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Gordon Parks leva 70,4 mil pessoas para exposição sobre a história da população negra no IMS em São Paulo

Fotografia da exposição Gordon Parks no IMS em São Paulo (Divulgação)

O fotógrafo Gordon Parks morreu no dia 7 de março de 2006, há quase 20 anos, com 93 anos de idade. Parks dedicou sua vida à observação e registro do cotidiano da população negra americana, produzindo assim um dos acervos mais icônicos e belos do século 20. 

Termina no próximo dia 1 de março, aqui em São Paulo a exposição gratuita Gordon Parks: A América sou eu, no IMS – Instituto Moreira Salles, na avenida Paulista, 2424. A exposição ocupa dois andares e são mais de 200 fotografias. De outubro de 2025 a fevereiro de 2026, a exposição recebeu a visita de 70.472 pessoas, segundo o IMS. 

Sob curadoria de Janaina Damaceno, com Iliriana Fontoura Rodrigues como curadora assistente e Maria Luiza Meneses como assistente de curadoria,a exposição é a primeira retrospectiva de Parks no Brasil e a maior na América Latina. A exposição é realizada em parceria com a Fundação Gordon Parks, instituição que detém o acervo do fotógrafo e que foi a principal fonte de pesquisa para a concepção do projeto. 

 Entre as obras de Gordon Parks exibidas, estão retratos de nomes centrais do movimento negro americano, como Malcolm X, Martin Luther King e Muhammad Ali, e séries consagradas, como De volta a Fort Scott (1950) e Histórias da segregação no sul (1956).

O título da exposição — A América sou eu — foi tirado de um texto que Parks escreveu para a revista Life, em 1968, no qual aborda numa questão crucial para o movimento negro nos EUA: o fato da democracia americana ter se consolidado sob um regime de segregação racial, excluindo a população negra. O texto acompanhava uma série de fotografias nas quais Gordon registrava as condições precárias dos Fontenelle, família negra moradora do Harlem. 

Ao retratar a condição de vida dos negros nos EUA, sobretudo entre as décadas de 1940 e 1970, Parks documentou em imagens fortes e belíssimas boa parte da base de luta dos movimentos antirracistas ao redor do mundo, sobretudo, no que diz respeitos aos Direitos Humanos e Igualdade Racial. 

Para o olhar dos brasileiros, a exposição é um convite instigante de reflexão sobre as relações ético-raciais no Brasil e a experiência negra na jovem Democracia brasileira, carente de uma estrutura básica de combate ao racismo.

Parks e o Brasil

Outro aspecto importante ressaltado na retrospectiva é a presença de Parks no Brasil. Em 1961, o fotógrafo veio ao país a pedido da Life, para documentar a vida nas favelas cariocas. Ele acompanhou durante algumas semanas o cotidiano da família Da Silva, que migrou do Nordeste para o Rio de Janeiro e, em especial, de seu filho Flávio, que sofria de bronquite crônica. Devido à reportagem, a família recebeu doações dos leitores da revista e comprou uma casa no subúrbio, e Flávio foi levado para os Estados Unidos para tratar de sua doença. O caso teve grande repercussão na imprensa brasileira, e a revista O Cruzeiro enviou o fotógrafo Henri Ballot para fazer uma reportagem sobre a pobreza no Harlem. Além da matéria, Parks realizou também seu primeiro filme, Flavio (1964). Narrado em primeira pessoa, com a voz de um menino, o curta faz parte da história do cinema da diáspora negra, sendo um dos primeiros filmes dirigidos por um homem negro em solo brasileiro. Na exposição, são apresentadas ainda imagens inéditas de Parks no Brasil: crianças jogando bola na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, e um culto evangélico.

Sobre o artista

Gordon Parks nasceu em 1912 na cidade de Fort Scott, no Kansas, durante o regime de segregação racial. Em 1928, sua mãe faleceu e ele se mudou da sua cidade natal, passando por diversos destinos, enfrentando a pobreza e o racismo. Nesse período, trabalhou em diversos empregos em busca da sobrevivência, atuando inclusive como pianista em clubes e hotéis. Em 1937, adquiriu sua primeira câmera fotográfica e, em 1938, publicou suas imagens pela primeira vez no St. Paul Recorder, importante jornal da imprensa negra do estado de Minnesota. Posteriormente, mudou-se para Washington, onde trabalhou para a Farm Security Administration, por onde também passaram fotógrafos como Dorothea Lange, Walker Evans, Russell Lee, Marion Post Wolcott, John Vachon e Carl Mydans. Em 1948, começou a trabalhar na revista Life, uma das mais importantes do mundo, tornando-se o primeiro fotógrafo negro contratado pela publicação. Após o ingresso na Life, sua carreira como fotógrafo consolidou-se cada vez mais, com a publicação de livros e a participação em exposições, com foco no registro da vida da população negra norte-americana e na denúncia ao racismo e à desigualdade, numa união entre arte e ativismo que caracterizou toda sua trajetória. Também atuou como cineasta, tendo lançado, entre outros longas, o filme Shaft (1971), considerado um dos mais relevantes do movimento conhecido na época como blaxploitation. Por sua obra, tanto na fotografia quanto no cinema, recebeu diversas premiações e homenagens. Até hoje o trabalho de Parks influencia artistas das mais diversas áreas, como o rapper Kendrick Lamar, os fotógrafos Zanele Muholi e Devin Allen, e a cineasta Ava DuVernay.

O IMS fica na avenida Paulista, 2424,  a exposição está nos 7 e 8 andares, de terça a domingo e feriados (exceto segundas), das 10h às 20h.

NOTA

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