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América Latina sob ameaça do imperialismo dos EUA – desafios e perspectivas

Por Dennis de Oliveira

A invasão e o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, por parte das forças militares dos Estados Unidos em 3 de janeiro sinaliza para um novo capítulo na geopolítica mundial. O que se depreende deste episódio:

I – Os Estados Unidos possuem uma força militar incomparável: a operação foi cirúrgica, em pouco mais de 50 minutos, um ataque cibernético operado pelas forças estadunidenses inutilizou todos os sistemas de defesa venezuelanos, as defesas antiaéreas foram destruídas e o presidente e sua companheira foram defendidos apenas pela equipe de segurança pessoal. Segundo o ministro do Interior da Venezuela, Diosdalo Cabello, foram mortas cerca de 100 pessoas, entre soldados venezuelanos e militares cubanos que atuam em parceria com a Venezuela; e Maduro e Cilia foram sequestrados e levados pelos estadunidenses.

II – Esta assimetria de poderio militar dos Estados Unidos ocorre justamente no momento em que há uma nítida decadência do seu poderio econômico. As ações do imperialismo estadunidense tem como último recurso usar da superioridade militar para continuar impondo o seu domínio.

III – Apesar desta vitória expressiva nesta operação, há um impasse pois o imperialismo estadunidense não conseguiu destruir a estrutura do Estado bolivariano da Venezuela. Mesmo com o sequestro do seu presidente, o Estado venezuelano manteve-se intacto, com a subida ao poder da sua vice-presidenta Delcy Rodrigues, a manutenção de todos os órgãos do poder bolivariano e uma unicidade no discurso dos seus principais membros. Importante destacar que o Estado venezuelano continua considerando Maduro como seu presidente.

A operação do imperialismo estadunidense coloca uma situação importante para a América Latina, em especial a América do Sul. Na busca desesperada de manter a sua hegemonia mundial, os Estados Unidos não hesitarão em usar o que tem de mais forte – o seu poderio militar. Por isto, a soberania dos estados nacionais latino-americanos correm sérios riscos. Ao contrário do que ocorria no período da Guerra Fria, em que a geopolítica se equilibrava entre duas superpotências mundiais, que possibilitava que projetos nacionais de países da periferia do capitalismo podiam jogar com as contradições, a situação atual é mais complexa – há uma única superpotência militar mundial que está em decadência econômica mas tem ainda poderio militar incomparável, que reduz as margens de manobra na construção de projetos nacionais soberanos.

Do ponto de vista econômico, é fato que o poderio da China abriu novas possibilidades de jogo econômico para as nações. A construção dos BRICs (bloco formado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e que se expandiu para outros países) abriu novos corredores de transações comerciais. O maior temor dos Estados Unidos é a desdolarização da economia, a construção de corredores de transações comerciais por fora do padrão-dólar. Com isto, mecanismos de pressão como as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos acabam tendo pouco efeito. O caso da Rússia, sancionada pelos EUA e aliados da OTAN, pela guerra contra a Ucrânia é um demonstrativo disso: inicialmente, a Rússia sofreu um baque, mas o rápido redirecionamento para o campo da China fez a economia russa se recuperar. Assim como a Venezuela, sancionada economicamente há mais de dez anos – os acordos firmados com Rússia, China e Irã possibilitaram uma recuperação da economia venezuelana. Não foi à toa que o presidente dos EUA, Donald Trump, colocou como uma das suas principais exigências à Venezuela o rompimento de acordos comerciais com China, Rússia e Irã. 

Entretanto, é importante lembrar que os BRICs são uma aliança comercial e não militar. Pertencer aos BRICs não significa automaticamente ter uma “proteção” contra as agressões militares do imperialismo estadunidense. Há países que ingressaram nos BRICs como a Arábia Saudita que são aliados de primeira hora dos Estados Unidos.

