» Post

Brasil gastou mais de R$ 10 bilhões em um ano com Big Techs

Estudo inédito da USP e UnB revela gastos com fornecedores de tecnologia estrangeira

O Brasil já respira o clima de eleição de 2026 e a manutenção do governo Lula se faz necessário quando se pensa na volta de uma extrema direita que quando estava no poder contribui para desmonte de políticas públicas em especial no que toca à comunicação. 

O governo de Jair Messias Bolsonaro foi a mola propulsora para a disseminação de uma comunicação antidemocrática e sem um projeto de comunicação popular e plural. 

Nada mais normal que um governo que a esquerda estaria mais atento a questões de uma comunicação com mais cara de Brasil. Então, nos assusta esse cenário de um governo progressista tão alinhado a Big Techs, como veremos a seguir nos dados pesquisados por essas duas instituições educacionais de ensino superior referência no país e no mundo.

Quanto foi gasto pelo governo?

O montante desembolsado pelo setor público brasileiro com licenças, nuvem e produtos tecnológicos internacionais apenas entre junho de 2024 e junho de 2025 ultrapassou R$ 10,35 bilhões, valor superior ao orçamento de diversos ministérios federais. Para termos comparativos, o recurso seria suficiente para pagar bolsas integrais de pós-graduação para 100% dos 350 mil mestrandos e doutorandos do país, não apenas os bolsistas, considerando os valores CAPES/CNPq de R$ 2.100 mensais para 250 mil mestrandos e R$ 3.300 para 100 mil doutorandos, durante um ano inteiro.

Sobre a pesquisa

Realizada por pesquisadores do Grupo de Estudos em Tecnologia e Inovações na Gestão Pública (GETIP-USP) em parceria com o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional (GEPSI-UnB), a pesquisa consolida, pela primeira vez, cinco bases fragmentadas de compras governamentais e revela que o setor público brasileiro, nas três esferas, contratou pelo menos R$ 23 bilhões em licenças de software, nuvem, segurança digital e softwares de TIC entre 2014 e 2025, sem contar sobreposições e inconsistências na transparência, uma vez que as próprias bases do setor público são fragmentadas.

Apenas entre junho de 2024 e junho de 2025, R$ 10,35 bilhões foram empenhados em licenças de software, serviços de nuvem e produtos tecnológicos estrangeiros. Para comparar, este seria um valor suficiente para pagar bolsas a todos os 350 mil pós-graduandos do país durante um ano inteiro (considerando 100 mil doutorandos a R$ 3.300 mensais e 250 mil mestrandos a R$ 2.100, segundo os valores da Capes e CNPq). Em outro cálculo, esse mesmo valor R$ 10,35 bilhões seria o suficiente para manter a Universidade de Brasília (UnB), com todos os custos operacionais, de corpo docente e demais previsões no orçamento, por até quatro anos e meio.

No recorte do atual mandato, entre janeiro de 2023 e junho de 2025, as três esferas do setor público brasileiro contrataram R$ 5,97 bilhões em licenças de software, R$ 9 bilhões em soluções de nuvem e R$ 1,91 bilhão em segurança digital.

Quando observamos o quadro completo entre janeiro de 2014 e junho de 2025, quatro corporações lideram os contratos no país com o setor público: licenças de softwares da Microsoft foram negociadas a R$ 3,27 bilhões nas três esferas (sendo R$ 1,65 bilhão só no primeiro semestre de 2025); serviços de nuvem da Oracle somaram R$ 1,02 bi; seguido do Google, com serviços vendidos a R$ 938 mi; e Red Hat, com R$ 909 mi em serviços vendidos. Vale reforçar que esses serviços, licenças e softwares, em boa parte, são negociados por CNPJs de terceiros, sendo um mercado especializado em intermediação de licenças de software para o setor público.

Além do levantamento quantitativo de milhões de itens e milhares de contratos, o estudo aponta que, ao delegar infraestrutura crítica a fornecedores globais, o modelo atual aprofunda a dependência tecnológica do setor público brasileiro, minando a autonomia digital e bloqueando o fortalecimento de soluções nacionais.

Material pesquisado no neste link: 

Pesquisadores responsáveis pelo estudo: Ergon Cugler / Isabela Rocha / José Carlos Vaz / Camila Modanez / Julia Veneziani

Algumas curiosidades:

