Foto: Yluska Gaiao
Atlântica Permanência
Quando a ancestralidade veste o presente!
A ancestralidade nem sempre precisa ser explicada. Às vezes, ela simplesmente está ali — no corpo, na memória, na maneira de caminhar, de se reconhecer e também de se vestir.
É a partir desse olhar que Karutê Yakatara apresenta a nova coleção da Giraafro, “Atlântica Permanência”, no dia 19 de setembro, em João Pessoa. A proposta nasce do encontro entre ancestralidade, identidade negra, memória, diáspora e contemporaneidade.
Antropóloga, pesquisadora, capoeirista, artista e designer de moda, Karutê criou a Giraafro em 2020, durante o período de isolamento provocado pela pandemia. O momento, que para muitos representou apenas ruptura e escassez, foi também para ela um período de reconexão e reinvenção, especialmente com aquilo que chama de cuidado com o Orí, palavra de origem Yorubá que significa cabeça.
Desde então, a Giraafro vem transitando por diferentes territórios: moda, antropologia, arte, espiritualidade e as conexões entre África, Brasil e diáspora. Mais do que uma marca, tornou-se uma forma de colocar a ancestralidade em movimento.
Essa trajetória também passa pelas experiências e pesquisas de Karutê no Benin, incluindo sua aproximação com os povos Baatonu e Fulani. Essas vivências aparecem nas peças e ajudam a construir uma estética que não pretende olhar para a ancestralidade como algo parado no tempo.
“Atlântica Permanência” nasce justamente dessa pergunta: o que permaneceu em nós depois da travessia?
A coleção olha para a travessia dos oceanos e das gerações, mas também para aquilo que continua existindo nos corpos negros contemporâneos. É uma reflexão sobre memória, deslocamento, transformação, encontro e continuidade.
Existe ainda uma provocação importante no trabalho: ampliar os lugares onde os tecidos africanos podem estar. Não apenas em ocasiões especiais ou em espaços tradicionalmente associados às religiões de matriz africana, mas também no cotidiano, no trabalho, nas celebrações e em diferentes momentos da vida.
Foto: Yluska Gaiao
A nova coleção reúne doze looks exclusivos, entre quimonos, jardineiras, sobreposições, camisas, alfaiataria, blazers e calças, incluindo peças sem gênero. Tecidos africanos encontram diferentes texturas e modelagens contemporâneas, levando essa ancestralidade para os corpos reais e para a vida cotidiana.
E talvez seja justamente aí que esteja a força de “Atlântica Permanência”: permanecer não significa ficar parado.
Como diz Karutê, a ancestralidade está na memória, no corpo, na forma como nos reconhecemos e também na forma como nos vestimos. É permanecer sem deixar de se transformar.
O lançamento acontece no dia 19 de setembro, às 17h, no Casarão Criativo, em João Pessoa, com desfile da coleção e apresentação musical de Os Marajazz. A entrada é gratuita.
A ancestralidade atravessou o tempo. Agora, ela veste o presente.
Notas do Pié
A diáspora, em todo o planeta, provoca encontros, deslocamentos e miscigenações. Povos que deixam seus países, muitas vezes por guerras, questões humanitárias ou em busca de melhores condições de vida, carregam muito mais do que seus pertences. Levam sua cultura, sua arte, seus saberes e sua memória. A diáspora tem seu lado doloroso, muitas vezes marcado por rupturas e traumas. Mas nela também existe a possibilidade do encontro, da busca pelo novo, das oportunidades e da construção de novas histórias. O Brasil é feito de muitos desses encontros. Culturas que chegaram de longe fincaram seus pés aqui e ajudaram a construir o país que somos. É nesse contexto que a história de Karutê Yakatara ganha uma dimensão especial. Sua trajetória, sua pesquisa e sua relação com a ancestralidade se transformaram em criação e em empreendedorismo. A Giraafro nasce desse movimento de reconexão e coloca a ancestralidade em movimento. Apoiar o empreendedorismo preto é reconhecer que essas histórias também movimentam a economia brasileira. É entender que cultura, criatividade, conhecimento e identidade também produzem valor e abrem caminhos. E talvez seja essa uma das belezas da diáspora: o que um dia foi arrancado de um lugar encontra, em outro, espaço para florescer novamente.








