Mais um semestre letivo – e com ele, a sangria silenciosa é marcada pelo giz, que risca o chão de terra batida e é, sim, arma de desenraizamento. O corpo negro chega à escola contendo em si a herança dos mortos e as marcas dos ritos carregados; a escola, por sua vez, opera como a árvore do esquecimento – exige um corpo dócil, silencioso e desmemoriado. Ela se consolida como o espaço do “outro”, enquanto o terreiro permanece como reduto do nós. Repare: enquanto o terreiro nos ensina sobre representatividade, a sala de aula muitas vezes entrega o vazio.
A escola dita as regras do jogo: controla desde por onde se pode andar até o que é permitido imaginar. Dita quem pode pertencer, quem tem o saber validado e quem tem o direito de escreviver. Através do giz, delimita o lugar do silêncio, da passividade ou da punição – o aviso de despejo. Um despejo que acontece da educação infantil ao ensino médio, e as narrativas são endereçadas a nós, que possuímos “defeito de cor”.
Não peço permissão ou complacência para que compreendam a dor da infância negra. Tampouco farei notas de rodapé explicativas para justificar como a escola, muitas vezes, atua como o braço institucional que diz: “aqui você não cabe”. A criança negra enfrenta uma dupla negação: a de ser considerada incompleta por ser criança e a de ser vista como desviante por ser negra.
O documentário Nunca Me Sonharam (2017) traça o retrato da exclusão — um fenômeno que insistem em chamar de “evasão escolar”. Nesse cenário de negligência, é preciso dar nomes correto à fratura: expulsão. A promessa de “Educação para todos” torna-se um mito.
Para uns, a educação do pensamento, o direito ao tempo de Conceição. Para outros, a educação da subalternidade, o confinamento no quarto de despejo. É fadada ao fracasso qualquer postura que intencione desconhecer que a ausência de docentes negros é o primeiro risco de exclusão. Diante do analfabetismo racial de um corpo docente, a infância negra vê o chão da escola ser riscado por mãos alheias. Veja: a menina negra entra pela cota, permanece pelo auxílio, mas evade pelo desamor e pelo apagamento de sua existência intelectual.
Trago Jeferson Tenório e a potência de O Avesso da Pele para fechar essa trindade com Ana Maria Gonçalves (Um Defeito de Cor) e Frantz Fanon (Pele Negra, Máscaras Brancas). Esse encontro é o golpe de misericórdia na camuflagem da realidade: O círculo de isolamento onde a menina negra é deixada só no recreio; O traço de giz na lousa que não conta a sua história; O limite simbólico que empurra seu corpo para fora.
A “política do avestruz” é a metáfora perfeita para descrever como a sociedade e o sistema escolar fingem que a evasão é “desinteresse” da aluna — tudo para não terem que olhar para a própria lâmina que corta e expulsa. A evasão tem o rosto de uma menina real, com o olhar estático na janela da sala de aula. Traz o silêncio ensurdecedor de quando se é a última a ser escolhida na dança da festa junina. Desenha-se no gesto daquela que arruma o material escolar e decide não voltar mais, porque aquele chão a rejeitou diariamente.
São diversos os fatores que levam a esse cenário: as violências diretas e estruturais; desigualdades econômicas e pobreza menstrual; distorção série-idade e gravidez na adolescência; dinâmicas familiares e a necessidade de auxiliar no sustento da casa.
A ideia de que a escola sempre foi pública e acessível a todos é um mito que precisamos desmantelar. Historicamente, a população negra foi impedida por lei de acessar os bancos escolares. No Império, mesmo os negros livres eram barrados sob o argumento de “evitar o contágio de moléstias” ou para manter a ordem social. Com a República, criaram-se critérios seletivos de acesso que, na prática, mantinham as crianças negras do lado de fora.
Antes, barrava-se na porta, por meio da lei. Hoje, desestrutura-se a mente e o afeto da menina lá dentro, até que ela mesma sinta que aquele espaço não é o seu lugar e decida sair. O racismo nos faz girar sobre o próprio eixo, como se nunca tivéssemos saído do pós-abolição. Por isso,insisto: a evasão não é uma “escolha” ou apenas fruto de vulnerabilidade socioeconômica – ela é uma expulsão subjetiva.
Essa prosa não é fora da curva: é uma denúncia necessária contra o memoricídio cultural e a manutenção de privilégios. Embora o Brasil possua marcos legais robustos — como a própria Lei 10.639/03 —, sua aplicação prática ainda é pontual, folclórica e reativa. Diante dos inúmeros episódios de racismo, a resposta institucional padrão é o silenciamento (tido como “coisa de criança”) ou uma mediação superficial que evita o debate racial. A escola continua operando como um filtro de expulsão quando assiste passivamente ao racismo interpessoal. Para não sofrer, a menina não evade: ela foge de um território de dor.
Escrevo, denuncio e pauto o racismo no ambiente escolar, para que o chão da escola deixe de ser um risco de exclusão e a evasão deixe de ser a linha final de uma história sem fim. Insisto em transformar a herança da servidão em verbo de libertação. Conceição vive na teimosia de Carolina que resiste.








