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Entrevista com Geraldo Coelho que lançou seu novo livro “FAVELISMO”

Liderança da Frente Favela Brasil e da Frente Nacional Antirracista

JE – Fale um pouco da sua trajetória

Nasci na favela de Vigário Geral, território marcado pela violência estrutural do Estado, pela criminalização da pobreza e pela potência de uma coletividade forjada na ausência de garantias formais. Posteriormente, minha família se deslocou para Cordovil, onde permaneço até hoje. Sou parte de uma linhagem extensa e popular — meu avô, por parte de mãe, teve 18 filhos — uma genealogia marcada pela solidariedade, mas também pelas feridas que atravessam as famílias negras e faveladas deste país.

Nesse contexto familiar gigante, perdi primos, amigos e até mesmo um irmão, todos tragados por uma guerra que nunca foi nossa — a guerra forjada entre o aparato repressivo do Estado e os grupos armados da economia informal, ambos voltados para o controle dos nossos corpos e territórios. A favela, nesse cenário, não é um palco, mas o campo de batalha. A disputa não é apenas material: é simbólica, epistêmica, existencial.

Aceitar-me como negro e favelado não foi um processo imediato. Durante muito tempo, como tantos de nós, fui alvo da introjeção de estereótipos e da lógica de embranquecimento. Minha trajetória educacional foi tardia, interrompida, marcada por lacunas e recomeços. Demorei a entrar na universidade, mas quando entrei, entrei com a disposição de romper com tudo que me desumanizava. Hoje, sou mestre, pesquisador, ativista e autor. Publiquei um livro acadêmico que não apenas narra uma experiência, mas propõe uma ruptura: o nascimento de uma nova teoria política a partir da favela — o Favelismo.

JE – Como nasce o Frente Favela em sua vida?

O Frente Favela Brasil emerge no calor do enfrentamento político de 2013, em meio às grandes manifestações de rua e, logo depois, ao processo golpista que destituiu a presidenta Dilma Rousseff em 2016. Ali, entre a fratura institucional e a desesperança organizada, compreendemos que era tempo de ousar. Era tempo de romper com a lógica de apenas ocupar espaços nas estruturas existentes — era preciso criar uma nova estrutura, pensada e dirigida por aqueles que sempre foram objeto, mas nunca sujeitos da política institucional: o povo preto, pobre e favelado.

Em 2016, no Morro da Providência, território ancestral da resistência negra no Rio de Janeiro, lançamos as bases do que viria a ser o Frente Favela Brasil. Não como mais uma sigla eleitoral, mas como um instrumento político de insubmissão epistemológica, uma ferramenta de luta e autoafirmação racial, territorial e popular. Foi no processo de construção deste partido que me forjei como militante, dirigente, educador popular e pensador da luta favelada.

O FFB é mais do que uma organização: ele é o corpo político de uma alma teórica chamada Favelismo. Representa a materialização do sonho de que podemos — e devemos — governar o Brasil desde as margens.

JE – Fale sobre o livro Favelismo e como comprá-lo

O livro Favelismo: a revolução que vem das favelas representa uma inflexão teórica sem precedentes no pensamento político brasileiro contemporâneo. Não se trata de um exercício acadêmico descolado da realidade, mas de uma produção orgânica, forjada no entrelaçamento entre experiência vivida, militância radical e sistematização intelectual.

A obra parte do pressuposto de que a favela não é déficit, nem ausência — é excesso de vida, de criação, de potência política e simbólica. O Favelismo, como teoria política, propõe a desconstrução das categorias eurocentradas que historicamente marginalizaram os saberes populares, a oralidade, a espiritualidade de matriz africana e as formas de organização comunitária. No lugar do diagnóstico da falta, propomos a afirmação de um modelo político próprio, enraizado nos territórios favelados.

O livro está estruturado em três grandes blocos temáticos, que organizam sua tessitura analítica e argumentativa:

  1. Favelicídio – abordagem que evidencia a produção sistêmica da morte nas favelas, com ênfase na atuação do Estado como operador da necropolítica racial e de classe;
  2. Favelismo – parte central da obra, onde se formula a teoria política insurgente, ancorada nos códigos culturais, econômicos e filosóficos da favela;
  3. Políticas Públicas – seção propositiva, que articula como o Favelismo pode se desdobrar em ações concretas de gestão, participação social e elaboração de novas institucionalidades.

O livro pode ser adquirido nas principais livrarias físicas, como Travessa e Leitura, bem como nas plataformas online, incluindo Amazon, Magalu, entre outras. Ele também pode ser encontrado em eventos literários, feiras populares e por meio de contato direto com o autor.

JE – Quais os próximos objetivos?

A consolidação do Favelismo como teoria política não é um ponto de chegada, mas o início de uma jornada de longa duração. Diferentemente de muitos partidos e movimentos que se ancoram em teorias importadas, o Frente Favela Brasil é uma das poucas organizações no país que possui uma teoria própria, gestada a partir da realidade brasileira profunda, sem a mediação colonial dos cânones europeus.

Meus próximos passos são no sentido de aprofundar, disseminar e internacionalizar o Favelismo. Estamos promovendo palestras, mesas de debate, lançamentos em feiras literárias, encontros com lideranças periféricas e ocupações simbólicas em espaços acadêmicos e culturais. Em paralelo, estou em processo de elaboração de um novo livro que amplia os fundamentos do Favelismo, especialmente nos campos da economia política, da ética coletiva e da decolonialidade estética.

Outro objetivo é o doutorado, ampliando a presença do pensamento favelado nos espaços formais de produção do saber, sem jamais abandonar a organicidade que me constitui. A universidade, quando ocupada pela favela, precisa deixar de ser templo de silenciamento e se tornar território de escuta.

JE – Resumo do livro – release

Título: Favelismo: a revolução que vem das favelas.
Autor: Gê Coelho.
Editora: Geração.
Ano: 2025.

Release:

Favelismo é uma obra seminal que inaugura uma nova matriz de pensamento político no Brasil. Escrita por Gê Coelho — filósofo, historiador, ativista, fundador do Frente Favela Brasil e presidente do INADI — a obra propõe uma ruptura radical com os paradigmas tradicionais do pensamento ocidental. Ao invés de pensar sobre a favela a partir do olhar externo, o autor propõe pensar desde a favela, em sua complexidade, em sua insurgência, em sua capacidade de formular novos mundos possíveis.

Dividido em três blocos — Favelicídio, Favelismo e Políticas Públicas — o livro articula elementos de história, filosofia, teoria política, antropologia urbana e crítica da colonialidade. Propõe uma ontologia da favela, onde esta é reconhecida como território de invenção civilizatória, e não como falha do projeto moderno.

Mais do que um ensaio acadêmico, o livro é um manifesto político, um chamado à ação, uma proposta de refundação do Brasil desde suas bordas. O Favelismo não é uma utopia distante — é uma possibilidade real, já em curso, que precisa ser reconhecida, estudada, vivida e multiplicada.

NOTA

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