Alysson: o som de uma Minas Negra
Em minha coluna, trago um papo com o cantor e compositor Alysson, artista mineiro que vem construindo uma sonoridade própria a partir do encontro entre suas raízes, a música negra e diferentes influências que atravessaram sua trajetória.
Recentemente, Alysson lançou o álbum Iroko, trabalho que reúne suas influências e apresenta ao público o conceito do UAIfrobeat, expressão criada pelo próprio artista para definir sua maneira mineira de ouvir e fazer música.
Formado pela Bituca – Universidade de Música Popular, em Minas Gerais, Alysson traz em sua trajetória a presença da cultura mineira, da ancestralidade, da experimentação e dos encontros que ajudaram a formar sua identidade artística.
Alysson, olhando para o início da sua trajetória em Belo Horizonte, como a riqueza cultural e os ritmos tradicionais de Minas Gerais se conectaram com o Afrobeat na sua formação? De onde nasceu o estalo para criar e batizar sua sonoridade como “UAIfrobeat”?
Alysson:
Minha trajetória musical começa em casa, no bairro Sagrada Família, em Belo Horizonte, cercado por uma escuta muito diversa. Minha mãe, Dona Adelina, ouvia MPB e tinha um olhar crítico sobre o mundo; meu pai, Seu Salvador, colocava aos domingos discos de música clássica, Luiz Gonzaga, Paco de Lucía e Waldir Azevedo.
E havia o Congado.
Todos os anos ele passava diante da nossa porta, com seus tambores, cantos, passos e cores. E é aí que aparecem três personagens fundamentais na minha relação com essa tradição.
O primeiro foi Bicanca, capitão da guarda de Congado do meu bairro e amigo do meu pai. Ele frequentava nossa casa e cantava com a gente para saber se ainda guardávamos os cantos e as letras. Na época eu não entendia a dimensão daquele gesto. Hoje percebo que ele ajudou a manter aquela memória viva.
Anos mais tarde, já trabalhando com teatro, vieram outros dois encontros fundamentais: Maurício Tizumba e Sérgio Pererê. Artistas mineiros, mestres e amigos, eles me aproximaram novamente desse universo, agora pela criação, pelo palco e pela consciência artística. Com eles, comecei a reconhecer no meu próprio fazer coisas que, na verdade, já me acompanhavam desde menino.
Só muito mais tarde percebi que aquela vivência já era formação musical, memória e ancestralidade. Descobri, inclusive, depois que meu pai se foi, que ele havia dançado durante anos em uma guarda de Congado. O véio era congadeiro.
Foi como descobrir que aquilo que eu imaginava passar diante da porta da nossa casa já morava dentro dela.
Antes de eu saber que aquilo era uma influência, aquilo já era memória.
Durante a pandemia, ao gravar meu segundo EP, essas referências se encontraram naturalmente com outras sonoridades que foram me atravessando ao longo da vida.
Com o lançamento do EP Iroko, vieram as entrevistas e a tentativa recorrente de colocar minha música em alguma caixa. Em uma delas me perguntaram se meu som era influenciado pelo afrobeat.
Não era.
Mas, num estalo, respondi:
“Meu som é UAIfrobeat.”
Nasceu quase como brincadeira, mas ficou porque dizia algo verdadeiro: UAI é o lugar de onde venho e de onde escuto o mundo; beat, tudo aquilo que me atravessa e encontra esse lugar.
Hoje penso o UAIfrobeat menos como gênero e mais como um lugar de escuta e criação.
Um jeito mineiro de receber o mundo sem perder a origem.
Porque algumas músicas a gente encontra pelo caminho. Outras já estavam dentro da gente antes mesmo de sabermos seus nomes.
Um marco importante na sua jornada foi o lançamento do EP Iroko e a sua mudança para o cenário musical de São Paulo. De que forma essa transição geográfica e cultural impactou a sua composição e a recepção do seu trabalho pelo público? Minas faz falta pra voce?
Alysson:
Para falar da minha vinda para São Paulo, que no início de 2027 completará dez anos, preciso voltar um pouco e falar das minhas primeiras idas à Europa e, principalmente, do ano que passei em Nova York pouco antes de vir para cá.
Eu tinha acabado de me formar na Bituca – Universidade de Música Popular e decidi encarar o desafio de viver sozinho, tendo a música como caminho. Foi uma experiência riquíssima e que me atravessa até hoje.
Em Nova York pude apresentar tudo o que eu carregava musicalmente até aquele momento, mas também precisei aprender, ouvir e me colocar diante de outras culturas e outras maneiras de viver a música.
Quando voltei para Belo Horizonte, percebi que alguma coisa tinha mudado. O ritmo de viver a arte já não era o mesmo para mim. Eu já não era mais o mesmo.
Naquele momento, sentia que Minas já não conseguia me oferecer o espaço de que eu precisava para dar um salto maior na carreira. Tive a oportunidade de experimentar a vida em São Paulo, mas minha música continua sempre carregando Minas comigo.
Antes de Iroko, vieram os EPs Maré da Sorte, produzido pelo grande baterista e amigo mineiro Arthur Rezende, e UAIfrobeat, que produzi e gravei sozinho durante a pandemia, junto com Music(arama), um trabalho independente que reuniu 21 músicos e artistas convidados, entre eles Mestrinho e Nicolas Krassik, trazendo as influências do forró pé de serra.
Depois desse percurso, senti que precisava dar outro passo. Um amigo em comum me apresentou ao produtor Julio Fejuca, e foi amor à primeira vista, haha. Desse encontro nasceu Iroko.
