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Entrevistamos o professor Flavio Muniz, do canal Caçador de Histórias, sobre racismo, educação e história afro-brasileira


Historiador conta sua trajetória da pobreza no norte de Minas ao mestrado, revela ataques racistas e explica por que transformar educação é sua missão de vida

A história de Flavio Muniz começa muito antes do Caçador de Histórias se tornar referência na internet. Filho de uma família pobre do norte de Minas, segundo de cinco irmãos, ele lembra que a desigualdade racial marcou sua infância.

“Eu tive que começar a trabalhar muito cedo, já estava trabalhando a sete, oito anos de idade”, conta. Ele relata que foi criado pela mãe, que lutava para sustentar a família, enquanto o pai estava ausente. O estudo foi a única porta que encontrou: “Uma das únicas oportunidades que me surgiu foi estudar. E estudar e trabalhar, obviamente”.

O gosto pela leitura surgiu por volta dos nove anos e, na adolescência, veio a percepção da desigualdade racial que atravessava sua vida e o país. Flavio destaca também a importância de filmes que marcaram sua formação, como Malcolm X e Sarafina! O Som da Liberdade, que o fizeram refletir sobre resistência e colonialismo.

Seu caminho até a universidade não foi linear. Antes de se tornar historiador, foi técnico de enfermagem, estudou administração e, junto com a esposa, criou um projeto social na periferia de Uberlândia, dando reforço escolar e aulas de luta para crianças em vulnerabilidade.

A decisão de fazer História veio apenas no final dos anos 2010. “Eu escolhi História porque acreditei que me ofereceria as ferramentas necessárias para servir melhor a comunidade”, afirma. E foi no curso que percebeu algo que mudaria sua vida: a ausência quase total de conteúdo sobre África e população negra.


Como nasceu o Caçador de Histórias

Foi dessa lacuna que surgiu a ideia de criar um canal no YouTube que abordasse História da África de maneira séria, fundamentada e acessível. Ele conta que percebeu duas barreiras principais: professores não são formados para ensinar África e não há interesse institucional em mudar isso. Com isso, a obrigatoriedade da Lei 10.639/2003 fica apenas no papel.

“Eu gostaria muito de começar a produzir algo para colaborar com esse ensino. Essa foi minha ideia inicial”, lembra. Mas faltavam recursos, equipamentos e conhecimento técnico. A virada veio anos depois, quando um ex-aluno do projeto social o ajudou a entender mídias digitais.

O nome surgiu inspirado no historiador Carlo Ginzburg: “O historiador é como um caçador que fareja e encontra pistas. Eu me vi nessa situação”.

Flavio tentou diversos formatos até consolidar o modelo atual, que exige entre 30 e 50 horas de trabalho por semana, entre pesquisa, roteiro, gravação e edição.


As resistências e o racismo enfrentados por quem ensina história da África

Produzir conteúdo antirracista no Brasil tem um preço alto. Flavio diz que ataques são cotidianos.

“Eu recebo inúmeros ataques racistas, inúmeros ataques violentos”, afirma. Ele, porém, decidiu que não deixaria o canal ser pautado pelo ódio: “Eu proponho a pauta. Eu não quero deixar que racistas me pautem”.

Ao falar sobre temas como escravidão, origem do racismo ou o papel da Igreja Católica na escravização, grupos se mobilizam para atacá-lo. Flavio bloqueia perfis quando necessário e segue adiante.

Para ele, o enfrentamento inclui também lidar com resistências dentro do próprio povo negro, muitas vezes atravessado pela falta de consciência histórica. Ele cita Steve Biko para lembrar que ninguém nasce negro: “A consciência negra independe da cor da pele. É reconhecimento histórico de si e ação transformadora”.


O ensino de História Africana no Brasil: avanços mínimos e fracasso estrutural

Flavio é categórico ao avaliar a implementação da Lei 10.639: “É uma lei ineficaz e ineficiente”.
Para ele, faltam formação docente, investimento público e mudanças estruturais: “Não pode ficar apenas na responsabilidade do professor de História”.

Ele defende currículos que abordem fundamentos africanos, filosofia, cosmogonias, migrações, artes e história pré-escravidão. “A escravidão é apenas um processo dentro da história da África. Ela não é o começo nem o fim.”


O impacto do canal e os relatos que o emocionam

O Caçador de Histórias já mudou vidas, e Flavio recebe diariamente mensagens potentes.

“Sou negra, e essa aula me ajudou a conhecer mais sobre meus ancestrais… isso é resistência”, escreveu uma seguidora em um dos comentários.

Ele guarda centenas de relatos como esse. “Recebo isso sempre, sempre, sempre.”


O episódio histórico que todo brasileiro deveria conhecer

Quando perguntado sobre um único conteúdo essencial para compreender a diáspora africana, Flavio escolhe sua aula sobre a origem da palavra “negro”. Confira abaixo:

“Ali demonstra onde surgiu, como surgiu, quem criou as primeiras classificações para pessoas de pele escura e como isso se tornou um problema para a gente”, explica.

Ele também recomenda o episódio sobre consciência negra, por mostrar como o movimento rompeu com o olhar colonial imposto às populações negras.


O futuro do Caçador de Histórias e a missão de educar

A maior transformação da vida de Flavio veio em 2021, quando foi internado com Covid-19 e passou 17 dias entubado. “Perdi minha saúde, fiquei sem movimentos, demorei a me recuperar”.

Meses depois, seu filho Lucas, que o ajudava com o canal, contraiu Covid e faleceu. Foi a maior dor de sua vida.
A partir daí, ensinar virou missão.

“Isso tornou para mim uma missão. Ensinar é uma missão”, afirma. Com fibrose pulmonar grave, ele vive o presente: “Eu olho sempre o agora. Cada dia é um dia de caçar uma nova história”.

E conclui citando Mandela: “A educação é a ferramenta mais poderosa para transformar o mundo”.

NOTA

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