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Sobre a maior mancha branca de nossa história

Por Adriano Viaro

Lancei neste ano o livro Complexo de Princesa Isabel, impulsionado por tudo o que há de mais narcísico na “comunidade branca brasileira”. Em geral, é raro encontrar um brasileiro branco engajado na militância antirracista que não almeje aplausos e comendas por sua “dedicação” a uma pauta “que não lhe pertence”. Trata-se de uma falácia: busca-se reconhecimento por se empenhar em algo que supostamente está fora do seu universo. O golpe perfeito, nesse caso, veste-se de álibi para fugir do “potencial racista”.

É preciso fazer uma ressalva fundamental: quando uma pessoa branca se incomoda com a constatação de que é um “racista em potencial” — assim como o homem “machista em potencial”, o “estuprador em potencial” ou o hétero “homofóbico em potencial” — e acusa uma “injusta generalização”, devemos recomendar que estude o significado de “potencial”. Não vou me ocupar disso, pois exigir a consulta ao léxico é o mínimo que se espera de alguém incomodado por ser parte das opressões sociais.

Retomando o tema, a busca pelo mérito desenha-se na justificativa vil do próprio engajamento. “Eu sou branco e poderia apenas viver, mas decidi lutar contra o racismo e sequer reconhecimento tive”. Sim, já ouvi essa frase inúmeras vezes, principalmente, mas não exclusivamente, no meio acadêmico. O Complexo de Princesa Isabel se manifesta de diversas formas, mas sempre há o “branco desconstruído” que expõe sua vivência na expectativa de aplausos ao final. E quando são confrontados, ficam estupefatos: “Como assim não há mérito?” Trata-se de um tema espinhoso, de caráter histórico e social, de uma casta étnico-racial que, diante da impossibilidade de manter seu status quo, decide lucrar nem que seja com likes e elogios. É algo do tipo: “Fulano é uma pessoa sensacional. Branco e educador antirracista”.

Aqui cabe um ponto necessário: meu livro não fala de racismo, mas de racistas. E faço isso por conta de uma vida repleta de evidências racistas e de lutas internas contra o próprio racismo. Independentemente do percentual ínfimo de pensamentos racistas que ainda me habitam, apontar racistas de forma direta, indigesta e efetiva é uma forma de implantar o tratamento de choque necessário.

Vamos conversar muito sobre isso neste espaço. Hoje apenas introduzo o tema, dizendo que me sinto feliz em continuar melhorando como pessoa e apontando os erros, deslizes e claudicâncias que me trouxeram até aqui, embora filho de um berço inveteradamente racista.

Para finalizar, algumas perguntas: qual a saída para a nação mais bem acabada em sua estrutura escravagista? Qual o prazo que temos para solucionar todas as arestas e hiatos existentes desde os bancos escolares até o asfalto de nossas cidades? Quantos de nós, brancos, se comprometem de forma genuína, sem esperar que o aplauso nos faça herdeiros do “heroísmo” de Isabel? São questões que precisam ser encaradas e solucionadas, pois os mais de três séculos de escravidão não deixaram margem para descanso ou descaso.

NOTA

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