Por Lyllian Bragança e Tadeu Kaçula
O carnaval de São Paulo, tal como se apresenta hoje, é fruto direto da resistência, da criatividade e da força política das mulheres negras que, desde o início do século XX, estruturaram nas ruas, vielas e comunidades a base cultural que possibilitou o surgimento das escolas de samba paulistanas. Se hoje existe uma organização complexa de desfiles, quadras, enredos e uma indústria que movimenta milhões de reais, é porque, antes de tudo, matriarcas como Dona Sinhá — esposa de Seu Inocêncio Tobias, pilar do Camisa Verde e Branco —, Madrinha Eunice fundadora da Lavapés, Dona Olímpia do Vai-Vai, Tia Maria Rainha da Nenê de Vila Matilde, construíram, tijolo por tijolo, a sustentação afetiva, comunitária e espiritual dessa festa.
Essas mulheres, contudo, vêm sendo gradativamente empurradas para uma região sombria da memória oficial, enquanto seus lugares de destaque são ocupados por mulheres brancas, frequentemente celebridades ou figuras midiáticas, que não pertencem às comunidades que deram origem ao samba paulistano. Este artigo, escrito a partir de uma perspectiva afro-diaspórica e em parceria com a jornalista Lyllian Bragança, busca refletir sobre a urgência de recuperar as histórias e contribuições dessas matriarcas, denunciando o processo de branqueamento que atravessa o carnaval e reafirmando a centralidade das mulheres negras nesse território simbólico e político.
O carnaval paulistano nasce nos territórios negros da cidade, em bairros como Barra Funda, Bexiga e Vila Matilde, moldado por práticas culturais que vieram da diáspora africana e foram reelaboradas no contexto urbano. É importante reconhecer que essas mulheres negras não apenas participavam dos festejos, mas exerciam funções essenciais na organização comunitária, na preservação das tradições, na articulação política e na sustentação espiritual das escolas.
Dona Sinhá, por exemplo, era mais que a esposa de uma liderança do Camisa Verde e Branco: ela articulava eventos, acolhia sambistas, cuidava da comunidade e mantinha viva a memória do território. Madrinha Eunice, fundadora do Lavapés em 1930, foi a primeira mulher negra a liderar uma escola de samba no Brasil, enfrentando tanto o racismo institucional quanto a tentativa de negar às mulheres negras o direito à liderança, no entanto, ela liderou as crianças sendo o futuro das escolas de samba que nasceram após 1937. Dona Olímpia, no Vai-Vai, transformou sua casa em centro cultural e ponto de encontro da comunidade, e Tia Maria, na Nenê de Vila Matilde, sustentou com seu trabalho e sua espiritualidade um dos mais importantes símbolos do samba paulista. São mulheres cujas trajetórias misturam resistência, liderança e pedagogia comunitária.
Essas matriarcas, embora raramente reconhecidas pela academia ou pela mídia tradicional, são verdadeiras intelectuais da diáspora negra. Seus saberes transitam por campos múltiplos: religião, música, cuidado comunitário, gestão, estética, finanças e estética corporal. Tais práticas se alinham ao conceito de amefricanidade formulado por Lélia Gonzalez, que situa a produção cultural afro-diaspórica como fruto de uma articulação entre ancestralidade, reinvenção e resistência. Nesse sentido, a contribuição de Thereza Santos é indispensável. Atriz, militante e intelectual, atuou tanto no Brasil quanto em países como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Senegal. No carnaval paulistano, sua presença em escolas como Camisa Verde e Branco e Unidos do Peruche consolidou uma perspectiva crítica sobre as relações de gênero e raça. Thereza entendia a parceria entre homens e mulheres negras na diáspora e isso se consolidou para os terreiros de samba.
A partir do momento em que o carnaval começou a ganhar visibilidade e investimento, sobretudo a partir das décadas de 1970 e 1980, ocorreu uma operação de branqueamento similar ao que aconteceu em outras manifestações culturais negras. As escolas de samba foram empurradas para uma lógica de espetáculo, regida por interesses econômicos e comerciais que buscavam “embelezar” e “profissionalizar” a festa. Esse processo envolveu, de forma intensa, a substituição de mulheres negras por mulheres brancas em posições de destaque. As figuras de rainha de bateria, madrinha, musa e outras categorias simbólicas — originalmente voltadas a reconhecer e exaltar a força feminina negra — tornaram-se plataformas para celebridades brancas. A mídia, ao privilegiar corpos brancos como mais “vendáveis”, reforça uma estética que naturaliza a exclusão das mulheres negras e transforma seus papéis históricos em meros figurinos, deslocados de sua ancestralidade.
Essa substituição opera como violência simbólica, nos termos de Pierre Bourdieu. Trata-se da imposição de uma visão de mundo que desvaloriza os corpos negros e os substitui por corpos brancos sob o pretexto de modernização ou de atratividade comercial. O termo “sinhazinhas brancas”, empregado aqui, não diz respeito apenas à cor da pele, mas à carga colonial que acompanha a ocupação de espaços de poder por mulheres brancas em territórios construídos por mulheres negras. Ao adentrarem tais espaços, as “sinhazinhas” reeditam simbolicamente a estrutura escravocrata que colocava mulheres brancas no topo das hierarquias raciais e de gênero, enquanto relegava as mulheres negras ao trabalho invisível. Assim, vemos uma inversão perversa: aquilo que foi criado como celebração da ancestralidade negra transforma-se em vitrine para corpos brancos desconectados da cultura que representam.