Tal situação coloca uma pá de cal na ordem internacional construída após a II Guerra Mundial. As instituições criadas nos acordos de Bretton Woods são totalmente inoperantes. O atual governo dos Estados Unidos partiu para a total ofensiva – saiu de mais de 60 organismos multilaterais das Nações Unidas, usa e abusa do seu poderio militar para impor seus interesses, ameaça a própria aliança militar da OTAN com o desejo de ocupar a Groenlândia, território colonizado pela Dinamarca. E abertamente intervém nos processos eleitorais de países soberanos na América Latina, como aconteceu em Honduras (forçou a eleição de um aliado seu para a presidência). 

O que fazer?

Militarmente não há como haver enfrentamento direto com os Estados Unidos, ainda mais com a América Latina desunida. Os fóruns construídos no início do século XXI, como a Unasul (União das Nações Sulamericanas) e a Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe) ficaram totalmente inoperantes, principalmente com a eleição de governos de direita e apoiadores do imperialismo estadunidense em vários países do continente. Assim, a opção é atuar para desgastar politicamente o imperialismo de forma que contenha tais ações. É um jogo complexo e difícil que exige das correntes políticas anti-imperialistas uma capacidade de analisar cada peça deste jogo de xadrez.

Enfrentamentos imediatos: uma eleição importantíssima que teremos entre maio e junho na Colômbia. A Colômbia tem sete bases militares estadunidenses e é atualmente governada por forças progressistas e anti-imperialistas. A vitória de um governo fantoche do imperialismo na Colômbia coloca em risco a situação da Venezuela, pois os países são vizinhos. A Colômbia poderia ser uma base de apoio de uma invasão por terra à Venezuela ou mesmo uma ameaça de invasão, funcionando como uma espada na cabeça do governo venezuelano. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, tem sido uma voz importante na denúncia do imperialismo. Por isto, a retórica de ameaças de Trump tem se direcionado contra Petro. A eleição na Colômbia pode ser um indicador de como será a perspectiva da luta pela soberania nacional no continente latino-americano.

Outra eleição importante é a do Brasil, o maior país do continente e membro dos Brics. Aqui é importante apontar a necessidade das forças progressistas brasileiras incorporarem o discurso da soberania nacional e da unidade latino-americana como pontos principais. Demonstrar que a vitória da extrema-direita no Brasil é um risco para a soberania nacional. E isto ficou muito nítido com as ações da extrema direita brasileira que chegou a hastear uma bandeira dos EUA na Avenida Paulista em pleno dia da independência do Brasil. O acolhimento dos EUA a figuras de extrema direita brasileira é um indicador de que o império do Norte tem sido uma base de ação desta corrente. A mídia hegemônica brasileira, dominada e controlada pelo capital rentista que é subordinado ao imperialismo estadunidense, tem sido um outro vetor, com desinformações sobre estas ações do imperialismo. Percebam como na mídia hegemônica, duas editorias são particularmente uníssonas nas abordagens: economia (agenda do capital rentista) e internacional (perspectiva do imperialismo estadunidense).

A mídia hegemônica reproduz acriticamente as declarações e rompantes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump sem qualquer preocupação com uma verificação das veracidades. Se, conforme afirmou o grego Ésquilo, na guerra a primeira vítima é a verdade, a morte da verdade feita por Trump é reverberada pela mídia hegemônica brasileira. Alguns exemplos:

  • Trump afirmou que 50 milhões de barris de petróleo da Venezuela serão destinados aos EUA. A Venezuela vai vender esta quantidade para os EUA mas isto significa pouco mais de 15% da atual produção venezuelana. 
  • O uso do termo “captura” para designar o que foi um sequestro do presidente da Venezuela e sua esposa. Captura implica necessariamente em uma criminalização da “pessoa capturada”, um “fugitivo”. Ao usar o termo captura, ao mesmo tempo que a mídia hegemônica reproduz a narrativa dos EUA para a ação, também valida as alegações/acusações feitas por Donald Trump de que Nicolas Maduro é lider de uma facção de narcotraficantes, fato que até mesmo a Procuradoria da Justiça dos EUA admitiu não ter  indícios.

