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Entrevistamos a deputada Juliana Cardoso: resistência periférica no Congresso

Filha de mãe negra e pai indígena, parlamentar fala sobre sua trajetória, desafios, projetos de lei e sonhos para o futuro

A deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP) nasceu e cresceu na zona leste de São Paulo, onde até hoje vive. Sua trajetória política começou nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), acompanhando a militância de sua mãe no Sapopemba. Aos 28 anos, foi eleita vereadora pela primeira vez em 2008, dando início a uma jornada que a consolidou como referência na defesa da saúde pública, da infância, das mulheres e da população periférica. Hoje, no Congresso Nacional, segue conectada às bases que a elegeram.

Em entrevista ao Jornal Empoderado, Juliana falou sobre sua origem, os desafios de ser uma mulher afro-indígena na política, os projetos de lei que apresenta em Brasília e o que espera deixar como legado para as próximas gerações.

Raízes na periferia

“Na periferia nada cai do céu”, diz Juliana, lembrando a luta da sua mãe e das comunidades de Sapopemba por saúde, transporte, escolas e moradia. Foi nesse cenário que ela aprendeu a importância da organização coletiva. “Fui vereadora por quatro mandatos, sempre atuando com os movimentos sociais e consolidando o mandato como um instrumento de luta do povo”, afirma.

Do movimento social ao Congresso

Juliana destaca que sua caminhada até o Congresso sempre esteve ligada às lutas populares. Atuou pela moradia, pelos direitos da infância, contra o extermínio da juventude periférica e em defesa da cultura e da igualdade racial. Na saúde, presidiu a Comissão de Saúde da Câmara Municipal de São Paulo, realizando vistorias em unidades e denunciando irregularidades de Organizações Sociais (OSs).

“Foi uma atuação coletiva, com sindicatos, movimentos populares e audiências públicas. Em 2022, fui eleita deputada federal com 125 mil votos, mais de 80 mil deles vindos da capital”, lembra.

Desafios de ser mulher periférica no Congresso

Juliana não esconde: ocupar o Congresso é, por si só, um ato de resistência. “O maior desafio é existir em um espaço que não foi feito para mulheres como eu: periférica, negra, indígena, mãe e militante popular. Muitas vezes tentam invisibilizar nossa fala e desqualificar nossas propostas. Mas transformo isso em força para reafirmar que a política não é monopólio da elite branca”, afirma.

Logo no início de seu mandato, enfrentou um pedido de cassação que atingiu também outras mulheres parlamentares de esquerda. Para ela, foi um exemplo claro de violência política de gênero. “Cada vez que ocupo aquele espaço, lembro das mulheres trabalhadoras da zona leste e das juventudes que sonham com um futuro digno. Minha presença no Congresso é para abrir portas.”

Racismo estrutural e desigualdade

Ao falar sobre sua defesa de povos indígenas, quilombolas e comunidades periféricas, Juliana é direta: “Não existe democracia sem enfrentar o racismo estrutural. Ele é a base da desigualdade social no Brasil.” Para ela, lutar por moradia, terra, floresta e direito à cidade é também combater séculos de exclusão. “Minha luta é a mesma de quem resiste nas aldeias, nos quilombos e nas quebradas.”

Juliana faz questão de reforçar que seu mandato é coletivo e construído em diálogo permanente com movimentos sociais. “No parlamento, nas ruas e nas redes, a luta é contínua. Estive presente em manifestações e sigo elaborando projetos de lei a partir das demandas históricas das comunidades”, explica.

Legado e futuro

Questionada sobre o legado que deseja deixar, Juliana é firme: “Para as crianças, lutar para que tenham acesso à educação, cultura, saúde e proteção integral – por isso apresentamos o PL das crianças órfãs. Para as mulheres, o legado é ampliar os espaços de poder, garantir enfrentamento à violência de gênero e políticas de autonomia econômica. Para a periferia, quero que a marca seja a resistência e a esperança: mostrar que é possível transformar a vida das pessoas a partir da política. Se no futuro uma menina periférica olhar para a minha trajetória e acreditar que também pode ocupar o Congresso, já terá valido a pena.”

Principais projetos em andamento

Entre suas propostas, destacam-se o PL 3256/2025, que cria políticas integradas para a proteção de crianças e adolescentes órfãos; a regulamentação da profissão de gerontólogo; e o Programa PAI – de atenção ao idoso. Juliana também atua em defesa do SUS, da moradia popular e contra todas as formas de violência, com atenção especial à violência de gênero.

“Todas essas pautas vêm da base, das comunidades, dos movimentos populares, e sigo levando essas demandas para dentro do Congresso, transformando luta em lei e direitos concretos para o povo”, afirma.

Planos para o futuro

Juliana aponta como prioridade a disputa eleitoral de 2026, reforçando a necessidade de reeleger o presidente Lula e ampliar a bancada progressista no Congresso. “Nosso objetivo não é apenas derrotar a extrema-direita golpista e virar a página do bolsonarismo, mas derrotar os partidos do chamado Centrão que sequestraram o orçamento federal para benefícios escusos“.

E finaliza: “Será uma disputa dura, pois a direita está bem estruturada nas redes sociais e com a máquina de fake news funcionando, além da imprensa empresarial do lado contrário ao PT como sempre fez. E agora ainda mais impulsionada pelo PFL (Partido da Faria Lima). Mas, como escreveu Antônio Gramsci, precisamos ser realistas na avaliação de conjuntura e sermos otimistas nas ações.”

NOTA

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