O EP chegou, portanto, num momento de maior maturidade artística, foco e definição da minha sonoridade. São Paulo ampliou meus encontros, minhas possibilidades e a circulação do meu trabalho, mas não apagou aquilo que eu sempre trouxe comigo.
E Minas faz falta?
Faz.
Mas talvez a distância também tenha me ensinado a enxergá-la melhor.
Hoje entendo que sair de Minas não significa deixar Minas para trás. Ela continuará sendo sempre o lugar de onde minha música olha para o mundo.
Em 2024, você passou por uma transição significativa ao simplificar seu nome de “Alysson Salvador” para apenas “Alysson”, marcada pelo single “São Jorge Ogum”. Como esse alinhamento espiritual e artístico reflete seu momento atual de maturidade como cantor e compositor?
Alysson:
Venho de uma família de tradição basicamente banto-católica e, por ter nascido no dia de São Jorge, 23 de abril, sempre tive uma ligação muito forte com o santo, como uma presença de proteção na minha vida.
Já em São Paulo, comecei a perceber que meu nome artístico, Alysson Salvador, que era uma homenagem minha ao meu pai, Seu Salvador, após a sua passagem, criava um ruído. Muita gente imaginava que eu fosse de Salvador, enquanto toda a minha narrativa, minha música e até meu sotaque apontavam para Minas.
Com uma equipe de produção e marketing mais estruturada, começamos a discutir a possibilidade de mudar o nome. Mas, para mim, não poderia ser apenas uma decisão de carreira.
“Salvador” carregava meu pai, minha história.
Então busquei na espiritualidade uma resposta — e ela não me deixou dúvidas de que era hora da mudança.
Justamente nesse período, o amigo e sanfoneiro Rafa Virgulino me enviou uma melodia e pediu que eu escrevesse algo para Ogum. A partir dela, compus “São Jorge Ogum”, contando um pouco da minha própria travessia: da ligação que sempre tive com São Jorge até meu encontro com Ogum.
A música acabou se tornando também um rito de passagem.
“São Jorge Ogum” marca esse rebatizado artístico: Alysson Salvador passa a ser Alysson.
Não como quem abandona um nome ou uma história, mas como quem entende que aquilo que recebeu já está dentro de si e não precisa mais ser anunciado.
Acho que essa é uma das marcas da maturidade: saber o que a gente carrega, mesmo quando já não precisa escrever tudo no nome.
Pensando nos seus próximos projetos e no legado que você deseja construir, quais caminhos o “Afropop mineiro” pretende desbravar a partir de agora? O que os seus ouvintes podem esperar dos próximos lançamentos?
Alysson:
Estou há dois anos sem novos lançamentos, mas isso não significa que as criações e produções tenham parado. Pelo contrário: tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. As composições nunca param e alguns álbuns estão sendo preparados.
Um dos próximos projetos no forno é um álbum visual, no qual vou revisitar as músicas de Iroko e algumas faixas de Maré da Sorte e UAIfrobeat. É uma oportunidade de olhar para esses trabalhos como parte de uma mesma trajetória e dar a eles uma nova leitura.
Também estou na pré-produção do meu primeiro álbum solo, que terá produção do meu amigo Rafa Barone, dos Caramelows. É um trabalho que começa a reunir muito do que venho construindo musicalmente nos últimos anos e apontar para onde quero levar esse Afropop mineiro.
Paralelamente, estou retomando um antigo projeto autoral com meu maior parceiro de composição, Willian Navarro, o Gargamel. Esse disco tem um significado especial: será feito inteiramente em Minas, com músicos mineiros e produção musical do pianista Davi Fonseca.
Acho bonito perceber esse movimento. Depois de tantos caminhos, encontros e atravessamentos, existe também uma volta.
Não para repetir o lugar de onde saí, mas para reencontrá-lo sendo outro.
É um pouco disso que quero para os próximos trabalhos: ampliar minha música sem perder o sotaque, experimentar sem perder a memória.
Então 2027 vem com muita música nova.
Enquanto isso, Iroko segue sendo a melhor porta de entrada para o momento que estou vivendo.
Notas do Pié
A Minas Negra
Acolhedora, feita de mesa farta e prosa sem hora pra acabar, mas também de ouro e sangue, de luta e beleza.
Minas dourada pelos minérios entranhados entre pedras e terras.
Minas Negra de Chico Rei, de seus tambores e congados.
Minas Negra do barroco, de suas igrejas e esculturas, e das mãos negras que também a ergueram.
Minas de intelectuais, de poetas, escritores, compositores e artistas que fizeram do estado um território de pensamento, invenção e liberdade.
Minas do Clube da Esquina, que cantou o mundo a partir de uma esquina.
Minas de literatura, de cinema, de vozes e silêncios.
Uma Minas que não tem mar, mas aprendeu a ser oceano em encontros, memórias e histórias.
E é dessa Minas que nasce Alysson.
Filho de Dona Adelina e Seu Salvador, criado entre a MPB, a música clássica, Luiz Gonzaga, Paco de Lucía, Waldir Azevedo e os tambores do Congado que passavam diante de sua casa.
Antes de saber que era influência, já era memória.
Antes de entender a ancestralidade, já era parte dela.
Vieram Bituca, teatro, Tizumba, Pererê, Nova York, São Paulo, e muitos outros encontros.
Mas Minas continuou ali.
Não como passado, mas como fundamento.
E é justamente desse lugar que ele tira o que batizou como UAIfrobeat.
Uma maneira mineira de receber o mundo sem deixar de ser de onde veio.
Alysson não fala de uma Minas que ficou para trás, mas de uma Minas que continua criando.
Que pensa, dança, pesquisa e transforma.
E talvez seja essa uma das maiores forças da sua música: carregar a memória sem ficar preso a ela.









