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Opinião de favela: artigo sobre coletivismo feminino periférico propõe um novo Brasil

Sobre a autora

Daniela da Silva Lopes, a Dani Lopes, é cria do Complexo de Favelas da Mangueirinha, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Assistente social, articuladora política e social, é liderança popular e referência na luta por justiça social, equidade de gênero e combate à fome a partir dos territórios periféricos.

O artigo

A favela é mulher, soberana e não pede licença

A voz das mulheres das periferias não ecoa sob permissão, mas por urgência. Um movimento real, pulsante e político que propõe um novo Brasil

O feminismo que pulsa nas periferias, vivo, ancestral e insurgente, rompe, incomoda, se infiltra e enfrenta a emergência climática, à fome, a falta de moradia e outras tantas pautas fundamentais por vozes como a de Marcele Oliveira, jovem (de Realengo, RJ) campeã climática da presidência para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), que será realizada em novembro em Belém, capital do Pará e tem tido projeção internacional a partir da perspectiva territorial dos biomas brasileiros, ou como a da Yalorixá Roberta Costa, coordenadora do Instituto Águas do Amanhã na Zona Oeste do Rio, ativista referência no combate à fome e ao racismo religioso no Brasil, a de Camila Moradia que carrega no nome que a representa, sua luta por dignidade no CPX do Alemão, a das Mães  de Manguinhos e suas lutas por justiça pelo assassinato de seus filhos, ou a de Mani, Mariane dos Anjos Neves, marisqueira de Maragogipinho distrito de Aratuípe, recôncavo Sul da Bahia que representa a luta das mulheres dos manguezais.

Por meio dessas e de tantas outras lideranças, com acúmulos de uma vida, o novo feminismo, orientado por velhas batalhas e novas ferramentas de garantia de diversidade e inclusão de pleitos antes invisíveis, pode ser sensivelmente chamado de coletivismo feminino periférico, um amplificador artesanal construído por e para mulheres pretas, pardas, mães-solo que lideram movimentos, viram articuladoras políticas e inspiram meninas que sonham mesmo quando tudo à volta diz que elas não vão chegar lá.

Nascer mulher nas favelas e periferias é nascer em uma trincheira que nos convoca muito cedo à luta, que começa na fila do posto, no acesso à educação, no julgamento e criminalização de nossos direitos sexuais e reprodutivos, na audiência de custódia do filho, na ameaça de despejo, na impossibilidade da medida protetiva que não chega a determinados territórios e por aí vai. Um acúmulo de dores que às vezes é tema de seminário, mas para nós é como o cotidiano se apresenta, sem que a gente se permita ser reduzida ou paralisada. Somos uma voz que, quando se ergue, não é só denúncia: é revolução e movimento, é o parto de um mundo novo, já que o velho nem nos enxerga.

Esse coletivismo feminino periférico gesta um saber que surge das relações e do afeto e não cabe em livro. Falamos com a voz de quem já perdeu muito, inclusive o medo. Não pedimos licença para existir ou para resistir. E é justamente por isso que a nossa fala tem vida e potência em nuances quase sobrenaturais, vindas de uma esfera no tempo e espaço que transforma as ausências em caminhos reais, que não percorremos sós e por onde percebemos o tamanho do que somos entre e para nós e para o mundo.

O que propomos é mais que inclusão, é reconfiguração. Não queremos sentar à mesa, estamos repensando e recriando o formato da mesa. Porque na estrutura que nos é posta, não tem espaço para a gente. Não vamos mais lutar ou agradecer por entrar nesses “lugares” que nos foram e são negados historicamente. Estamos há séculos desenvolvendo nossas tecnologias sociais que criam outros espaços, ainda mais potentes, que transformam tudo, sob nosso protagonismo.

Movimentos que não encaram a fome, o racismo e o genocídio das nossas crias não nos representam. Nossa luta é pela dignidade integral. É pelo direito de viver sem medo, de criar futuro para nossos filhos ao invés de enterrá-los aos 17. É por isso que o nosso coletivismo feminino transcende o político, o cotidiano e o radical e traz uma espécie de sentido ancestral e espiritual, que nos nutre e amplia.

A favela é mulher, eu mesma sou uma favela inteira e o contrário também se aplicaria com êxito. E, toda vez que uma de nós ocupa um espaço de diálogo com o poder, surge uma rachadura a mais na muralha que nos segrega e criminaliza. A nossa presença é insurgente. A nossa fala é ferramenta. E o nosso corpo, tantas vezes alvo, agora, em tempos de um país que não se curva, ainda bem, é manifesto de soberania.

Seguiremos avançando, com beleza, ousadia e consciência de quem somos. Sem culpa. Sem abaixar os olhos. E sem pedir licença.

Daniela da Silva Lopes, a Dani Lopes, é cria do Complexo de Favelas da Mangueirinha, em Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Assistente social, articuladora política e social, é liderança popular e referência na luta por justiça social, equidade de gênero e combate à fome a partir dos territórios periféricos.

“Minha voz não pede licença — ela ocupa, rompe e refaz caminhos.”

NOTA

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