Uma terceira eleição importante é no próprio Estados Unidos, a eleição parlamentar em novembro. Ainda que haja pouca diferença político-ideológica entre Democratas e Republicanos, uma derrota de Donald Trump e a conquista da maioria pela oposição democrata no Congresso dos EUA criaria mais dificuldades para a ação do atual mandatário estadunidense. Tendo que enfrentar mais problemas internos, Trump teria que conter seu ímpeto agressivo fazendo com que haja um respiro e possibilidades de rearticulação das nações do chamado Sul Global.

Poderosos mais não invencíveis

O diagnóstico de que o poderio militar dos EUA é insuperável nos dias de hoje não significa que o imperialismo é invencível. Os enfrentamentos imediatos que apontei anteriormente são elementos que devem ser levados em consideração para uma “guerra de guerrilhas” (no sentido metafórico) contra o imperialismo. 

Neste sentido, a vitória da Rússia na guerra contra Ucrânia tem um aspecto positivo pois significará a derrota de um país que foi fortemente apoiado pela aliança militar liderada pelos EUA. Vai gerar uma crise na OTAN, particularmente na Europa. Por isto que os EUA tem apostado muito mais na iniciativa particular do seu próprio poderio militar que nas alianças construídas no pós-guerra. A Europa Ocidental, meio que abandonada a própria sorte, vive uma crise enorme, deixando de ser um ator político de relevância no cenário mundial. 

Iniciativas de construção de alianças militares regionais a partir de projetos nacionais, como a Aliança dos Estados do Sahel (AES) formada por Burkina Faso, Niger e Mali no continente africano são importantes. Embora o objetivo imediato seja o enfrentamento do imperialismo francês e as ações terroristas da Al Qaeda, não se garante soberania nacional e regional anti-imperialista sem a construção de alianças militares de autodefesa com este sentido. Por isto, o fracasso da tentativa e construção de uma aliança militar sul-americana como a Unasul é um retrocesso para o nosso continente.

Considerar a vitória da Rússia na guerra com a Ucrânia importante não significa endossar ou não o regime de Putin, assim como repudiar a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente e sua companheira não significa concordar ou não com o governo de Maduro. Não se trata de “princípios ou valores universais em abstrato”. 

Inclusive as análises feitas sobre o governo de Nicolas Maduro na Venezuela devem levar em conta diversas variáveis, como o cerco imposto pelo imperialismo desde a consolidação da revolução bolivariana, a situação difícil por conta do bloqueio econômico, o impacto na economia com a queda nos preços do petróleo (a economia venezuelana ainda é extremamente dependente das exportações de petróleo), entre outros. Ainda assim, a economia venezuelana vinha se recuperando nos últimos anos.

Uma geopolítica progressista implica em entender qual o cenário mais favorável para a construção de projetos nacionais nos países da periferia do capitalismo, como as nações da América Latina (Brasil, inclusive), do continente africano (destaque para as lutas dos povos da região do Sahel), no Oriente Médio (interromper o genocídio do povo palestino praticado pelo Estado de Israel, defesa da soberania do Irá, Síria, Líbano, entre outros). E hoje o maior perigo – inclusive para a paz mundial – é o poder desmesurado do imperialismo dos Estados Unidos. Todas as ações que vão no sentido de conter, desgastar e interditar este poder são importantes. A América Latina que desde os tempos da Doutrina Monroe (rebatizada pelo governo Trump de “doutrina Donroe” – combinação do nome de Donald com Monroe) é vista como “quintal dos EUA” tem esta agenda na sua luta contracolonial e pela soberania.

Dennis de Oliveira é professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP, coordenador do CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação), autor dos livros Racismo Estrutural: uma perspectiva histórico-crítica (Ed. Dandara, 2021); Jornalismo e emancipação: uma prática jornalística baseada em Paulo Freire (Editora Appris, 2017), Iniciação aos estudos de jornalismo (Ed. Abya Yala, 2023) e Cultura totalitária: a sociabilidade humana em questão (Ed. Abya Yala, 2025). E-mail: dennisol@usp.br Site: http://dennisoliveira.info

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