» Post

Winnie Mandela – Homenagens à nova heroína Sul-Africana

Embora no Brasil quase todas as atenções estejam em torno do aprofundamento da crise política e do golpe institucional, neste momento com a prisão do ex-Presidente Lula, acredito que, mesmo nesta situação, é importante lembrarmos de nossos combatentes que não estão mais no plano terrestre, enquanto uma das formas de manter uma continuidade, entre as gerações, das vivências e lições produzidas nas lutas.

Assim, aproveitarei a minha passagem pela África do Sul para contribuir com alguns relatos sobre as homenagens à Winnie Madikizela-Mandela, 81 anos, um dos principais ícones das lutas contra o apartheid, pelos direitos humanos e pela organização e direitos das mulheres e algumas curiosidades correlatas que conferi durante essa semana, que marcou a sua morte, no dia 2 de abril.

Homenagens Oficiais

O Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, decretou luto nacional por 12 dias, o que ocorrerá até o dia 14 de abril, quando ocorrerá o sepultamento da ex-militante, no cemitério Fourways Memorial Park (Johannesburg), o mesmo local onde a sua bisneta, Zenani Mandela, 13, foi enterrada em 2010 após morrer num acidente de carro, depois de participar do show de abertura da copa do mundo, no Orlando Stadium.

Em nota pública, o presidente anunciou que Winnie Madikizela-Mandela será homenageada com honrarias de categoria 1, reservado à status de presidente do país. “Ela permaneceu ao longo de um incansável defensor dos excluídos e marginalizados. Ela era uma voz para os sem voz”, observou o presidente em nota, que ressaltou que ela também receberá honrarias da Ordem dos Luthuli, em prata, “pela excelente contribuição nas lutas pela libertação do povo sul-africano”.

O arcebispo anglicano Njongonkulu Ndungane, em frente à Casa de Winnie Mandela.

Segundo reportagem do jornal Times Live, o arcebispo anglicano Njongonkulu Ndungane, figura importantíssima do meio religiosos em Joanesburgo, observou sobre a ações de Winnie Mandela para com os pobres. “Na época da prisão de grande parte da liderança dos movimentos anti-apartheid, em Robben Island e no exílio, ela assumiu destemidamente o papel de ser a voz dos que não têm voz (…) Seu espírito briguento era tal, que nem mesmo a crueldade do governo do apartheid, em baní-la para a prisão domiciliar, em Brandfort, conseguiu quebrar a sua resistência e oposição ao governo racista”.

Presidente da União Africana, Moussa Faki Mahamat, fala em homenagem à ex-ativista.

De Adis Abeba (Etiópia), o presidente da Comissão da União Africana (UA), Moussa Faki Mahamat, conforme publicação no site da Instituição, lamentou a morte de Winnie e a elogiou dizendo que “Ela será para sempre lembrada como uma militante destemida que sacrificou grande parte de sua vida pela liberdade na África do Sul. (…) Toda a família da União Africana se junta ao continente em pesar pelo falecimento de Winnie Madikazela-Mandela. Presencialmente, durante a semana, Mahamat reforçou os elogios: “Winnie foi uma mulher de incrível força, orgulho, amor, determinação e uma mulher que foi capaz de manter viva a tocha da liberdade, apesar de anos de tortura, assédio e sofrimento”.

Líderes da Comunidade Árabe da África do Sul compareceram para homenagear a ex-ativista.

Em respeito e em homenagem à ex-ativista, a Federação Sul-africana de Sindicatos baixou suas bandeiras a meio mastro e publicou nota observando sobre a importância de Winnie Mandela para as lutas das mulheres. “Ela era uma mulher revolucionária, que nunca esteve preparada para ser apenas a esposa de Nelson, mas um lutador destemido, moldada na luta contra o apartheid e um modelo para as mulheres de hoje. Ela sempre será uma inspiração para futuras gerações de mulheres revolucionárias.”

Outra Instituição de destaque, a Wits University (Witwatersrand University), uma das maiores Universidades do país, onde Winnie se graduou em Relações Internacionais (2005), também publicou em seu site uma nota observando que as suas bandeiras também ficariam a meio mastro e lembrou sobre a importância da ex-ativista para a justiça de gêneros e para os mais jovens. “Winnie Mandela sempre deu de si na luta pela equidade de gênero e justiça social. Ela sempre teve tempo para ouvir os jovens estudantes e passou muitas horas oferecendo-lhes inspiração e esperança, ao longo dos anos”.

foto: Celso Oliveira Jr
componentes da Liga das Mulheres do CNA, em passeata até a casa de Winnie Mandela.

Em nota, a Liga das Mulheres do CNA (Congresso Nacional Africano) – principal partido nacional, do governo, qual Winnie Mandela fazia parte – disse que ela sempre será lembrada enquanto figura encorajadora na luta contra o patriarcado, dentro e fora a política.

Jornais e Noticiários em Joanesburgo

Em Joanesburgo, as capas dos principais jornais da cidade estampam fotos de Winnie nos períodos das lutas contra o apartheid e a condecora enquanto “mãe da nação sul-africana”, título dado nos anos 1980, durante a luta contra o Apartheid. O que se percebe é a construção, pelos meios de comunicação do país, de uma nova heroína nacional.