  1. O setor público brasileiro contratou pelo menos R$ 23 bilhões em TIC entre 2014 e 2025, sem contar sobreposições nem dados não padronizados, sendo R$ 10,35 bilhões apenas no último ano: A análise das bases ComprasNet e Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) permitiu estimar esse valor piso, revelando a dimensão dos investimentos em tecnologia estrangeira, ainda que o número real possa ser significativamente maior devido à fragmentação das bases da União e inconsistência dos dados.
  2. Nos últimos dois anos e meio, foram mais de R$ 17 bilhões em licenças, nuvem e segurança digital: Somente entre 2023 e junho de 2025, o setor público brasileiro contratou R$ 5,97 bilhões em licenças de software, R$ 9 bilhões em soluções de computação em nuvem e R$ 1,91 bilhão em softwares e serviços de segurança, categorias estratégicas dominadas por fornecedores estrangeiros.
  3. Quatro grandes empresas lideram as contratações públicas federais de tecnologia: Microsoft, Oracle, Google e Red Hat concentram volumes bilionários: a Microsoft sozinha aparece com R$ 3,27 bilhões no ComprasNet, sendo R$ 1,65 bilhão apenas no primeiro semestre de 2025; no PNCP, Oracle (R$ 1,02 bi), Google (R$ 938 mi) e Red Hat (R$ 909 mi) dominam os contratos desde 2022.
  4. O valor que o setor público brasileiro gastou com licenças de software e contratos de tecnologia internacionais seria suficiente para pagar bolsas para 100% dos pós-graduandos do país: O valor que o setor público brasileiro gastou com licenças de software, serviços de nuvem e produtos tecnológicos estrangeiros entre junho de 2024 e junho de 2025 (R$ 10,35 bilhões) seria suficiente para pagar bolsas integrais para 100% dos pós-graduandos do país durante um ano inteiro (e não apenas atuais bolsistas). Considerando 100 mil doutorandos a R$ 3.300 por mês e 250 mil mestrandos a R$ 2.100 por mês (valores das bolsas CAPES/CNPq), o custo total anual seria de R$ 10,26 bilhões, um pouco abaixo do que foi transferido em um único ciclo orçamentário.
  5. O valor que o setor público brasileiro gastou com licenças de software e contratos de tecnologia internacionais no último ano poderia manter a UnB por quatro anos e meio: Para 2025, os custos totais da UnB totalizam 2,22 bilhões previstos para os 12 meses, incluindo salários e encargos de professores, servidores e técnicos; contratos de terceirização de serviços essenciais como vigilância e limpeza; contas de energia, água e telefonia; manutenção e aluguel de imóveis; além das despesas com o Restaurante Universitário e a infraestrutura acadêmica e administrativa. Com o valor de gastos do setor público entre junho de 2024 e junho de 2025 (R$ 10,35 bilhões), seria possível manter uma universidade do porte da UnB por pelo menos quatro anos e meio;
  6. Com os R$ 23 bilhões já destinados à aquisição de tecnologia estrangeira entre 2014 e junho de 2025, seria possível construir e inaugurar pelo menos 86 data centers de alto padrão no Brasil: Com os recursos já destinados à contratação de soluções estrangeiras, o setor público brasileiro poderia ter aumentado em quase 50% o montante total atual de data centers, que hoje conta com cerca de 162 data centers, inaugurando 86 data centers Tier 3 de 5 MW;
  7. O modelo atual de contratação tecnológica aprofunda a dependência do Brasil de corporações estrangeiras: Ao delegar infraestrutura crítica a fornecedores globais, o setor público brasileiro compromete sua autonomia tecnológica, reduz sua capacidade estratégica, compromete sua capacidade de defesa, e bloqueia o surgimento de soluções públicas nacionais baseadas em soberania digital. À parte os riscos à soberania nacional em sentido amplo, uma enorme possibilidade de promoção do desenvolvimento econômico e geração de emprego qualificado é desperdiçada.

Entrevistamos o professor e coordenador da pesquisa CNPq Ergon Cugler:

Sobre os gastos do Brasil com essas empresas, o senhor acha um bom caminho?

“Não faz sentido o Brasil gastar bilhões de reais em contratos com fornecedores estrangeiros de tecnologia enquanto nossas universidades e centros de pesquisa operam com orçamentos apertados há décadas. Estamos enviando dinheiro público para sustentar a inovação em outros países, quando poderíamos investir esse mesmo valor aqui, fortalecendo a capacidade científica nacional, gerando empregos qualificados e desenvolvendo soluções tecnológicas próprias. A escolha revela uma inversão de prioridades que compromete o futuro do país.”. 

Sobre contratar tecnologia estrangeira nessa situação, o que acha?

“Ao contratar tecnologias prontas do exterior, o setor público não apenas transfere recursos, mas também abdica de um ciclo virtuoso de inovação local. Cada contrato fechado com uma multinacional é uma porta fechada para startups brasileiras, institutos públicos e redes de universidades que já têm competência técnica para entregar soluções de ponta. Estamos perdendo a chance de transformar demanda pública em motor de desenvolvimento. A tecnologia comprada de fora não volta em forma de emprego, renda ou autonomia. A tecnologia feita aqui dentro sim.”. 

Qual seria a melhor saída para o país professor?

“O que está em jogo não é só o valor dos contratos, mas o tipo de país que queremos construir. Quando todos os nossos sistemas operam em plataformas estrangeiras, sob regras que não controlamos, perdemos mais do que dinheiro, perdemos soberania. O Brasil tem infraestrutura, tem cérebros e tem rede pública qualificada para oferecer alternativas robustas. Mas para isso acontecer, é preciso uma decisão estratégica: investir no que é nosso. Com os mesmos recursos que hoje sustentam Big Techs, poderíamos financiar datacenters nacionais, ciência aberta, segurança digital sob jurisdição própria e gerar milhares de empregos qualificados. É uma escolha que pode mudar nossa Ciência.”

Contatos dos autores disponíveis para entrevistas:

Ergon Cugler, pesquisador CNPq e coordenador do estudo – contato@ergoncugler.com

NOTA

Não deixe de curtir nossas mídias sociais. Fortaleça a mídia negra e periférica

Esta gostando do conteúdo? Compartilhe!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

» Posts Recentes

Categorias

Você também pode gostar

Utilizamos seus dados para analisar e personalizar nossos conteúdos e anúncios durante a sua navegação em nossos sites, em serviços de terceiros e parceiros. Ao navegar pelo site, você autoriza o Jornal Empoderado a coletar tais informações e utiliza-las para estas finalidades. Em caso de dúvidas, acesse nossa Política de Privacidade