluções integradas para problemas complexos, autonomia e transformação de território, além de protagonismo em redes globais e locais.

Os indicadores também ajudam a dimensionar o contexto em que atuam as organizações às quais a nova edição do Programa Marielle Franco se dirige. Mulheres negras são maioria entre as mulheres brasileiras e estão presentes em diferentes territórios, movimentos e formas de organização social. Ao mesmo tempo, os dados registram desigualdades persistentes no acesso à educação, ao trabalho protegido, à renda e aos espaços de direção. O Apoio Coletivo se insere nesse cenário fortalecendo organizações construídas e lideradas por mulheres negras, reconhecendo seus conhecimentos, suas trajetórias e sua capacidade de formular respostas para os territórios e comunidades onde atuam.
Sobre o Fundo Baobá
Criado em 2011, o Fundo Baobá é o primeiro e maior fundo patrimonial independente voltado exclusivamente para a promoção da equidade racial para a população negra no Brasil. Desde sua fundação, o fundo atua por meio de investimento em temas prioritários, articulação social e mobilização de recursos que apoiam lideranças, grupos, movimentos, coletivos e organizações negras nas mais diversas regiões do Brasil. Em pouco mais de uma década, o Fundo Baobá já apoiou mais de 1.300 iniciativas, alcançando mais de 1,3 milhão de pessoas de forma indireta. Sua força está no compromisso com uma filantropia ética, transparente, baseada em escuta, corresponsabilidade e permanência. As áreas prioritárias do trabalho do Fundo Baobá são: Educação, Comunicação e Memória, Desenvolvimento Econômico e Viver com Dignidade.
Mais informações:
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