A SABC, a maior rede de comunicações do país, não para fazer transmissões ao vivo em sua programação diária, a respeito das homenagens em frente à casa da ex-ativista. Além disso, aproveita para entrevistar as importantes figuras do cenário artístico, político e religioso, que aparecem por lá para prestar condolências. “A morte de Winnie Madikizela-Mandela conseguiu reunir rivais políticos e companheiros de partido, que costumavam menosprezar a sua militância durante os anos 80, no auge da luta contra o apartheid”, destacou o noticiário da SABC.

Nem tudo são flores…

De forma oposta, a agência internacional de notícias Reuters publicou uma matéria, relativizando o papel de heroína da nação. A Agência classificou a ex-ativista enquanto “uma ideóloga impiedosa, preparada para sacrificar leis e vidas em busca de revolução e reparações (…) e a criticou por ter demorado a se arrepender por atos violentos contra o regime racista. “Madikizela-Mandela se recusou a mostrar remorso por sequestros e assassinatos realizados em seu nome”, observou negativamente a Agência.

Os tais casos questionáveis teriam sido acusada de envolvimento de fraude em seu partido (CNA) e o uso do time de futebol Mandela United, para manter escolta pessoal, oque teria levado à algumas acusações de brutalidade e sequestro de alguns ativistas e a morte de um deles, Stompie Seipei. Isso teria resultado na condenação de Winnie por seis anos de prisão, pena que foi cumprida em liberdade.

Sobre esses fatos, o ex-presidente da África do Sul, Thabo Mbeki (membro do CNA e presidente entre 1999 e 2008), ponderou, dizendo, em entrevista à SABC, que Winnie Mandela teria feito algumas “coisas erradas”, mas que eram compreensíveis devido à sua paixão pela liberdade dos negros sul-africanos. “Diferente de filósofos ou teóricos, ela não era só uma observadora. Ela ia e fazia. Ela era uma ativista muito corajosa. E algumas dessas atitudes chegariam à imprudência, mesmo”, justificou Mbeki.

Por outro lado, Julius Malema, líder do EFF (Economic Freedom Fighters), expulso do CNA por manter uma postura mais radical, disse, ao prestar a homenagem à Winnie, que o CNA deveria se envergonhar por ter abandonado Winnie durante aquelas investigações.

Visita à Casa de Winni Mandela

Além de acompanhar as mídias locais, resolvi conversar com as pessoas nas ruas e fazer uma visita à casa de Winnie Mandela. Ao chegar nas ruas próximas à casa, já foi possível observar o vai e vem de muitos jornalistas, fotógrafos, militantes do CNA e personalidades.

Ala militar do Partido CNA marcha em homenagem, em frente à casa de Winnie Mandela.

Ao lado da casa, está sendo montado um grande palco. Em frente à casa, muitos militantes, sobretudo, os grupos de mulheres do CNA, cantavam na sem parar cantos de luta da época das lutas contra o apartheid. Essas músicas são cantadas em Zulu, uma das 12 línguas nacionais, e predominante em Joanesburgo.

Essas mulheres, em sua grande maioria eram senhoras, vestidas com uniforme preto, turbantes verde e amarelo ou com lenços da mesma cor, no pescoço. Cantavam sem parar. Música atrás de música.

Perguntei a uma delas se pretendiam passar a noite alí. Nosh Ngcobo, 65, disse que milita no CNA desde os anos 1960, durante o regime do Apartheid. Ela me respondeu que a ideia era ir e voltar todos os dias. “Estou aqui para celebrar a morte dela [Winnie Mandela]. Vir e rezar por ela e voltar para casa para fazer nossas tarefas”.

Mamma Mbonge, 69, integrante da organização African Women & Youth League, afirmou sobre a importância de homenagear Winnie Mandela. “Ela merece todas as homenagens possíveis, pois lutou por todos e não media esforços numa luta árdua contra o racismo”.

Um detalhe que me chamou a atenção foi a ausência de jovens participando das homenagens. Algo que tentarei acompanhar mais de perto, durante as últimas homenagens.

Para esta semana, segundo comunicado do CNA, a cidade de Joanesburgo receberá milhares e milhares de pessoas de todos estados, para acompanhar as cerimônias e prestar homenagens. Uma das principais cerimônias ocorrerá no dia 11, no Orlando Stadium, um dos estádios construídos para copa do mundo de 2010, que fica próximo da residência da ex-ativista.

*Celso Oliveira Jr é estudante-pesquisador em Geografia pela Universidade de São Paulo e ativista do movimento negro. Está desenvolvendo o projeto “umoya hamba” na África do Sul – umoyahamba.sitey.me / cjuniorusp@gmail.com

NOTA

Não deixe de curtir nossas mídias sociais. Fortaleça a mídia negra e periférica

Esta gostando do conteúdo? Compartilhe!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

» Parceiros

» Posts Recentes

Categorias

Você também pode gostar

Max Mu

‘Me Too’ Mentiu?

Dizem que um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar. Dessa vez, caiu.A bomba já explodida explode novamente, e

Leia Mais »
plugins premium WordPress

Utilizamos seus dados para analisar e personalizar nossos conteúdos e anúncios durante a sua navegação em nossos sites, em serviços de terceiros e parceiros. Ao navegar pelo site, você autoriza o Jornal Empoderado a coletar tais informações e utiliza-las para estas finalidades. Em caso de dúvidas, acesse nossa Política de Privacidade