O espetáculo Baile das Rosas Negras é um brinde à força e à criatividade das mulheres negras brasileiras, que tomam o protagonismo, organizam, produzem e desenvolvem o ‘bem-viver’ na sociedade. É um novo marco civilizatório, que surge no palco a partir do legado do grupo Rosas Negras, o departamento feminino da Frente Negra Brasileira, e da memória da vibração dos bailes Blacks da cidade de São Paulo.
De 29 de novembro a 7 de dezembro, a peça, com duas horas de duração, tem mais cinco apresentações na capital paulista.
“O ponto de partida é a memória, eu queria fazer um espetáculo onde eu pudesse revisitar as memórias afetivas da minha família na relação com as festas de quintais, com os bailes feitos e frequentados na periferia da zona leste de SP. Quando comecei a pesquisar sobre os Bailes Blacks na cidade de São Paulo, me incomodou muito os poucos registros sobre a participação das mulheres, esse apagamento me fez querer lançar luz sobre o tema, visibilizar e celebrar as experiências de lutas e resistências coletivas lideradas por mulheres negras”, diz a diretora Edi Cardoso.
O espetáculo tem as brilhantes atuações de Dudu Oliveira, Edi Cardoso, Luzia Rosa e Marlei Madalena. A concepção da peça, a direção geral e toda a idealização do projeto, que se desdobrou em diversas atividades, e da Edi Cardoso, que concedeu uma entrevista exclusiva para o Empoderado.
Quanto tempo levou para organizar a estrutura do projeto?
Edi Cardoso: A estrutura de organização e escrita do projeto para envio ao edital, levou aproximadamente duas semanas. O projeto tem uma duração total de 10 meses, estamos agora na reta final, além da pesquisa e criação da peça, neste período foram realizadas oficinas, rodas de conversas, entrevistas, em todas as atividades as mulheres negras como centro. Conto isso pois o espetáculo também se constitui dessas ações. Todas as vivências foram material criativo, poético, político e estético para o processo de criação.
Como foi a seleção e escolha das cantoras e atrizes?
EC: O Convite para a participação neste projeto foi por aproximação afetiva e artística. Tenho aqui parcerias de longa data, de outros tantos trabalhos, como o ator Dudu Oliviera, por exemplo, Denise Guilherme, a nossa figurinista, Letícia Barbosa e alguns integrantes do Cordão da Micaela, Marlei Madalena, Almir Rosa, Luzia Rosa, Ronaldo Gama
Como foi o clima nos ensaios?
EC: Foi um desafio bom, e entendo que esse seja o percurso de uma criação que se pretende ser coletiva e colaborativa, principalmente quando não se trata de um grupo, mas de artistas vindos de diferentes contextos, alguns trabalhando juntos pela primeira vez. Me deu muita alegria poder reunir tanta gente bacana e talentosa neste projeto. Preciso destacar o cuidado e a sensibilidade que a Marlei, que é a nossa mais velha neste processo, teve e tem com a gente, nos alimentando física e espiritualmente, sempre com um chazinho de ervas, um bolo, uma torta salgada, é uma atenção que é parte da nossa tecnologia ancestral, não é só o trabalho, este projeto mexeu com a gente, com os nossos sentires de maneira muito profunda, e isso tem sido muito bonito. Comer juntos, dançar juntos, é cuidado é cura.
Atualmente uma das questões focais da luta do Movimento Negro no mundo envolve o direito ao lazer e ao descanso. A exploração do trabalho, sobretudo da mulher negra, é motivo de adoecimento. Nessa perspectiva, qual a mensagem do espetáculo que celebra as mulheres negras num momento de música e alegria?
EC: Afirmar que nós podemos e merecemos falar de nós em plenitude, em potência, com beleza e dignidade, que nossas narrativas são valiosas, que somos protagonistas reescrevendo histórias que tantas vezes tentaram silenciar. Tem uma cena que chamamos de “os bailes da vida”, que cada personagem ganha o centro da cena e conta da sua relação com os bailes, é um momento de riso de dança, de corpos que se movem com liberdade, de celebração e valorização das nossas subjetividades. Com este espetáculo devolvemos para nós o direito ao brilho, ao encontro, como um ato de reivindicação da própria vida.
Por que as mulheres negras, no Brasil, não tiveram o seu valor reconhecido na música e na cultura nacional?