Essa disputa é especialmente grave quando consideramos o papel ambíguo que historicamente recai sobre os corpos femininos negros. Eles são exaltados como símbolos máximos do samba, da sensualidade e da força, mas simultaneamente são hiperssexualizados, desumanizados e marginalizados. Ao mesmo tempo em que o carnaval usa a imagem do corpo negro feminino para sustentar sua autenticidade estética, retira dessas mulheres o direito de ocupar lugares de prestígio político dentro das escolas. Quando uma celebridade branca assume o posto de rainha de bateria, a mídia a celebra como símbolo da beleza e da exuberância do carnaval, mas ignora que essa função nasceu da reverência às matrizes negras. Assim, cria-se um paradoxo: o corpo negro é indispensável para validar a estética do samba, mas é excluído das funções que conferem prestígio e poder dentro da própria comunidade.
Lélia Gonzalez era uma crítica do feminismo branco que não gosta das mulheres negras, e sua avaliação reverbera no carnaval, já que muitas mulheres brancas não compreendem a luta e o histórico aniquilador do racismo e seguem contribuindo para esse processo. Ela compreendia que a desvalorização do pensamento das mulheres negras não é um descuido, mas uma prática política de dominação. No carnaval, isso aparece na forma como os saberes das matriarcas são transformados em folclore, enquanto suas contribuições intelectuais são tratadas como irrelevantes. O apagamento das mulheres negras no carnaval não é apenas estético: é epistemológico. Trata-se de negar às mulheres negras o estatuto de produtoras de conhecimento — posição essencial para que o controle simbólico sobre suas próprias tradições seja mantido em suas mãos.
Diante desse quadro, torna-se evidente a urgência de uma revisão histórica profunda. O esquecimento das matriarcas do samba não é fruto de distração, mas resultado de políticas culturais e midiáticas que privilegiam narrativas brancas. Reverter esse apagamento exige uma reconstrução da memória coletiva, feita a partir das vozes das próprias comunidades negras. A oralidade, elemento central das tradições afro-diaspóricas, precisa ser tratada como fonte legítima de conhecimento histórico. Jornalistas, pesquisadores, griôs, mães de santo, sambistas e moradores dos territórios são protagonistas desse processo. É por isso que este artigo, escrito a partir de um homem preto que pensa as tradições afrodiaspóricas e de uma mulher negra pertencente ao samba, ao candomblé e à capoeira, afirma-se como gesto político alinhado à visão de Thereza Santos: pensamento e execução entre homens e mulheres negras não são funções separadas, mas expressões de uma mesma prática ancestral.
O enfrentamento do branqueamento no carnaval requer ações concretas. É preciso instituir políticas internas nas escolas que priorizem mulheres negras em posições de destaque, valorizando suas trajetórias e garantindo que o território simbólico permaneça nas mãos de suas herdeiras legítimas. A mídia deve ser pressionada a abandonar estereótipos que reforçam a branquitude como padrão de beleza e representatividade carnavalesca, paralelo a isso estão as mulheres brancas mídiaticas que se utilizam do capitalismo para colocar seus corpos em destaque. Além disso, projetos de memória — como museus comunitários, arquivos públicos, documentários, livros e premiações — são fundamentais para resgatar e eternizar as histórias das matriarcas do samba. Universidades e centros de pesquisa precisam reconhecer a importância dessas mulheres como intelectuais, produzindo trabalhos acadêmicos que fortaleçam sua centralidade histórica. E, no campo comunitário, redes de apoio e fortalecimento entre mulheres negras podem combater a lógica de substituição que tenta empurrá-las para fora dos espaços que construíram.
O carnaval paulistano só terá futuro se for capaz de reconhecer e honrar sua origem. Essa festa não nasceu branca, não nasceu glamourosa, não nasceu para servir à ostentação midiática. Nasceu da dor, do riso, da espiritualidade e da resistência das mulheres negras que, mesmo diante do racismo estrutural, construíram espaços de beleza, coletividade e emancipação. Permitir que os corpos brancos ocupem o espaço das matriarcas é continuar o processo de colonização que sempre tentou silenciar a cultura afro-diaspórica. Reverter essa lógica é afirmar, com firmeza, que as mulheres negras não são figurantes do carnaval: são sua espinha dorsal, sua raiz, seu coração e sua memória.
De Dona Sinhá às “sinhazinhas”, percorremos uma linha histórica que revela o quanto o Brasil ainda precisa enfrentar suas desigualdades raciais e de gênero. O futuro do carnaval de São Paulo depende da capacidade de reconhecer que o protagonismo negro não é opcional, mas essencial. É preciso recuperar as histórias, os nomes, os rostos e as vozes dessas mulheres poderosas, impedindo que suas herdeiras sejam substituídas por figuras brancas que nada representam da ancestralidade que sustenta o samba. O carnaval só será verdadeiro se continuar sendo, antes de tudo, um território de mulheres negras — como sempre foi, apesar de todos os apagamentos.











