Cobertura por Thalyta Silva | Enviada especial a Belém
Se de um lado a COP30 celebrou avanços diplomáticos, de outro, a vivência no evento expôs um abismo profundo entre o discurso oficial e a realidade dos territórios. Enquanto líderes globais falavam em “soluções” nos pavilhões climatizados, vozes como a de Zica Pires, moradora do Quilombo Santa Rosa dos Pretos (MA), questionavam a própria essência do encontro.
“A primeira coisa é: se é um acordo entre partes, quem são essas partes?”, provoca Zica, que participava de sua primeira COP. “Será que isso é um acordo de branco para branco? E aí, estando naquele ambiente, eu entendi que sim”.
Sua percepção foi moldada por cenas de desconexão radical. “É impossível aquelas pessoas ali naqueles pavilhões apresentarem soluções para melhorar o planeta se as próprias pessoas estão doentes”, dispara. “Eu vi um pé de açaí que foi cortado e colocado lá no ambiente da COP exposto. Que banalidade é essa? Eu vi também um pé de pau d’arco, um ipê na mesma condição. A pessoa está literalmente assassinando a natureza e ainda expõe como se fosse a coisa mais normal”.
A Estrutura do Racismo e o Sequestro das Narrativas
Para Zica, a própria arquitetura meteórica do evento – a Zona Azul e a Zona Verde construídas em tempo recorde – é um símbolo do racismo ambiental. “Eu, sendo quilombola, morando numa comunidade de mais de 345 anos, a gente não tem garantia de direitos básicos. Mas como você negligencia a vida de modo secular e consegue criar estruturas bestiais assim? É a manutenção do racismo”.
Ela critica a falta de voz nos espaços de decisão: “Quem tava compondo muitos painéis eram na maioria homens brancos. Eu não me vi, não me reconheci em ninguém ali. E o detalhe: estavam falando sobre a nossa vida. Vida de indígena, de quilombola. Isso é uma hipocrisia, porque a gente sabe falar. É um sequestro narrativo”.

Sua conclusão é um ensinamento ancestral: “A minha mãe sempre dizia que é preciso pisar chão para ler mundo. Sem isso a gente não pode pensar em solução para nada”.
O Contraponto da Sociedade Civil e as “Falsas Soluções”
A análise crítica é compartilhada por Maíra Silva, bióloga e consultora quilombola, que atuou na Cúpula dos Povos. Ela reconhece o esforço da diplomacia brasileira, mas faz uma leitura geopolítica cautelosa. “A gente ainda tem que entender, enquanto povos tradicionais, o que são essas convenções e qual o contexto político atual”, pondera.
Para Maíra, a participação da sociedade civil serve como um contraponto essencial: “Para falar que nós estamos aí, não somos poucos, sabemos o que a gente quer: soberania alimentar, justiça climática para periferia e quilombos, financiamento direto”.
Ela alerta para as “falsas soluções” promovidas por países ricos e corporações. “Para citar um exemplo, a própria Suzano que fala de reflorestamento após violar direitos de comunidades quilombolas no Espírito Santo”. Na COP, a presença massiva do agronegócio e casos de greenwashing mostravam os “dois lados da moeda” que o movimento precisa enfrentar.
“A minha avaliação é essa”, conclui Maíra, “que a gente precisa se organizar sempre, debater isso em todos os âmbitos – no território, regional e nacionalmente – e fazer essas articulações”.
As duas faces da COP30 na Amazônia ficam evidentes: uma de reconhecimento e avanço político, outra de contradições estruturais e a luta por narrativa. Juntas, elas compõem o retrato complexo da justiça climática no Brasil, onde o chão da floresta e o assoalho dos pavilhões parecem, muitas vezes, mundos separados.