EC: Nós temos grandes referências na música, nas artes em geral, mas obviamente, se o racismo estrutural, o sexismo, o patriarcado, a apropriação cultural, não tivessem atravessado o caminho da maior parte das artistas negras deste país, não teríamos tantos apagamentos. Historicamente quem detinha/ detém os meios de produção cultural, aqui falando da indústria cultural mesmo, em sua maioria não as mulheres negras, e isso determina quem ocupa os meios de comunicação, difusão, acesso, portanto, as desigualdades de gênero e raça são fatores que acabam contribuindo para uma não valorização dessas produções. E nós sabemos, é inegável a contribuição de muitas mulheres negras que revolucionaram a cultura brasileira.
Os ritmos de origem afro diaspórica que estão no espetáculo fazem parte da tradição oral da nossa cultura, como vocês do elenco trabalharam isso no processo criativo para conectar essa trajetória musical das músicas?
EC: Como foi um processo de criação coletiva, cada artista foi compartilhando suas referências, ouvimos muita coisa juntos, vimos filmes e documentários, referenciais teóricos, fomos a bailes, dançamos e cantamos juntos. A memória afetiva também foi um bom guia e a escuta porosa e sensível do nosso dramaturgo Almir Rosa tratou de fazer as devidas conexões. Não foi difícil, fomos percebendo que tudo já estava muito na gente, nos nossos movimentos.
Qual mensagem vocês deixam para a população negra com este espetáculo?
EC: Que é de demasiada importância celebrar os ensinamentos de nossas ancestrais, pois elas alimentam e nutrem a chama e que celebra nossas existências insistentes, aguerridas e festivas. Que somos herdeiros e herdeiros da arte de abrir caminhos para que nossos afetos floresçam. Que celebrar é também resistir e que a alegria é um ato político.
Como tem sido a reação do público nas primeiras apresentações?
EC: Temos recebido ótimas devolutivas, principalmente das mulheres, rolam muitas identificações com as narrativas das personagens, com as músicas, é um espetáculo de muita proximidade, física, porque a configuração espacial permite isso, e de aproximações afetivas, o Baile é uma festa da gente para a gente, é nosso espaço de aquilombamento, e ver a emoção nos olhos das pessoas fortalece ainda mais o nosso desejo de continuar.
Datas e horários
29 de novembro, sábado, 20h.
Quilombo São Benedito – Rua Ovídio Lopes, 30 – Parque Boturussu, São Paulo.
30 de novembro, domingo, 18h
Centro de Cultura e Artes Batakerê – Rua Maria de Nazaré, 180 – Vila Santa Inês, São Paulo.
05 de dezembro sexta-feira às 20h
Escola Comunitária Saberes Ancestrais
R. Emília Brasão, 110 – Conj. Res. José Bonifácio, São Paulo – SP, 08250-680
06 de dezembro, sábado às 20h
Espaço Cultural Inventivo
R. Limeira, 19 – Q.ta da Paineira, São Paulo – SP, 03150-070
07 de dezembro, domingo às 16h
Largo do Rosário- Igreja do Rosário dos Homens Pretos da Penha

Elenco do espetáculo ‘Baile das Rosas Negras’ Foto: Nico Oiveira
FICHA TÉCNICA:
Concepção, idealização e direção geral: Edi Cardoso
Direção artística: Renato Gama
Dramaturgia: Almir Rosa
Direção Musical: Ronaldo Gama
Atuação: Dudu Oliveira, Edi Cardoso, Luzia Rosa e Marlei Madalena
Músicos: Letícia Barbosa e Ronaldo Gama
Preparação Corporal: Janaina Gisele
Preparação Vocal: Letícia Barbosa
Figurinos e Ambientação Cênica: Denise Guilherme
Assistentes de figurino: Denise Marta e Lua Ferreira
Desenho de Luz: Décio Filho
Operação de Luz: Lemuris (Vanessa Lemes)
Consultoria em Acessibilidade: Yago Dionizio
Desenho de Som: Kauê Gama
Artista Convidada: Dj Bia Sankofa
Registro fotográfico e audiovisual: Cinegrafilmes Audiovisual
Concepção visual e designer gráfico: Andréia Freire
Produção Geral: Edi Cardoso
Assistente de produção: Jonathan Leque










