O legado que emana em nós: Vivência autogestionada pela Coletiva Emana celebra Sueli Carneiro em Sapopemba SP

O Festival Casa Sueli Carneiro celebra anualmente, em junho, o legado intelectual e militante de uma das maiores vozes brasileiras no combate ao racismo e ao sexismo – Sueli Carneiro, grandiosa filósofa, fundadora do Instituto Geledés (Instituto da Mulher Negra) e ativista do movimento negro e feminista brasileiro.
Ao festejar o aniversário de Sueli Carneiro, que completou este ano 75 anos, a Casa promove, pelo 4º ano consecutivo, atividades culturais, artísticas e educativas dirigidas à comunidade em geral e estimula diferentes grupos, coletivos e organizações a fazer o mesmo. O Festival contempla uma programação múltipla, descentralizada e autogestionada, realizada por parceiras e parceiros como a Coletiva Emana de Sapopemba – SP, que este ano compôs a programação do IV Festival Sueli Carneiro com a proposta de um encontro de muito afeto, memória viva e força coletiva através da vivência “O Legado que emana em nós”.
Um coletivo de mulheres que há 8 anos, partiram do propósito comum de construir um espaço seguro para mulheres se aquilobarem, e descobriram no processo de sua construção a possibilidade de expandir e abraçar outros coletivos e companheiras.

Atualmente, a Coletiva Emana se expande em três principais eixos de atuação – artístico, social e incidência política. No eixo artístico, o coletivo produz oficinas, atividades, espetáculos e publicações como a revista “Mulheres de Luta” e o documentário “Mulheres além do tempo”. No social, a atuação é direta e se dá pela organização de uma feira livre popular e apoio à informatização da população em encaminhamentos sociais. Na incidência política, as ações da coletiva contam com a participação nas discussões feministas, priorizando a contribuição para o debate a partir da vivência das mulheres pretas, mulheres de quebrada e mulheres LGBTQIAPN+.
A diversidade do coletivo não para por aí, considerada uma valorosa característica por Débora – Coordenadora da Coletiva Emana, o grupo possui uma forte intergeracionalidade. “Nós temos desde jovens de 20 poucos anos até uma mulher de 69 anos. Isso traz a clareza real do que é a convivência das mulheres dentro da quebrada, elas estão integradas, estão misturadas e para a gente é muito importante promover a dignidade das infâncias, das juventudes, mas também das idosidades”.

Para a Coletiva Emana, Sueli Carneiro é fonte de inspiração não só na política, mas também em “como” se fazer na prática, a partir da visão de Sueli de como se organizam mulheres negras, considerando suas complexidades em um cenário nacional. Jéssica, Coordenadora da Coletiva, acrescenta que a direção da casa enxergou no IV Festival Casa Sueli Carneiro uma oportunidade de divulgar para o território o trabalho de Sueli e tudo o que ela representa e conectar as mulheres dos territórios e coletivos com um único propósito – se aquilombar.
Coletiva Emana no IV Festival Casa Sueli Carneiro
Na rica programação proposta pela Coletiva, o legado de Sueli Carneiro, que tece o passado, presente e futuro, foi tema da roda de conversa mediada por Débora Dias, que contou com a participação das convidadas Elaine Correia da Uneafro Brasil, Natália Carneiro da Casa Sueli Carneiro e Juba Mojubá, poeta e arte educadora de São Mateus.
“É um lugar que você pode se abrir, se sentir à vontade para tratar temas que são tão duros, falar sobre tudo o que a Sueli Carneiro construiu também é falar sobre os que ficaram para trás, sobre resgatar e entender o porquê ainda estamos nessa construção de que poucos avançam e muitos ainda ficam para trás”, comenta Elaine.
Como contribuição artística para a vivência, o grupo de Dramaturgia e montagem coletiva da Coletiva Emana performou o ato “Eu Vim de Lá”, uma estória que desperta emoções como o luto e a solidão, sentimentos infelizmente comuns para a população negra. O enredo envolve a plateia a viajar nas memórias devastadoras, mas também a sonhar, e a partir do convívio em coletivo, grandiosas transformações ocorrem na vida das protagonistas.

Juba Mojubá, ao presenciar performance, comenta: “Estar nesse evento, tá sendo muito importante, to olhando para as pessoas e estou rodeada por uma pá de mulheres pretas, está sendo muito importante ressignificar a trajetória e entender que eu também não estou sozinha, a programação trouxe muito isso sobre emanar coletividade como um todo, estou me sentindo muito acolhida, me sinto em um quilombo só de mulheres”
A noite se encerrou com um sarau envolvente, falando principalmente de dor, resistência, amor, esperança e paz, conectando coletivos de diferentes territórios como Periferia Preta, Máfia das Minas, Arruda Baile e HIP HOP DAS MINAS ABCDMRR.
Joy, articuladora da batalha Donas da Rua e membro do núcleo de Mulheres do Hip Hop, encerra o evento refletindo sobre o papel de vivências como essa na ideação de perspectiva de futuro das mulheres negras. “[..] Isso traz uma esperança e também cria uma outra perspectiva de futuro onde a gente possa trocar nossas narrativas, falar das nossas ideias e trocar sobre as nossas dores e as nossas alegrias, acho que isso motiva a gente a continuar dentro do movimento. A gente entende que não está sozinha e não passa por um caso isolado, e todas as mulheres estão nessa luta e nessa força há muitos anos.”










