A internet pode te dizer que faculdade não vale mais a pena, mas não é isso que mostram os dados e as experiências
Por Gabi Ananias
Nos últimos anos, diversos conteúdos invadiram a internet com títulos atrativos, sedutores e, à primeira vista, inocentes. Eles seguem a linha dos antigos “manuais da boa esposa” e de tutoriais sobre como conseguir um bom homem ou se tornar uma “esposa troféu”. Foram conteúdos tão elaborados que algumas influenciadoras chegaram a vender cursos sobre o tema, influenciando diversas meninas que hoje decidem não entrar na faculdade ou até mesmo trancá-la para se casar.
Historicamente, o casamento ocupou um lugar central na vida das mulheres. Em diferentes contextos, também foi um instrumento de controle e submissão, reforçando o papel feminino como cuidadora do lar e provedora do afeto, enquanto o homem assumia o papel de provedor financeiro. Mesmo após avanços sociais e legais, como o direito ao trabalho e à educação, o imaginário da mulher que “vive para o marido” volta a ganhar espaço entre influenciadoras e grupos conservadores nas redes sociais.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 48,1% das mulheres brasileiras possuíam ocupação formal no primeiro trimestre de 2024, e 59% das matrículas no ensino superior pertencem a mulheres. Ainda assim, discursos que romantizam a dependência financeira ou o abandono dos estudos têm atraído seguidoras que se identificam com a promessa de uma “vida simples e protegida”.
O Central Periférica ouviu estudantes, pesquisadoras e artistas para compreender suas posições e sentimentos sobre a falta de incentivo aos estudos. A reportagem também procurou influenciadoras que compartilham suas rotinas como “esposas troféu”, mas nenhuma aceitou se pronunciar.
Estudante de Têxtil e Moda na Universidade de São Paulo, Beatriz Gonçalves enfrentou diversas situações adversas até ingressar na faculdade. Hoje, no final da graduação, afirma que jamais consideraria desistir dos estudos, especialmente por um relacionamento. Para ela, se formar é mais do que uma conquista acadêmica: é uma realização pessoal que traz a sensação de dever cumprido.
A podcaster e influenciadora Sofi Disse, conhecida pelos conteúdos sobre autonomia, amor-próprio e autoconhecimento no podcast Colo de Amiga, também se posiciona contra a disseminação desse tipo de discurso.
“Existe uma romantização muito grande em torno da figura da ‘esposa troféu’, especialmente pela forma como esses conteúdos circulam nas redes. Eles refletem o retorno de um conservadorismo que encontra na internet um espaço fértil para disseminar ideias preconceituosas e retrógradas”, afirma.
Sofi relembra que a faculdade teve um papel fundamental na construção de sua autonomia, não apenas financeira, mas também emocional. Ela reforça que as diversas formas de dependência, e não só a econômica, podem afetar uma pessoa de múltiplas maneiras e provocar, principalmente, sentimentos de vergonha e silenciamento.
No cruzamento entre amor, status e autonomia, as redes sociais transformaram o casamento em um novo campo de disputa simbólica. Enquanto algumas jovens enxergam nesses vídeos um modelo de tranquilidade e segurança, outras identificam um retrocesso disfarçado de escolha individual.
O Central Periférica não encerra sua análise aqui. Fique atento(a/e) ao nosso canal no YouTube, onde conversaremos com a professora Dayana Karla Mello sobre a importância da universidade, especialmente para pessoas negras e periféricas, e sobre o impacto das redes sociais nesse debate.
Texto: Gabi Ananias.
Revisão e edição: Brenda Evaristo.










