JE- Poderia compartilhar os marcos da sua trajetória pessoal e os caminhos que a levaram até a sua formação acadêmica?
MA – Eu sou Mariana Alves, uma mulher preta, cria da favela. Nasci e cresci nos becos e vielas da zona oeste de São Paulo, no bairro do Rio Pequeno, em territórios como Polopi, Inferninho, Mil e Dez, São Remo, Ponta da Praia e Sapé. Esses lugares não são apenas cenários — são territórios de memória, resistência e formação política.
Estudei na Escola Estadual Daniel Paulo Verano Pontes até o 9º ano. Desde muito cedo, fui atravessada pelos estigmas que recaem sobre meninas pretas da favela. Eu era inteligente, curiosa, questionadora — mas, aos olhos de muitas professoras, isso era traduzido como “ligeira”, “difícil”, “fora do padrão”. O racismo institucional me ensinou cedo que, para nós, a inteligência raramente é reconhecida como potência.
Comecei a trabalhar ainda na adolescência para ajudar em casa. Aos 14 anos, trabalhava em buffet para pagar o meu grande sonho naquele momento: um curso de cabeleireira. Fiz muitas correrias, transitando de um emprego para outro, até consolidar minha trajetória profissional nessa área. Mais tarde, a vida me atravessou de outras formas: casei, me tornei mãe e precisei pausar essa carreira.
Foi nesse momento que a educação entrou na minha vida — pela porta da cozinha. Meu primeiro trabalho na área educacional foi como merendeira. E ali, entre panelas, cheiros e cuidados, eu observava as professoras e pensava: eu quero ser aquilo que eu não tive. Porque, na minha infância, eu não tive educadoras que acreditassem que uma menina preta, favelada, poderia ser alguém.
E, quando menos esperavam, eu me formei pedagoga. Atuei como professora da primeira infância e ali comecei a construir a trajetória que hoje sustenta minha vida profissional. Atualmente, sou diretora de creche no município de Osasco, atendendo mais de 110 crianças de 4 meses a 3 anos e 11 meses.
Ao longo desse caminho, me tornei formadora de educadores, formadora antirracista, psicopedagoga e psicóloga — minha segunda graduação. Tornei-me uma mulher e uma profissional que honra sua ancestralidade, oferecendo às crianças e às comunidades que atendo o melhor de um profissionalismo afrocentrado, ético e comprometido com a vida.
Cresci na favela de São Remo ouvindo que meu destino já estava traçado. Diziam que eu jamais entraria na Universidade de São Paulo para ocupar uma carteira — apenas para acessar seus serviços ambulatoriais. A universidade era vista como um espaço interditado para corpos como o meu.
Mas eu atravessei essas fronteiras. Entrei na USP e ocupei aquelas cadeiras como aluna. E sigo atravessando. Minha trajetória é a prova viva de que o racismo tenta nos limitar — mas não é, e nunca será, suficiente para nos conter.
JE – Sobre a sua atuação no coletivo de mulheres negras: quais são as principais frentes de trabalho hoje e os maiores desafios enfrentados na articulação desse grupo?
MA – Nossa principal frente é a luta por uma educação antirracista, inclusiva e verdadeiramente democrática, da Educação Infantil ao Ensino Superior. Trabalhamos para que a criança — especialmente a criança negra — seja reconhecida em sua integralidade física, emocional, cultural e subjetiva, com seus direitos garantidos desde o início da vida.
O coletivo também atua fortemente na representatividade política e simbólica. Somos mulheres negras ocupando espaços de liderança, gestão e decisão, rompendo, na prática, com a lógica racista que insiste em nos destinar apenas a lugares de subserviência.
Os desafios são profundos e estruturais. Nosso maior enfrentamento é tensionar uma educação ainda colonizada, que se recusa a olhar criticamente para o racismo. Lidamos cotidianamente com a negação, o silêncio e a falsa neutralidade. Porque ser antirracista não é discurso — é compromisso, disposição e atitude diária.
JE – A implementação das leis de ensino de história e cultura africana e afro-brasileira ainda enfrenta barreiras estruturais (Lei 10.639). Como essa lacuna no sistema educacional impacta diretamente a identidade e a construção subjetiva da população negra?
MA – Falando a partir do chão da creche, o impacto é direto e violento: trata-se do direito de existir com dignidade. Quando a educação ignora a história e a cultura negra, ela autoriza a desumanização desde a primeira infância.
Há estudos que demonstram que bebês pretos esperam mais para serem trocados, alimentados e higienizados — e, muitas vezes, para serem acolhidos e amados. Isso é violência racial na primeira infância. É o racismo operando antes mesmo da linguagem verbal.
Nossa luta é garantir que toda criança seja vista em sua totalidade, mas com uma atenção radical às crianças negras, que historicamente têm seus direitos negados desde o berço.
JE – Quais são os desafios urgentes da Educação Infantil hoje? Na sua visão, quais pilares seriam essenciais para um plano nacional prático que garanta uma educação de excelência, inclusiva e efetivamente antirracista?
MA – A Educação Infantil precisa ser pensada a partir de uma cosmovisão humanizada, afrodiásporica e fundamentada na ética do cuidado. Os desafios urgentes passam por romper com práticas higienistas, conteudistas e adultocêntricas que ainda atravessam as creches brasileiras.
Um plano nacional comprometido com a excelência e com a justiça racial precisa se sustentar em pilares como:
- Formação antirracista obrigatória e continuada para todos os profissionais da educação;
- Reconhecimento da criança como sujeito de direitos, e não como objeto de controle;
- Currículos vivos, que valorizem ancestralidade, identidade, território e cultura negra;
- O cuidado como prática política, entendendo que alimentar, tocar, olhar e acolher também educam;
- Uma gestão comprometida com a equidade, que enfrente o racismo institucional de forma explícita.
Educar crianças pequenas é, antes de tudo, cuidar da humanidade que estamos construindo.
JE – Em tempos de debate eleitoral, nota-se uma distância entre as propostas políticas e a realidade do chão da escola. Qual o impacto de se discutir educação sem a participação ativa de gestores e educadores que estão na ponta do sistema?
MA – Discutir educação sem ouvir quem está no chão da escola é produzir políticas desconectadas da realidade. É legislar sobre corpos que não se conhece. É planejar sem escuta, sem território e sem afeto.
Gestores, professoras, educadoras e comunidades escolares carregam saberes fundamentais. Quando esses sujeitos são silenciados, o que se produz são projetos tecnocráticos, distantes, incapazes de enfrentar as desigualdades reais — sobretudo as desigualdades raciais.
Educação se constrói com participação, diálogo e compromisso ético. Qualquer proposta que ignore isso está fadada ao fracasso.
JE – Olhando para sua gestão na Educação Infantil, quais foram as suas maiores conquistas? Poderia detalhar projetos marcantes, como o caso da Viela e as revitalizações que transformaram o ambiente escolar?
MA – Uma das maiores conquistas da minha gestão foi o fortalecimento da parceria com as famílias e com a comunidade. Construímos coletivamente a compreensão de que a creche não é um espaço isolado, mas um território vivo, habitado pelas crianças.
Quando a comunidade entende que aquele espaço também lhe pertence, nasce o cuidado, o zelo e o pertencimento. As famílias passam a proteger, participar e reconhecer a creche como extensão da vida das crianças.
Esse entendimento transformou profundamente o ambiente escolar. Hoje, o entorno cuida do espaço porque sabe: é ali que nossas crianças existem, crescem e sonham.






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