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Nakomitunaka: a música africana que questionou a branquitude de Deus

Nakomitunaka é uma canção feita no início da década de 1970 por Georges Kiamuangana Mateta, mais conhecido como Verckys, ex-saxofonista  do OK Jazz, a mais bem sucedida banda musical do então Zaire (hoje República Democrática do Congo, RDC) liderada por Franco Luambo, figura maior da música congolesa e africana no século XX.

 

Em língua lingala, falada em toda a parte noroeste da RDC, uma grande parte do Congo Brazzaville e, em menor grau, no norte de Angola, na República Centro-Africana e no sul do Sudão do Sul, a expressão significa literalmente “eu me pergunto“.

 

Escrita em 1971, foi lançada em 1972 pela Orchestre Vévé, fundada por Verckys em 1969 e reflete criticamente a eurocentricidade religiosa como parte do projeto colonial na cristianização dos africanos, com anjos representados de acordo com códigos europeus associando a branquitude com perfeição beleza e pureza.

 

A letra desafia e questiona um Deus que é o criador do primeiro homem e da primeira mulher brancos, par do qual descende toda a humanidade e pai de um filho branco. Senhor de um céu povoado só por anjos e santos brancos e inspirador de um livro sagrado escrito só por profetas brancos. Dono de uma religião que só aceita profetas brancos e rupudia profetas negros, sendo que só o diabo aparece como negro. E pergunta: ”de onde veio a raça negra? qual o nosso ancestral?”

 

No Congo profundamente religioso, este foi um passo ousado demais. A ideia de questionar Deus irritou tanto a Igreja Católica congolesa que ela tentou por todos os meios banir a música, uma missão que se revelou todavia impossível, de tão popular que era o hit. Verckys também gerenciou duas outras bandas, que ele possuía: Orquestra Kiam e Orquestra Lipua Lipua.

 

Na década de 1980 ele deixou o palco da cena musical para buscar outros interesses na indústria do ramo. Continua sendo visto como um empresário bem sucedido, conhecido como “o primeiro indígena africano a possuir uma gravadora”, a Veve, e a apresentar através dela muitos dos grandes artistas congoleses ao mundo.

 

A cantora Ancy  Kiamuangana que se apresenta no seu Instagram como a “filha do rei da indústria da música congolesa” remixou em 2016 a música cujo conteúdo abalou outrora as crenças fundamentais da Igreja Católica colonial e pós-colonial, suas teologia e práticas. Segue bem atual nos dias onde o projeto religioso neocolonial do cristianismo continua, tal como o islamismo, bem vivo e forte continente africano.

 

 P.S.: Tem muita foto dele disponível na net, mas achei legal essa do link abaixo.
 
Verckys Kiamuangana com seu saxofone e a filha Ancy na festa de celebração dos seus 77 anos. Foto: Agence d’Information d’Afrique Centrale (ADIAC).
 
 
Se achares igualmente pertinente ilustrar tb a matéria com link para a música, ei-lo com tradução dela em inglês:
 
Encaminharam-me aquela versão legendada em português e que te repassei, mas não sei de quem é a autoria.
 
Não te esqueças de dar uma revisada ao texto pq às vezes misturo português do br com o do pt.
 
 
Paulo Sérgio Ferreira, o herói silenciado
 
Por Alberto Monteiro de Castro I Londres
 

Em 13 de Abril de 2011, o metalúrgico paulista Paulo Sérgio Ferreira, em protesto solitário e eloquente, escalou o mastro da bandeira nacional na Praça dos Três Poderes em Brasília e ateou fogo, queimando parte dela. Em depoimento à PF ele se justificou dizendo que foi um “ato para chamar a atenção para as questões raciais no Brasil” e aos jornalistas ele disse que se sentia “perseguido” por ser negro e acusou o Brasil de ser “uma pátria assassina de negros”.

Segundo reportagens à época, agentes da PF teriam chegado à conclusão que ele “sofreria das faculdades mentais”, versão comprada tanto pelos mídias dominantes da branquitude brasileira como, segundo a Afropress, pelas lideranças das entidades e articulações do movimento negro que se silenciaram em torno do caso. 

 
Preso, ele foi solto no dia seguinte para responder o processo em liberdade graças à pronta pronta ação do ouvidor da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Carlos Alberto de Souza Silva e Júnior. Não soube quando ele foi julgado pelo heróico ato e, se condenado, qual a pena que lhe foi aplicada. 
 
Hoje, quando o Brasil se mostra chocado e envergonhado com a filmada selvática morte do jovem refugiado africano Moïse Mugenyi Kabagambe, mais uma na normalização da barbárie contra corpos negros, vale a pena lembrar o protesto solitário, destemido, expressivo e incisivo de Paulo Sérgio Ferreira. 
 
O Brasil é sim ”uma pátria assassina de negros” e o Mapa da Violência está aí para respaldar a afirmação. Paulo Sérgio Ferreira é para mim um herói, um grande herói negro brasileiro do início deste século.
 
 
 

NOTA

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