Reconhecimento do Carnaval de Salvador como patrimônio cultural é vitória simbólica, mas escancara contradições de um país que lucra com a festa, mas nega direitos a quem a constrói
O Senado aprovou, na última terça-feira (5), o Carnaval de Salvador como manifestação da cultura nacional. Para muita gente, parece “só” mais um reconhecimento simbólico. Mas, para quem vive a energia do axé, a resistência negra e a força do povo nas ruas da Bahia, esse gesto é mais do que justo (ainda que tardio). Mais do que isso: é político.
Em um país fundado na exploração de corpos negros e indígenas, ver o Carnaval — uma festa popular, preta e periférica — sendo reconhecido como patrimônio cultural é um grito contra o apagamento histórico. O Carnaval de Salvador não é apenas diversão, é identidade, luta e sobrevivência. É batuque ancestral, é trio elétrico rompendo a lógica do silêncio imposto aos pobres. É a contramão da elite branca que, por séculos, tentou higienizar a cultura brasileira.
A proposta, de autoria da deputada Alice Portugal (PCdoB-BA), foi aprovada de forma terminativa na Comissão de Educação e Cultura e segue agora para sanção presidencial. Ainda que o reconhecimento seja importante, é preciso dizer: isso não basta. Celebrar o Carnaval de Salvador como símbolo da cultura nacional sem discutir a exploração que se esconde atrás dos camarotes, dos abadás caríssimos e da gentrificação da folia, é hipocrisia.
Não existe cultura sem povo. E o povo, muitas vezes, só é lembrado como figurante da festa que construiu. Os trabalhadores que montam os palcos, os ambulantes que garantem a cerveja gelada, os músicos da periferia que animam os becos — todos seguem invisíveis para os que lucram bilhões. Em 2025, a festa movimentou mais de 7 bilhões de reais só na Bahia. E a pergunta que não cala: pra onde vai esse dinheiro? E quem não lucra nada com isso, segue sem direitos?

Como apontou a senadora Jussara Lima (PSD-PI), o Carnaval de Salvador é “uma expressão viva da identidade brasileira”. Mas essa identidade continua sendo violentada todos os dias pelo racismo estrutural, pela desigualdade social e pela lógica capitalista que transforma cultura em produto e tradição em mercadoria.
Lembrando que o Carnaval carioca já havia sido reconhecido oficialmente neste ano, com destaque à história do samba e suas raízes negras. Mas é fundamental ampliar esse reconhecimento a outras regiões e manifestações culturais, sem hierarquias ou rivalidades. Como disse com ironia a senadora Teresa Leitão (PT-PE), “agora a Bahia copiou Pernambuco”, mas, na real, é o Brasil todo que precisa copiar o povo, e não o mercado.
O Jornal Empoderado segue defendendo que cultura popular não é vitrine pra elite bater palma. É ferramenta de luta, de memória, de transformação. E enquanto o Carnaval for do povo, ele seguirá sendo território de resistência. Que venham os reconhecimentos — mas que venham junto com políticas públicas, reparação histórica e justiça social.
Axé, Salvador. Axé, Brasil.











